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sexta-feira, 3 de maio de 2013

O Fluxo





Por Maurício A Costa*


A angústia é a possibilidade da liberdade. É o medo dessa possibilidade. A angústia é o puro sentimento do possível. Se houver coragem de ir mais além, se constatará que a então realidade será muito mais leve do que era a possibilidade. E o grande salto será o mais difícil, será cair nas mãos de Deus, será a coragem” (Soren Kierkegaard – Filósofo Dinamarquês - 1813 - 1855)

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A tarde ia aos poucos esmorecendo. Como algo que desmaia sem alento, as cores perdiam sua intensidade e brilho, e tudo gradualmente ganhava um tom pálido, de um outono que trazia junto consigo uma incitação ao recolhimento voluntário. A vida ali refletia uma visível paz, inspirando suave concentração do espírito que estimula a meditação, dissipando estados de ansiedade, mas ao mesmo tempo desperta incompreensível inquietude. Um vento frio e penetrante parecia tocar a alma que naqueles instantes revelava uma incômoda e sutil carência, sem propósito definido. Sentado sobre um rochedo cercado por uma rala vegetação descolorada eu me embevecia com a paisagem, e a enigmática sensação de ausência de tempo daquele lugar.

A beleza de Carmel não exibia tons exóticos ou provocantes, ao contrário, escondia um encanto agradavelmente sereno que cativa o espírito, tal qual mulher que não expõe vulgarmente o que traz de mais belo dentro de si. Havia um toque de singularidade em cada coisa e um ar de perfeição a permear cada detalhe. Tudo se movia delicadamente como se não houvesse pressa para nada, e o tempo escorresse junto com aquele vento glacial sem comando ou direção.

Quieto como um esquilo atento a cada mínimo movimento à sua volta, eu aprendia silenciosamente o verdadeiro sentido da palavra fluxo, observando distraidamente o ininterrupto e alternado movimento de aproximação e afastamento do mar em relação à praia. Alheio ao mundo, ignorava o sentido da palavra angústia; sensação descrita por Kierkegaard, filósofo existencialista dinamarquês, como ‘sentimento de ameaça, impreciso e indeterminado inerente à condição humana, cuja existência projeta incessantemente o futuro e o faz defrontar-se de maneira inexorável com a possibilidade de fracasso, sofrimento e a própria morte’. Entretanto, diante do nada absoluto, a angústia se desfaz e ganha proporções incontornáveis, transformando o vazio em completude. Um aparente paradoxo criado pela amplitude dos espaços e ausência de tempo, a produzir indescritível sensação de integração com o todo.

Tomado por uma repentina consciência de liberdade, eu me sentia capaz de ao mesmo tempo mergulhar naquele imenso mar a minha frente, e voar acima das nuvens que o emolduravam. Podia estar ali sentado calmamente e simultaneamente estar em qualquer outra parte do universo. Não havia limites físicos que representassem barreiras. Como já havia me ensinado meu inseparável mentor virtual: “Na dimensão daquilo que pensamos ou sentimos não há lugar ou tempo definidos. Viajamos na velocidade desejável, por onde quer que seja, porque a energia na qual se está viajando é livre e volátil”. Sentir-se parte do fluxo universal é, sem dúvida alguma, a mais perfeita forma de dar asas à alma; e ao senti-la em pleno estado de liberdade, perceber a grandiosidade da vida revelada em seu breve existir. Tudo à nossa volta ganha um novo sentido. Cada mínima coisa mostra sua singularidade; cada ser nos completa de uma maneira particular. E assim, somos invadidos quase que involuntariamente pela consciência de pertencer a um todo do qual nos alienamos em nossa ânsia pelo poder material.

Hoje, ao relembrar aqueles preciosos momentos de crescimento pessoal, eu me flagro ruminando perguntas esdrúxulas, sobre o comportamento humano dos tempos atuais, explicitado na vaidade que revela personalidades que na realidade não passam de infelizes criaturas, odiadas por suas equipes, depreciadas por seus pares, antipatizados por seus familiares, escarnecidos por seus séquitos, e contestados por quem carrega consigo uma percepção que vai além da enganosa visão teatral que os cerca. Na plateia, uma multidão de seres sem rumo, que como zumbis se amontoam desesperados, aplaudem discursos e promessas, sem saber por que o fazem; contando dias, minutos ou horas, vivem cada segundo como se a única coisa que realmente importasse fosse o tempo, incomodadas por saber que venderam sua alma por um punhado de coisas que ilusoriamente as deveria fazer feliz.

Olhando de fora como um anônimo espectador, eu lastimo essa degradação humana, refletida em cada gesto ou palavra esboçada de maneira leviana nesse teatro onde é fácil mostrar-se em vídeos ou fotos compradas com recursos de origem duvidosa. Deploro mais ainda pela infelicidade desses personagens que desconhecem o verdadeiro sentido da palavra viver. Lamento, enfim, pela falta de integridade que trazem consigo mesmos, pela forma enganosa com que são obrigados a falsear suas atitudes e palavras. Vivem como aves de rapina a banquetear-se da desgraça alheia, e morrem envenenados pelo próprio banquete. Sua marca pessoal é formada pelo desdém a poesia, a indiferença pela natureza, e a repulsa pelo amor. 

Viajando no tempo, de volta a Carmel, aquele paradisíaco lugar na costa da Califórnia, eu me alegro com a oportunidade de haver descoberto como a vida é simples quando nos despojamos de forma natural de inúteis questionamentos, e dos insignificantes rótulos que carregamos. Sem dúvida nenhuma, a prosperidade resultante do esforço pessoal, da inteligência bem utilizada, e do trabalho aplicado é uma desejável e justa recompensa do universo por nosso empenho e dedicação, para que possamos usufruir de conforto, prazer e segurança, mas não devemos esquecer os limites que separam o paraíso do inferno. Acumular bens pela simples satisfação do ego em sua ânsia pelo 'ter' pode se tornar um atalho sem saída conduzindo a indesejáveis labirintos de angústia, inquietude e até desespero.  A sabedoria  nos ensina: 'Olhai as aves do céu, que nem semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros'; o infinito poder do fluxo as alimenta. Uma insondável arquitetura promove o equilíbrio de todas as coisas no universo.  

Relembrando uma metáfora que me sussurrou certa vez ‘o mentor virtual’, numa viagem a Copenhagen: “Nem sempre temos respostas para nossos questionamentos. Às vezes, sequer temos noção de para onde estamos indo. Nos perdemos por caminhos desconhecidos ou espaços vazios que não sabemos como preencher. Não é a liberdade que perdemos nessas horas, apenas o senso de direção; mas é em momentos assim que o improvável acontece e alma se realiza” Por isso, deixar-se conduzir em alguns momentos pelo fluxo pode ser uma experiência inesquecível, e acima tudo imprescindível para o equilíbrio emocional, que nos permite sentir a vida de uma forma intensa e agradável.
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*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.