Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A Hipocrisia Generalizada




Por Maurício A Costa*


"É sempre difícil diagnosticar o futuro, no ambiente turbulento que cerca as coisas materiais. Há uma enorme imprevisibilidade por conta das inúmeras possibilidades que se sucedem, causada pela diversidade de atores e pelas múltiplas alternativas que causam alteração constante do ambiente". (O Mentor Virtual - Pág. 31 - Editora Komedi - Campinas-SP - 2008).
_____________________________



Estamos nos transformando numa raça cuja característica marcante será definida pela hipocrisia. Entre todas as espécies animais somos a que melhor lida com a camuflagem. Enquanto a maioria dos animais usa a camuflagem como um instinto natural de sobrevivência frente a predadores, o ser humano faz dela uma maquiavélica ferramenta para galgar poder e dominação sobre o seu semelhante. Cada um a sua maneira, vai criando cenários e agindo como atores, numa comédia onde é impossível distinguir o que é real do que é fantasia, artimanha, ilusão, ou jogo de cena.

A começar pela família, é comum vermos com frequência pais que escondem a verdade dos próprios filhos, sob a alegação de pretensamente protege-los da realidade, criando-os em ambientes estereotipados, construídos a partir de modelos fora da realidade, onde o padrão de uns poucos é mostrado como um estilo de vida a ser copiado, ainda que isso venha a custar endividamentos desnecessários, relações pessoais tumultuadas, e desarmonia permanente. O desejo ardente de possuir transforma-se em compulsão, que descamba para excessos, onde o ‘ter’ assume proporções doentias. Comparar-se com o outro, de prazer torna-se obsessão. Para atender tais demandas, os caminhos naturais, as profissões convencionais, e o trabalho honesto já não bastarão. Dá-se início então, a um vale-tudo sem limites, em que a enganação substitui a lealdade da negociação, e a trapaça ganha status de inteligencia, em detrimento daquele que age com honestidade. E é assim que vão se formando muitos dos futuros empresários, políticos, ou líderes desses contemporâneos empreendimentos de meteórico sucesso.

Em muitas das empresas atuais, o planejamento estratégico vai dando lugar para o lobista ou assessores institucionais, encarregados de criar cenários, e construir ligações íntimas com governos e bancos de fomento visando alavancar vultosos financiamentos de longo prazo a juros subsidiados, ou ainda assegurar resultados favoráveis em concorrências fraudulentas, embalados pela propina. Sem querer generalizar, pois algumas empresas agem de maneira correta, muitas como se sabe, desviam uma enorme quantidade de recursos, alimentando o partido político de plantão, subsidiando não apenas campanhas de reeleição, mas também, a vida nababesca de políticos que por anos a fio se apoderam do poder, graças ao uso indecoroso de seus cargos públicos, ou de sua falsa liderança. Devido a essa postura cada dia mais comum nas organizações privadas, vai se tornado comum uma destruidora concentração econômica nas mãos de poucos. Afinal, para o político ou seu partido é mais fácil e mais vantajoso negociar o embuste com apenas um único grande empresário do que com vários pequenos.
Fernando Cavendish
Construtora Delta
Dessa forma, vão se criando os multimilionários homens de sucesso da noite para o dia, ao mesmo tempo em que vai desaparecendo o pequeno empresário, pois sua empresa deixa de ser viável, quer por questões de economia de escala na produção e distribuição, quer pelo poder de fogo das agressivas campanhas de marketing das empresas beneficiadas por políticos e partidos de forma camuflada.

E por falar em marketing, a propaganda deixou de ser algo que destacasse o diferencial do produto para se tornar uma capciosa trama que visa unicamente envolver o consumidor, de forma emocionalmente ardilosa, para criar uma áurea de valores abstratos e por vezes superficiais. Deixou-se de vender produtos e serviços para se vender esperanças, ilusões, promessas, e fantasias. Escolas de publicidade famosas serão aquelas que ensinarem melhor a ludibriar, trabalhando não mais o racional do cliente, mas o seu emocional, facilmente manipulado por campanhas que envolvam crianças, sensualidade, ou a criação de desejo.

Outro ambiente onde o engodo prolifera de maneira vertiginosa é o das religiões. Nele prevalece a manipulação de uma gente humilde e sem preparação, para arrancar-lhe os parcos recursos que dispõe, e com eles construir templos suntuosos, ou garantir uma vida luxuosa para seus sacerdotes, bispos, ou administradores. Vendem algo que eles mesmos desconhecem, como a ideia de um paraíso após a morte, ignorando e distorcendo a própria doutrina que os ensina ‘do pó viestes, ao pó retornarás’. Disseminam conceitos abstratos ou sobrenaturais sobre os quais não fazem a mínima noção, em seres humanos carentes que vagueiam como sonâmbulos em busca de algo que lhes dê um mínimo significado à vida miserável que levam. A fanfarronice e o ludíbrio são os ingredientes indispensáveis das agitadas celebrações. Para tanto, vale todo tipo de comportamento que vise criar uma atmosfera de aparente bem estar, ainda que momentânea, pois algumas horas depois o fiel estará de volta à sua realidade, e nessas horas, apenas o Deus verdadeiro irá estar com ele, sob a forma de sabedoria, de paciência, e de coragem. Não aquele deus quase humano, apregoado de forma primitiva ou sobrenatural.

Ao refletir sobre tudo isso, eu me sinto perplexo com a multidão que nos últimos dias tem ido às ruas para reclamar sobre posturas e atitudes de seus governantes. Não que eu não concorde com os pleitos, pelo contrário, eles são válidos e autênticos. A questão que me incomoda é que nos tornamos de certa forma tão contaminados pela mentira, a falcatrua, e a falsidade que já nem percebemos a dimensão dessa enorme pajelança em que se transformou nossa sociedade em todos os seus segmentos. Devido a isso, já não confiamos mais em nada, nem em ninguém, aumentando ainda mais nossa insegurança com relação ao futuro, e nossa desconfiança generalizada em nossos líderes.

Não existe coerência ensinarmos ética aos nossos jovens, em casa ou nas universidades, se na vida real nossas empresas e organizações políticas ou religiosas os tornam cúmplices do teatro das mais inusitadas dissimulações. A rebeldia desses jovens que estão nas ruas hoje não está relacionada apenas com suas instituições, mas subliminarmente direcionada aos adultos que a componham. Sua indignação não é com a corrupção em si, mas com o corrupto e o corruptor que dissemina com seus atos a mentira e a hipocrisia, transformando o mundo em um ambiente cada vez mais inóspito às futuras gerações. Muitos deles poderão estar mais preocupados com a qualidade de vida, o planeta, e a sociedade que herdarão do que com uma condição financeira construída sobre bases falsas.

Por tudo isso, creio que está na hora de uma profunda reflexão sobre a sociedade que temos e a que queremos, a partir de uma análise sobre a coerência de nossas posturas pessoais, para que possamos formar líderes autênticos, construídos sobre bases transparentes para serem os políticos, empresários e governantes do futuro, pois como sabemos tais lideranças não passam de uma parcela extraída da própria sociedade. Por enquanto, o ambiente familiar, as escolas, as universidades e as empresas ainda têm um papel crucial nessa hipocrisia generalizada que toma conta do país. Puritanismos à parte, qualquer faxina meramente superficial, olhando apenas o quintal do vizinho, será como esconder o lixo embaixo do tapete. Se quisermos realmente um país sério, é imperativo que reavaliemos nosso próprio conceito de honestidade, pois, como ensina a sabedoria universal: um exemplo vale mais que mil palavras.
 _____________________________

*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 
Contatosmauriciocosta@uol.com.br

___________________________________




Um comentário:

  1. Perfeito!

    O Povo elege e reclama daquele que elegeu...
    Se tivesse votado no 'outro'... Reclamaria também!

    Eleger a quem então?!
    A quem der mais pão...?!

    "Se quisermos realmente um país sério, é imperativo que reavaliemos nosso próprio conceito de honestidade, pois, como ensina a sabedoria universal: um exemplo vale mais que mil palavras."

    Abçs. carinhosos Mauricio.

    ResponderExcluir

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.