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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

O Imponderável e o Imprevisível




Por Maurício A Costa*


"Morremos a cada fase de nossas vidas, renascendo cheios de interrogações. Todavia, a essência daquilo que somos não acaba jamais, e nos ensina o caminho. Atravessando as planícies do tempo, essa energia irá fluir serena por todos os espaços por onde penetrar. Viajando sem destino certo, nosso legado será a força e a beleza da nossa marca pessoal". ('O Mentor Virtual II' - O Elo Invisível - Campinas-SP – Em gestação).

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Não há nada neste mundo que me fascine tanto quanto a expressão que dá título a este artigo: O imponderável; algo difícil de ser calculado, mas cujos desdobramentos podem afetar nossas vidas para sempre de maneira significativa. Não quero me prolongar aqui com traduções científicas do termo para não tornar o assunto enfadonho ou intelectualizado, uma vez que a palavra imponderável está associada tecnicamente a uma eventual ausência de peso causada pela gravidade. Minha reflexão estará focada unicamente nos efeitos do imprevisível ao longo de nossa existência: Aquilo que é fruto do acaso; algo fortuito, aleatório ou circunstancial, e assim por diante.

A imponderabilidade, tal qual o imprevisível, é algo desafiador por nos colocar repentinamente diante de situações cruciais, ou para usar uma expressão vulgar, ‘no meio de uma encruzilhada’. Como não é aguardada, toma-nos de surpresa; e é esse fator ‘surpresa’ que nos deixa embasbacado, ou ‘de calças curtas’, quase sempre sem ação. Ao sermos surpreendidos com o 'inusitado', é comum uma reação de paralisia ou desespero; desaparece o bom senso e a serenidade e entra em cena o estresse decorrente da emocionalidade, e em alguns casos até mesmo a irracionalidade dos apelos ao sobrenatural. Passamos a agir como se o mundo, de uma hora para outra, conspirasse contra nós. Nessas situações, buscar culpados parece o caminho mais fácil, e por isso, é com frequência uma regra geral de comportamento. Bradamos inutilmente aos sete ventos que nosso problema decorre da ação (ou falta dela) de outros; que fomos abandonados por Deus; que o destino foi ingrato conosco; que fizeram macumba; que o governo foi omisso com a concorrência predatória externa, que o tempo não ajudou... e assim por diante. 

As perguntas, ou questionamentos que surgem agora em meio a essa análise são: Onde termina o imponderável e começa a previsibilidade?... Em que ponto falhamos por não prever?... Qual o grau de participação da ‘imponderabilidade’ nesse tal evento?... Qual o nível de burrice, cabeça dura ou vaidade em não aceitar recomendações de outros com uma visão diferente?... Por que não agimos mais cedo quando começamos a perceber que algo já demonstrava certa tendência de ‘descambar’ para o indesejável?... Perguntas incômodas, mas necessárias, numa reflexão dessa envergadura, pois estamos falando de momentos cruciais, cujas consequências costumam afetar nossos empreendimentos, nossas famílias, e muita gente que nos acompanha na jornada.

Conheci tempos atrás, certo homem cuja postura era extremamente arrogante e centralizadora. Suas atitudes demonstravam um visível excesso de autoconfiança, revelando uma vaidade sem limites, a beirar o ridículo. Agia como se fosse senhor absoluto da verdade, humilhando pessoas à sua volta com palavras de desdém, ou mesmo de baixo calão, tratando-as como se fossem idiotas, infantis, ou incompetentes; fossem elas filhos, esposa, amigos, amantes, ou colaboradores. Tudo tinha que estar abaixo do nível do seu ego descomunal; sua palavra haveria de ser sempre a profecia, a sentença, a lei... Até o dia em que o 'imprevisível’ surgiu com a força de um tsunami, avançando com poder destrutivo sobre o que levara tempo para ser construído, transformando o magnata em um endividado; o herói em um paspalho. Imprevisível?... Não. Aquilo era algo totalmente previsível. E é aqui que precisamos começar a distinguir o significado da enigmática palavra imponderável, das demais expressões similares. O imponderável transcende a capacidade humana de prever; não é apenas fato inesperado, ou meramente circunstancial, pode ser fortuito ou aleatório sim, mas será sempre um fator transcendente; algo que excede os limites normais; extrapola a natureza física das coisas. O imponderável é metafísico, diriam os grandes pensadores. Já o imprevisível pode estar associado a um ‘não prever’, isto é, à ausência de sensibilidade estratégica, que define prioridades em meio a múltiplas alternativas. O imprevisível decorre com frequência da vaidade ou arrogância pessoal, do comodismo viciante, ou da ‘sobreconfiança’ traiçoeira.

Conheço empresas que fizeram chacota quando se falava para elas sobre o pensamento estratégico e a sua importância na elaboração de qualquer plano de voo da organização. Lamentavelmente, algumas delas posteriormente vivenciaram sérias turbulências; outras tiveram que mudar de mãos, ou até mesmo fechar suas porta, por conta da arrogância de ignorar ‘recomendações’ que as prevenisse de previsíveis ‘imprevisibilidades’. Tornaram-se vulneráveis, não por conta de qualquer imponderabilidade, mas devido ao fato de subestimar pesquisas, ignorar tendências, ou sobreconfiar nas próprias decisões. Vítimas de suas próprias armadilhas, diria meu inseparável 'mentor virtual'.

Outra visão crítica da falácia do imprevisível diz respeito à confusão que muitos fazem entre fé cega sem fundamentação lógica, e o bom senso. Uma coisa é viajar com um avião devidamente equipado e abastecido, depois de uma disciplinada análise das condições do tempo no percurso e no aeródromo de chegada; outra é decolar com o excesso de confiança de que o tempo vai melhorar, com base unicamente na fé de que no final tudo vai dar certo; entregando o ‘abacaxi’ nas mãos de Deus, como se ele fosse seu ‘quebra-galho’, para situações emergenciais. Um relâmpago pode ser algo imponderável por não sabermos quando ou de onde partirá, mas é algo previsível quando voamos em meio a tempestades.

Vivenciar, situações indesejáveis, ou momentos de angústia existencial nem sempre significa ser vitima do imponderável, na maioria das vezes, é provável que estejamos assistindo previsíveis consequências de nossas próprias atitudes. Por isso, de nada adianta ‘xingar’ a Deus, ou o Diabo, o vizinho, a mulher ou marido, o patrão, ou o tempo. É bem verdade que somos demasiadamente suscetíveis ao imponderável, sendo parte de um universo tão complexo e caótico, com milhões de elementos interagindo entre si, a produzir efeitos de intensidade variável, desdobramentos inesperados, e resultados indefinidos; mas há uma quantidade razoável de situações que poderemos prever simplesmente observando nossos próprios pensamentos, palavras e gestos. Cumpre-nos estar consciente de que ‘aquilo que semeamos, inevitavelmente iremos colher’. Cada ação ou omissão de nossa parte irá desencadear uma série de possíveis eventos, sobre os quais temos uma significativa capacidade de prever. Basta não nos portarmos de maneira inconsequente, cínica, ou ingênua, como costumamos fazer boa parte do tempo.
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"Escrevemos nossa história a cada momento do caminho, sem noção do peso de cada mínima decisão. Em cada coadjuvante dessa história, vai ficando um pequeno pedaço de nós, enquanto carregamos indeléveis cicatrizes que permanecerão conosco para sempre". (Fragmentos do Mentor Virtual – Campinas-SP)




*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio.
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.

sábado, 5 de janeiro de 2013

‘Volare’




Por Maurício A Costa*


Para o escritor, a história nunca termina. Como névoa, alguns personagens se esvaem, enquanto outros suavemente vão surgindo. A vida é um reciclar eterno, revelando toda beleza e magia da fantasia que formos capazes de criar, para deixar marcas que permanecerão para sempre” (Mauricio A Costa, em artigo do blog Marcas Fortes – Dez.25-2010).

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Acordei naquela manhã de sábado com uma intensa luminosidade no quarto. Havia adormecido com as janelas do meu apartamento totalmente abertas, contemplando um estonteante céu desenhado exclusivamente para mim, e agora nossa estrela maior já brilhava com toda sua energia, despertando os humanos da terra para mais um dia. Tudo levava a crer que apesar de belo, aquele iria ser apenas mais um dia como outro qualquer. No entanto, algo lá no fundo me dizia que ele nascia para ser um dia especial; embora eu não soubesse explicar por que, havia algo no ar que me agitava internamente, a esconder uma silenciosa calmaria, como aquelas que antecedem uma incrível turbulência.

Levantei displicente, liguei o equipamento de som e deixei a música do universo penetrar por cada cômodo, como um perfume que invade o cérebro a produzir inexplicáveis reações. Alheio ao mundo que borbulhava lá fora dezoito andares abaixo, eu vagava pelo meu apartamento numa completa nudez, sem a mínima noção de pudor, curtindo uma delicada brisa que suavemente me tangenciava, a produzir incomparável sensação de liberdade. Enquanto isso, milhões de pensamentos iam aflorando, trazendo à consciência inesquecíveis momentos de uma vida em processo de construção: Amigos, musas, vinhos, noitadas, viagens, projetos, conquistas, fracassos, desafios... Pensamentos que iam e vinham como bolhas de sabão... Mal explodia um, já nasciam vários... Alguns maiores, outros menores, mas todos igualmente efêmeros. Viajando ao som da música que estranhamente me conduzia, eu já não sabia se ainda dormia ou se estava a flutuar naquele imenso céu azul que parecia me convidar a voar.

Entrei no chuveiro como quem se entrega à chuva, sentindo cada gota d’água escorrer sobre o corpo, num banho demorado como alguém que deseja livrar-se das energias negativas de um passado que se quer ardentemente esquecer. Cada minuto ganhava a duração de um século, porque não há pressa quando se penetra nos umbrais do universo para realizar um ritual de passagem. Viaja-se como o som, conduzido pela desconhecida energia que a tudo permeia, ou como água que flui entre rochedos a retirar-lhe o inútil limo que se acumulou com o tempo. Em meio ao aguaceiro que lavava a alma, eu me despia de frustrações e fazia renascer a esperança de dias melhores. E assim, um novo ser aos poucos ia surgindo das cinzas sem que eu me desse conta do milagre.

Vesti um jeans e uma camisa polo, calcei um confortável tênis, tomei um leve ‘breakfast’, e sem perda de tempo rumei para o Aeroclube de São Paulo, onde meu instrutor me aguardava para mais uma de suas inesquecíveis aulas de pilotagem. O céu era de brigadeiro naquela manhã. Quase não havia nuvens, como é comum nos dias de inverno. A temperatura era imensamente agradável e o vento não passava de uma leve brisa. Tudo isso era um convite a voar. Voar em busca de horizontes que nunca terminam. Voar porque havia um imperativo que eu trazia comigo desde a infância. Voar porque a vida não passa de um magnífico voo.

Pista do Campo de Marte
Aeroclube de São Paulo
Decolamos com nosso já conhecido avião, um pequeno ‘Archer II’ produzido sob licença da Piper americana com o nome de ‘Tupi’ pela Embraer. Um monomotor de leveza inigualável, com sua confortável cabine de comando duplo, e espaço para quatro pessoas. Uma aeronave que parecia sentir-se feliz voando, e flutuava sereno como um pássaro de metal levado pelo vento como uma pluma. Deixando para trás a área do Campo de Marte, nos dirigimos para a região de Jundiaí, onde costumávamos fazer ‘pousos e arremetidas’ para fins de treinamento, e durante o voo, meu instrutor me solicitou que fizesse algumas manobras radicais, como ‘perda’ e ‘pane simulada’, procurando avaliar meu nível de capacitação e controle do avião; tudo dentro dos padrões de uma aula convencional para aquele estágio. Todavia, para minha surpresa, quando ainda sobrevoávamos o Aeródromo de Jundiaí, ele me falou taxativo: ‘vamos fazer um pouso completo, e estacionar ali por uns momentos’. Achei aquilo um pouco estranho, mas pousei nosso Tupi com a máxima elegância possível.

Ao estacionar no pátio do Aeroclube, meu instrutor voltou a me falar, dessa vez com um tom mais grave: ‘agora eu vou descer, e você vai decolar sozinho para seu primeiro voo solo’... Um calafrio repentino me percorreu a espinha dorsal! Olhei para ele com um olhar assustado e perguntei: ‘se eu iria fazer um voo solo hoje, porque você não me avisou um dia antes, ou pelo menos antes de decolarmos, para que eu me preparasse para isso?’... Ele então me respondeu sem hesitação: ‘se eu tivesse lhe avisado um dia antes, você não teria dormido bem por conta da ansiedade; se houvesse lhe avisado antes da decolagem, você teria feito um voo nervoso e não teria me mostrado o quanto está pilotando bem, com fez hoje’... Sorri para ele, e confiante falei: ‘Então está bem... Vamos lá. Tenho certeza de que farei um belo voo’... Ao que ele me respondeu retribuindo o sorriso: ‘Curta esse momento que é só seu agora. Você esperou e se preparou a vida inteira para isso. Bom voo’...

Taxiei pela pista. Fui até a cabeceira e decolei com aquele Tupi como se fôssemos um ser único. Piloto e avião voando juntos, enquanto uma sensação indescritível ia tomando conta de mim. Olhar no horizonte, quase sem piscar, eu evitava olhar para a minha direita, para não me dar conta de que o ‘Bola’, meu inesquecível instrutor não voava ao meu lado. Ali agora, havia apenas um assento vazio. Eu estava só. Levando comigo todos os meus sonhos de infância e adolescência de um dia poder pilotar uma máquina como aquela. Curtia, realmente, aquele momento como só meu. Um momento único, incomparável, insubstituível, inigualável, e acima de tudo exclusivamente meu, como houvera escutado alguns minutos atrás. A alma enviava uma emoção faiscante para os olhos, mas a mente sugeria que aquela não seria uma boa hora para lágrimas, afinal, eu estava no comando de uma aeronave, em que toda atenção e concentração estariam sendo exigidas de mim naqueles momentos. Por conta disso, contive a emoção, mas meu coração pulsava mais forte que os cavalos daquele motor à minha frente, e minha mente girava mais veloz que a hélice que nos mantinha voando. Posso dizer que juntos, eu e aquela pequena aeronave, tivemos um orgasmo cósmico. Havia uma relação perfeita enquanto voávamos. Tudo estava sincronizado e podíamos sentir cada vibração. Uma interação extraordinária entre homem e máquina, como se houvessem sido feitos um para o outro. Flutuando numa invisível camada de ar, deslizávamos sobre um oceano de prazer, ignorando qualquer obstáculo que pudesse interferir naquele voo.

Aeródromo de Jundiaí-SP
Depois de alguns minutos de pura realização e plenitude dos sentidos, retornamos, eu e aquele pequeno pássaro, à ilusória segurança do solo, já saudosos daquele momento que havia sido único para alguém que descobrira para sempre o prazer de voar. Lá embaixo, nos aguardava ansioso  meu competente e confiante instrutor, que tanto me ajudara com extremo cuidado a chegar até ali. Seu abraço entusiasmado nos colocava no mesmo nível de emoção. Suas palavras de estímulo soavam como música aos meus ouvidos, e me encorajavam a seguir em frente. Meu único desejo naquele instante era eternizar aquele momento. Eu havia desafiado meu medo de voar, e agora o desafiara de maneira singular: sozinho. Frente a frente com a minha insegurança, eu provara que quando vamos ao encontro de nossos sonhos não há nada que nos detenha; não há temores ou obstáculos que nos apavorem, porque nos tornamos gigantes; maiores que o próprio desafio.

E ao final daquele memorável dia, enquanto me deleitava observando da janela do meu apartamento um estupendo por de sol, eu me dava conta de que, sem perceber, havia vivenciado mais um incrível ritual de passagem, que me ajudaria para sempre na caminhada; e aprendido o quanto nossos sonhos sinalizam essa caminhada. Aprendera também que a insegurança e o medo não são simples sintomas de uma atitude passiva ou mera covardia, eles podem indicar reflexos da ausência de um mestre que nos pegue pela mão e nos conduza nos momentos cruciais, estimulando-nos a encarar o desafio de forma determinada. Descobri naqueles memoráveis momentos a importância de contarmos com pessoas que nos encorajam a ir em frente de maneira autoconfiante, mesmo que ainda não nos sintamos confortavelmente preparados. Porque à revelia dos nossos medos, voar é preciso...


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*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio.
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

A Hipocrisia do Corporativismo





Por Maurício A Costa*

"Todas as minhas vaidades não passam de insignificantes presunções de uma falsa superioridade. Sou apenas uma ínfima partícula de algo extraordinário. Só a consciência de mim mesmo me torna digno de ser chamado humano" ('Fragmentos do Mentor Virtual' – Campinas-SP – Em Gestação)
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Do meu singelo ponto de vista, o que o ser humano possui de mais extraordinário é a sua individualidade. Sua capacidade de elaborar e harmonizar pensamentos a partir de observações é única entre todos os seres vivos conhecidos, e não há nada igual à maneira como percebe cada mínima informação à sua volta. Cada coisa será vista com um olhar próprio e exclusivo, e por mais que tenha uma visão parecida com o outro, ainda assim, sua percepção será excepcional e incomparável. Esse é sem dúvida um poder sem precedente, a criar a multiplicidade de visões sobre um mesmo fato, som ou imagem. Diante de cada situação, somos capazes de construir inconfundíveis sensações. Marcantes, excepcionais, singulares.

Os dias atuais, no entanto, revelam que estamos caminhando na contramão desse princípio, por estarmos abrindo mão dessa individualidade para nos tornarmos bandos, por conta da insegurança, da ausência de perspectivas, da fraqueza de espírito, ou até mesmo por ganância. Temos medo de nos sentirmos sós, e consequentemente, desprotegidos e vulneráveis, e a sensação de solidão afeta diretamente nossa coragem de sermos nós mesmos, nos colocando numa posição de permanente inferioridade ou submissão; fazendo-nos agir como gado, como se fôssemos absolutamente irracionais, manipuláveis, e inconsequentes.

Em uma era onde deveríamos pregar a liberdade de expressão, o que vemos é uma tendência sempre maior de ‘acurralamento’; marcado especialmente por ideologias, paradigmas, dogmas e doutrinas condicionantes. Assistimos passivos, religiões, seitas, fraternidades, partidos políticos e corporações, buscando ampliar cada vez mais seu tamanho, seu poder de fogo, sua hegemonia, enfim. Afinal, poder é sinônimo de superioridade, e superioridade é o caminho mais fácil para a dominação. De um lado, espertalhões travestidos de líderes, do outro, ingênuas ovelhas a seguir cabisbaixas em direção a lugar nenhum; alimentadas pela falsa esperança de um mundo melhor, muitas vezes deslocado para o além da vida; transferindo o sonho pessoal para um céu imaginário, distante da realidade conhecida. E assim, somos massacrados diariamente pela sufocante mídia que arrebanha consumidores para todo tipo de produto; fiéis para toda espécie de interpretação metafísica, teológica ou mística; seguidores e eleitores para partidos hegemônicos que se sentem donos da verdade, graças à propaganda manipulativa de suas mensagens subliminares.

Os números dessas organizações já não são medidos em unidades simples. Empresas multinacionais só se sentem realizadas quando ostentam em seu portfólio dezenas de empresas, centenas de produtos, milhares de empregados, milhões de consumidores e bilhões de dólares em patrimônio. Igrejas são medidas pelo número de filiais pelo mundo, pelo tamanho e ostentação de seus templos, (mais comerciais que religiosos), pela voracidade de sua arrecadação financeira em cultos diários, e pela visível competição por superioridade através da televisão ou outro qualquer tipo de mídia. Partidos políticos são avaliados pela capacidade de composição com outros, ainda que de postura ideológica totalmente oposta, desde que garantam vantagens financeiras pessoais e seus cofres propiciem disfarçadas mordomias aos seus líderes, à custa de todo tipo de falcatrua, e conchavos de toda ordem, aplaudidos por uma manada de ingênuos seguidores, que há tempo abriram mão de suas individualidades para acreditar em falsas promessas, que lhe custarão a própria vida. Prisioneiros de falsas ilusões; reféns de sua própria ignorância seguem sem perspectivas, alimentados por uma esperança sem fim de dias melhores que nunca chegam.

O corporativismo tornou-se uma doutrina conveniente aos grupos de interesse comum que buscam o poder a qualquer preço. Ele pode ser considerado a ‘hidra’ do apocalipse dos tempos atuais. Parece-me ilusório considerar corporativismo como sinônimo de harmonia, tampouco de pura sinergia, caracterizada pela comunhão de vontades, pois ela é fruto, na maioria das vezes da convergência de misteriosos interesses, nem sempre revelados, onde o oportunismo pode camuflar o engodo, ou imensa falsidade, quase sempre escondendo ou disfarçando a manipulação. Ao contrário do que pregam as grandes organizações, o corporativismo está mais para o cinismo que para a nobreza de seus líderes, ao indicar, recomendar, endossar ou patrocinar ações que em nada contribuem para o ‘despertar’ da raça humana quanto à sua potencialidade. Raríssimas as exceções, a máxima no ambiente corporativo é quase sempre aquela famosa lei de Gerson, de ‘levar vantagem em tudo’.

Não pretendo aqui mostrar-me como um ‘bom samaritano’, ou eventual puritano, que ingenuamente deseja demonstrar amor incondicional pelo próximo, mas apenas desmascarar a hipocrisia dos falsos acordos corporativistas engendrados entre quatro paredes com vistas exclusivamente ao interesse pessoal ou de um pequeno grupo; quero, na verdade, dizer em tom forte e claro que embora não pretenda julgar o que é certo ou errado, tais posturas, com o tempo, costumam cobrar um alto preço; tanto para quem manipula a informação e produz o teatro, como para aqueles que anulam suas vidas em prol de partidos, religiões e corporações visivelmente hipócritas. A individualidade de cada um de nós não tem preço, tem valor. Sua venda pode acarretar um vazio absoluto em nossas almas, fazendo com que nos anulemos de forma incompreensível, em razão de algo quem nem sempre saberemos justificar para nós mesmos. Como ensina meu ‘mentor virtual’: "Abandonamos o paraíso quando perdemos definitivamente a nossa inocência, para nos tornarmos a raça mais perversa, mais peçonhenta e mais mesquinha de todas as espécies. A camuflagem, o egoísmo e a ânsia pela dominação transformaram-se nas qualidades mais admiradas e temidas pela humanidade. A isso chamamos evolução". ('Fragmentos do Mentor Virtual' - Campinas-SP).

Concluo, com uma singela recomendação de cuidado. Como dizia Nietzsche, ‘o fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos’, e disso se aproveitam os muitos ‘anticristo’ da atualidade, disfarçados de líderes, empresariais, políticos ou religiosos. Para produzir as grandes transformações que sua alma pede, é imperativo que você aja com ousadia e determinação, substituindo o medo pela coragem, e o comodismo pela vontade de mudança, consciente de que é dentro de você que habita o poder verdadeiro. É decisivo transcender o convencional e abandonar a mesmice. Deixar o conforto e a segurança da matilha para sentir-se único. "A realização pessoal não é algo que depende da aprovação de outros. Para ser feliz basta que sejamos coerentes com aquilo que no íntimo nos faz bem". Portanto, não precisamos vender nossa alma para nos sentirmos bem. Como citei certa vez em outro artigo no blog Marcas Fortes: "O mundo irá olhar para você com respeito se você respeitar a si próprio. Não se intimide. Não se subestime, e muito menos superestime o outro, porque muito do que você vê é pura fachada para intimidá-lo. Ignore isso e seja simplesmente você, com tudo o que o universo de forma exclusiva lhe deu”.




*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio.
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.