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terça-feira, 23 de maio de 2017

Construindo Marcas Fortes

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*Maurício A Costa é Um obcecado por resultados, focado em pessoas, no pensamento estratégico e no valor agregado. Ex-Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica).
Está disponível para participar de Empresas sérias, que estejam interessadas em analisar novas oportunidades, melhorar resultados e aumentar rentabilidade.
Como autor e palestrante, disponível para, conferências e workshop que poderão mudar a sua visão do mundo, e alavancar o potencial de sua equipe. Disponível também para atuar como 'Coaching' de Empresários ou Executivos.

Contatos: mauriciocosta@uol.com.br

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um dia em Candeleda





Por Maurício A Costa*
Mauricio A Costa em
Candeleda(Espanha) Out/2001




"Desligue a mente. Perceba a beleza de cada momento; alegrias e tristezas fazem parte do enredo. Deixe a sua alma fluir ao sabor do acaso. Enquanto isso o universo irá conspirar por você; simplesmente porque você é parte de algo maior" (O Mentor Virrtual)





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Já passava das vinte e uma horas, quando parei para refletir sobre um trecho que acabara de ler em ‘Humano, Demasiado Humano’ onde Nietzsche escrevia:  “Apenas os homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica; mas, se houvesse graus de aproximação a essa meta, o que não se haveria de perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas(Cia das Letras, pág. 38 – São Paulo-SP – 2000). - Abri a pequena janela lateral do avião, e me extasiei com o magnífico pôr-do-sol que se desmanchava lentamente sobre o horizonte, enquanto iniciávamos nossa aproximação para pouso no aeroporto Barajas em Madrid, depois de cruzar boa parte da Espanha em um voo sereno como o de uma gaivota em busca de terra firme.

Málaga
Eu deixara para trás a beleza exótica de Málaga e agora me programava para uma noite de descanso, no dia seguinte perambular pelas ruas de Madrid, e à noite retornar para São Paulo em um voo que decolaria por volta das vinte e três horas.

Atravessei o imenso saguão do Barajas, alheio ao intenso movimento das pessoas, sem prestar atenção àqueles rostos que circulavam como formigas alienadas, correndo de um lado para o outro. Tomei o primeiro táxi que avistei, e repentinamente, sem qualquer razão aparente, passou-me a sensação daquele carro estar ali apenas esperando por mim. 

Rua de Candeleda (Espanha)
Depois de informar ao ‘taxista’ o hotel onde pernoitaria, iniciamos uma conversa animada, como se fossemos amigos de longa data. Ao saber que eu teria apenas um dia em Madrid, ‘meu novo amigo’ me convidou para ir com ele a Candeleda, sua terra natal, cerca de cento e oitenta quilômetros dali, para passarmos o domingo conhecendo sua família, pratos típicos e a paisagem do campo na Espanha. 

Naquela noite, decidi não sair para jantar e ficar descansando no quarto do hotel. Em compensação, esvaziei um vidro de azeitonas verdes com anchovas da pequena geladeira, e algumas latinhas de uma cerveja local. Dormi como um anjo, (mais pelas cervejas do que pelo cansaço), e acordei às 06:30 da manhã sem me dar conta de onde estava, (sensação comum para quem troca de hotel várias vezes durante uma viagem). 

Encontrei ‘meu amigo espanhol’ na recepção meia hora depois e pegamos estrada, sob o sol de um domingo frio, embora ensolarado, de um outono europeu.

Estátuta da Cabra Montanhesa (símbolo da região)
Ao chegarmos, a Candeleda por volta das nove da manhã, fomos recebidos calorosamente, como se eu fosse parte daquela família, com um café da manhã ao estilo mais campesino da Espanha, com direito a tostadas com aceite de oliva, jamón, churros, rebanadas, e outras iguarias. Uma conversa animada, onde entrava em pauta todo tipo de assunto, e ríamos de tudo.

Uma hora mais tarde eu estava circulando pelos arredores daquele lugarejo, observando mais com a alma do que propriamente com os olhos. Um 'viajar' por lugares que me tocavam a todo momento. Em cada paisagem, em cada riacho, ou cada moradia uma sensação de nostalgia, como se houvessemos voltado no tempo durante aquelas horas. Tudo era motivo de inspiração. Um retorno à plenitude da natureza em sua forma mais bela. E foi então que me dei conta da frase de Nietzsche que eu havia lido durante o voo de Málaga para Madrid: ‘Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas’. Uma alegria interior tomou conta de mim, e de repente, senti como se aquele louco filósofo nos fizesse companhia com suas metáforas.

Circulamos por um sítio arqueológico dos Celtas, descoberto poucos anos atrás, e dali avistávamos todo o vale do Rio Tiétar, e a Sierra de Gredos que circunda a região. Uma visão extraordinária, que dava um ar de sagrado a cada pensamento naquele momento. Sensações poderosas para o rompimento gradual que eu experimentava, entre o executivo arrogante da minha história recente, e o insignificante aprendiz de mim mesmo em que ia me tornando. Uma metamorfose lenta, mas decisiva. Um processo de mudança a encerrar o interesse pelo conhecimento desvairado por teorias econômicas, comerciais, ou marqueteiras, e inaugurar uma busca intensa pelo autoconhecimento. Um mergulho profundo e irreversível para dentro, e assim compreender essa ‘ilógica relação fundamental com todas as coisas’.

Enquanto caminhávamos ao lado do Tiétar, eu o observava sentindo a materialização do tempo em suas águas; um fluxo contínuo e ininterrupto de energia que segue seu único destino, de maneira decisiva e consistente, em direção ao desconhecido. E nesse momento, eu perguntava em silêncio ao velho Nietzsche, se aquela ‘ilógica relação’ a que ele se referia não seria na verdade um retorno às nossas origens; uma viagem às misteriosas cavernas de um ignorado ponto de partida onde iniciamos nossa caminhada, para uma escalada sem precedentes de irracionalidade e fantasias.

Caminhando entre as pedras de ‘El castro de El Raso’; aquelas ruínas dos antigos povos Celtas, eu me questionava se havíamos realmente evoluído desde então, ou se apenas perdêramos o contato imprescindível com a natureza; e não tardou a vir à mente palavras do insano filósofo que tanto me inspirou nesse dia, a dizer-me: ‘Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem’. (Nietzsche, em Humano, Demasiado Humano). Ao relembrar essas palavras, eu me dei conta de como tudo aquilo havia se desdobrado, desde aquele magnífico pôr-do-sol sobre a Espanha, antes do pouso em Barajas: Uma autêntica viagem no tempo em questão de poucas horas, como se ele (o tempo) houvesse parado entre a ilusão de dois crepúsculos.


Voltamos a Madrid no final daquela tarde, onde meu novo amigo me deixaria no Aeroporto para o voo de volta ao Brasil. E enquanto aquele confortável automóvel deslizava por uma estrada em meio a verdejantes oliveiras, eu me sentia perplexo com o desenrolar dos fatos que culminariam com um inesquecível dia em Candeleda; um pequeno paraíso encrustrado entre montanhas da Espanha. 




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*Maurício A Costa - Escritor, Palestrante e Advisor. É o Idealizador do Projeto Mentor Virtual - Empreendimento com fins educativos, focado no despertar da consciência humana, na valorização da vida, e no apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop estão disponíveis para Empresas, Escolas, Universidades e Associações, com reflexões que poderão mudar sua visão de mundo, e alavancar o potencial de sua Equipe.