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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Ilusão da Arrogância




Por Maurício A Costa*


“O homem não é, absolutamente, um resultado firme e duradouro (este foi, apesar dos pressentimentos contrapostos dos seus sábios, o ideal da antiguidade), mas um ensaio e uma transição; não é mais do que a ponte estreita e perigosa entre a natureza e o espírito” (Hermann Hesse em O Lobo da Estepe).
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É intrigante verificar como o ser humano demonstra uma enorme tendência para concentrar sua visão em uma única direção, quando se considera um expert naquilo que faz, ou acredita que nada mais importa além daquilo que ele mesmo pensa. Por conta disso, muitos que atuam como executivos ou empresários tendem a ser conduzidos por atitudes focadas exclusivamente no imediatismo das coisas. Sua mente parece estar obcecada unicamente por ‘resultados concretos’, muitas vezes sem tempo para pensar que por trás de cada atividade específica, existe outro ser humano, carregado de ideias e propósitos nem sempre idênticos aos seus, mas de imenso significado e enorme complementaridade. Um universo abstrato de múltiplas possibilidades que pode afetar direta ou indiretamente suas expectativas.

Cada vez que desconsideramos a visão do outro em nossas análises ou decisões, por nos julgarmos ‘suficiente’ o bastante para proceder nossas escolhas sem precisar de ajuda externa, demonstramos uma estúpida vaidade que pode nos conduzir ao fracasso mais adiante. O simples ato de evitar a presença ‘do outro’ tanto pode revelar uma disfarçada insegurança pessoal como um comportamento egoísta de quem se sente dono da verdade absoluta; atitudes que refletem uma postura arrogante e perigosa para si mesmo e para a organização.

Temos acompanhado na história empresarial recente, inúmeros casos de executivos que estão conduzindo seus empreendimentos de forma aparentemente espetacular, mas que na verdade, estão construindo magníficos castelos sobre areias movediças, que mais cedo ou mais tarde os engole sem piedade. Movidos pela arrogância e vaidade pessoal, eles costumam se comportar de maneira inconsequente, permitindo-se cercar unicamente de pessoas que com eles concordem, e os sigam resignados como robôs, passivos ou alienados ao que poderá acontecer no futuro.

Como já mencionamos outras vezes, muitas empresas estão substituindo o pensamento estratégico, por executivos com bom trânsito junto ao poder público, visando obter vantagens imediatas, ao invés de pensar no longo prazo, a fim de identificar alternativas que viabilizem a empresa em qualquer ambiente, e a permita crescer de forma saudável e consistente. Ao invés disso, busca-se o caminho mais fácil, aquele que traz resultados imediatos, mas que encobre o verdadeiro problema da organização. Para resolver dificuldades de vendas, baixa-se o preço dos produtos ou serviços comprometendo a rentabilidade da empresa, quando deveriam refletir sobre ‘valor agregado’; para enfrentar concorrentes arrojados, trocam-se as embalagens dos produtos quando deveriam investir em inovação, através de ‘pesquisa e desenvolvimento’ (P&D); para superar desafios estruturais trocam-se gerentes operacionais; quando deveriam trocar diretores incompetentes, bons de fachada, mas sem conteúdo ou experiência para lidar com desafios; e assim por diante.

Alguns dias atrás, enquanto aguardava para ser atendido por um empresário, comecei a ler um bonito quadro que costuma decorar as paredes de salas de recepção ou reunião de muitas empresas, o qual explicitava os ‘valores’ e ‘missão’ daquela organização. Chamou-me a atenção uma frase que estava entre os propósitos da empresa: que a equipe deveria buscar ‘eficiência’ em tudo o que fizesse; no entanto, não havia naquele documento qualquer menção à palavra ‘eficácia’, o fazer a coisa certa, e não apenas fazer certo as coisas. Pequenos detalhes que podem fazer enorme diferença nos resultados. Muitas empresas são nota dez em matéria de eficiência, mas estão deixando a desejar no quesito eficácia. Estão produzindo bem, coisas erradas. Viajam com tudo certinho, mas estão na estrada errada, indo numa direção que com certeza não os levará ao lugar que pretendiam. Levam à sério o planejamento estratégico, definindo bem o uso dos recursos, mas esquecem do pensamento estratégico que adéqua a empresa às variações de humor dos consumidores, e às necessidades, tendências e oportunidades do mercado.

A Revista Exame desta semana (Edição de 21/08/2013) traz em sua chamada de capa, o tema ‘A Era da Simplicidade’; uma interessante reflexão para empresas que estão complicando, ou sofisticando excessivamente seus processos de gestão, quando deveriam minimizar sua complexidade. Um sério alerta para executivos que do alto de suas torres perderam a noção de ‘naturalidade’ que permite escutar a equipe e o mercado, como também acolher a visão de fora que traz para a empresa uma percepção diferente, de quem percebe com isenção emocional, todas as interações possíveis, visando detectar ameaças e oportunidades. Simplicidade é qualidade daquele que é sincero, espontâneo e age com franqueza, sem qualquer afetação. Não combina, portanto com vaidade e arrogância. A arrogância é a linguagem do fraco. Daquele que por insegurança se encastela em suas próprias verdades, como forma de se proteger de pensamentos diferentes dos seus. O indivíduo arrogante é um ser medíocre, cujo talento consiste em prevalecer-se do poder que dispõe momentaneamente, e ao usufruir de prestígio mantém os demais à distância para que não interfiram em seu espaço de dominação. Uma ilusão que com o tempo se desfaz, porque nada é definitivo, nem mesmo as melhores ideias, tampouco o mais forte dominador. A mediocridade carrega em si mesmo limitações que comprometem o todo; o prepotente mesmo quando parece um forte, traz a alma pequena, e com o tempo transfere aos demais a culpa por todos os seus erros e fracassos.

O ser humano digno de ‘poder’ é aquele que não se deixa corromper por ele, nem age movido por ressentimentos, vaidade ou arrogância, por saber que o poder é efêmero, e o que conta na verdade, é sua capacidade de interagir permanentemente com tudo à sua volta, independente de status, níveis, posições, ou aparências, pois o sua força deriva da sinergia criada por uma vasta quantidade de seres que visível ou anonimamente contribuem para tal. Por isso, é salutar ao líder, levar em consideração que para construir sua marca pessoal, e consequentemente, valorizar a marca de sua organização, ser decisivo pensar no quanto depende do outro para conquistar ou consolidar resultados, sabendo que há inúmeros fatores abstratos interferindo em suas escolhas. Como citamos em um artigo anteriormente, matéria e energia se complementam. Assim, coisas concretas podem ocultar informações tidas como abstratas ou até mesmo supérfluas. O desconhecido estará sempre por trás daquilo que pretensamente se conhece, e poderá alterar a qualquer momento algo tido como certo alguns momentos atrás.

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*Maurício A Costa é Pensador e Estrategista; ou numa linguagem atual, um ‘Design Thinker’. Foi Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Está disponível para participar (vinculado a resultados) de empreendimentos que estejam em busca da excelência de gestão, e interessadas em aprimorar seu pensamento estratégico para alavancagem de receitas e rentabilidade.
É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.
É o editor do blog 'Marcas Fortes': http://www.marcasfortes.blogspot.com

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