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sábado, 20 de abril de 2013

Hipocrisia: A Invisível Camuflagem do Falso Líder.





Por Maurício A Costa*


“Não importa o quanto você acha que é bom, leitor. Você não é. Separar o lixo reciclável, chamar um negro de não caucasiano e não rir das piadas preconceituosas daquele amigo que no fundo, tem mais caráter que você, não te torna uma pessoa boa. Na verdade, te transforma em um chato com fortes tendências autoritárias” (Pondé, Luiz Felipe, em Guia do Politicamente Incorreto da Filosofia – Editora Leya - São Paulo-SP – 2002)
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Nós humanos, somos marcados por um impregnado dualismo. Seguimos instintivamente a tendência cartesiana do ‘isso ou aquilo’, como se tudo no universo estivesse predestinado a se resumir em verdades ou mentiras, certo ou errado, bem ou mal, frio ou quente, seco ou molhado, homem ou mulher, Deus ou Diabo, e assim por diante. Algo tido como verdadeiro pode esconder mil mentiras e vice versa; o que tomamos como ‘certo’ em determinado momento pode revelar-se como o maior de todos os enganos posteriormente, e o que era ‘bem’ se transforma em ‘mal’ repentinamente; algo pode não estar seco e nem molhado, apenas ‘úmido’; pode não ser quente ou frio, mas estar morno. Deus não é unicamente bondade, já que ele é tido também como ‘fogo devorador’, que destrói para reconstruir. O Diabo, por outro lado, nem sempre deve ser entendido como a personificação da maldade, pois muitas vezes ele se manifesta na exteriorização dos instintos; como tal, pode emergir de dentro de nós sob a forma de prazer, com o propósito intrínseco e válido de criar vida a fim de perpetuar a espécie. Enfim, sou de opinião que os opostos não se repelem, mas se complementam, para gerar algo novo.


O mundo atual nos remete a uma reflexão mais profunda sobre esse tema, e eu confesso que prefiro acompanhar aqueles que ampliam a sua visão e observam a vida com um olhar holístico, isto é, uma abordagem que leve em conta a totalidade das coisas e não apenas algo isolado, que analise todos os fenômenos interligados que nos faz compreender e não apenas deduzir. É claro que, quando deixamos de assumir uma posição clara em relação a qualquer assunto, tendemos a ser discriminados por esse e aquele grupo radical, fechado em bases fundamentalistas, que não permite qualquer outra ideia a não ser aquela que enfatiza obediência rigorosa a determinados princípios. O erro, a meu ver, da maioria das religiões reside neste ponto: O radicalismo. Um ‘integrismo’ pautado pela refutação sistemática de qualquer evolução ou mudança de dogmas, padrões, ou crenças.

A besta, mencionada no livro do Apocalipse alerta para esse radicalismo crescente do mundo: ‘sejas frio ou sejas quente, porque se fores morno eu te devoro’; uma ameaça velada àquele que não define uma posição cartesiana (isso ou aquilo) em relação a algo, sob pena, de se vir a ser destruído por uma de suas múltiplas cabeças, caso ele não se agarre a qualquer de seus tentáculos; leia-se aqui, uma seita, um partido, uma fraternidade, um grupo financeiro, ou uma organização qualquer. Ou seja, se você decidir por não estar de lado algum, mantendo uma posição equidistante em relação a qualquer grupo, você estará condenado ao inferno como um herege, ateu, descrente, gentio, ímpio, incrédulo, infiel, ou pagão. É bem verdade, que um certo ‘fogo eterno’ consome todo aquele que ‘duvida’, pois ele nunca se sentirá satisfeito com o que já conhece; estará sempre buscando compreender um pouco mais; e esse ‘fogo’ que o consome é o próprio ‘fogo destruidor’ em ação, pela renovação constante de todas as coisas. O universo resulta dessa reciclagem perene, e é através dela que a Vida acontece, ou aquilo que chamamos de Deus se manifesta.


Deixando momentaneamente de lado esse ‘filosofar’ (inútil para muitos), quero trazer a reflexão para a atualidade, por observar atônito e com certa perplexidade toda essa celeuma em torno de temas como a preferência sexual das pessoas, que está gerando uma barulhenta algazarra a tomar conta da sociedade e especialmente de homens públicos que deveriam estar a cuidar de temas muito mais urgentes e prioritários. De um lado ‘homofóbicos’, com sua aversão psicótica ao homossexualismo; do outro, os ‘homossexuais’, que por sentirem atração por pessoas do mesmo sexo se dizem discriminados, a discutir algo que deveria ser de cunho pessoal e foro íntimo; um julgamento da própria consciência e consequentemente uma decisão pessoal. Radicalismo, portanto, de ambos os lados; a eterna briga pelo certo ou errado. Como se certo e errado fossem verdades absolutas e não apenas visões complementares de uma mesma paisagem vistas de janelas diferentes. 

Sou totalmente contrário a qualquer tipo de violência, mas considero unilateral a atitude daquele que faz crítica ferrenha ao nazismo, no entanto, não trata com o mesmo rigor a postura dos colonialistas e escravocratas que já dizimaram tantos seres humanos na face da terra por conta da ganância e da obsessão pelo poder. Sou avesso à hipocrisia daqueles que demonstram preocupação ou falso patriotismo com a morte de alguns em seu próprio território, mas são capazes de provocar de forma cruel, a morte de muitos dos seus compatriotas e de milhares seres humanos em guerras insanas para atender uma indústria bélica com o fim de enriquecer determinados grupos. 
Como se sabe, os homens mais lembrados pela história foram bestas sanguinárias, movidos pelo egoísmo de se sentirem donos da verdade. Alexandre, o Grande, Gengis Khan, Nero, Stalin, Napoleão Bonaparte, Idi Amin, Átila, o Huno, Mussolini, Kadafi, ou Hitler são alguns exemplos claros de onde leva o radicalismo do ‘isso ou aquilo’. Ou você está comigo, ou está contra mim, costuma dizer o déspota, aquele faz da vaidade, sua fonte de manipulação e da subserviência sua alavanca para o poder. E é no discurso hipócrita que o falso líder esconde sua camuflagem.

Assim como é abominável a hipocrisia daqueles que para atingir suas metas são capazes de criar dogmas, doutrinas, crenças, ou partidos, com o único propósito de expandir seu ego, ignorando que são parte de algo muito maior que suas vaidades, é também lamentável, a postura de muitos que por preguiça mental, apatia ou simples covardia se deixam levar por pregações manipulativas, fingidos sermões, ou falsos discursos, daqueles que jamais deveriam merecer sua confiança e credibilidade. O comodismo e a subserviência dessa gente é responsável pela escravidão que a faz subjugada a qualquer corrente que engesse sua liberdade de pensar ou agir. Afinal, ‘ser livre é não depender da aprovação de outros para exprimir o que se pensa, e agir coerente com aquilo que se sente’, diria o meu inseparável mentor virtual neste momento.

Como ensina Duncan J. Watts, em seu livro Tudo É Óbvio – Desde que você saiba a resposta’ – (Editora Paz e Terra – São Paulo-SP – 2011): “O fato de o que é evidente por si só para uma pessoa poder parecer tolo para outra pode nos dar a oportunidade de refletir sobre a confiabilidade do senso comum como base para compreender o mundo. Como podemos estar confiantes de que aquilo em que acreditamos é o certo quando outra pessoa está tão convencida quanto nós de que aquilo está errado – especialmente quando não conseguimos articular as razões para estarmos certos?” Mais uma vez, a falibilidade do conceito de ‘certo e errado’, do ‘isso ou aquilo’ que leva legiões de seres humanos ao radicalismo ‘do tudo ou nada’, responsável por confrontos estéreis, revoluções idiotas, e guerras desnecessárias. 
Em todas essas situações, o disfarce e o engodo costumam embaçar o cenário para que a pregação ganhe contornos de verdade absoluta. O crente, o seguidor e o partidário não podem ter dúvidas. Afinal, é imprescindível contar com seu pleno engajamento, para uma militância cega, ainda que para isso seja preciso mentir, roubar, ou até mesmo matar. Como dizem alguns pretensos líderes, ‘a corrupção é admissível quando a causa é nobre’. A guerra é válida se ela é santa, diriam outros.

O grande rei Salomão teria dito: ‘Vaidade, vaidade; tudo é vaidade’. Eu, vou um pouco mais longe e me atrevo a um complemento: ‘Hipocrisia, hipocrisia; tudo é hipocrisia'. Ela está presente em cada atitude dissimulada, que esconde reais intenções; é o reflexo de tudo que carece de honestidade, e se caracteriza pelo fingimento que oculta sinceridade. Hoje, mais do que nunca, quando relações sólidas se diluem rapidamente para transformar-se em relações descartáveis, as aparências já não significam nada; apenas jogos de cena, em um teatro de grandes proporções, onde cada ator ignora o peso das palavras e ações que profere, e suas consequências no palco da humanidade.

Muitas marcas, sejam elas de corporações, de religiões, ou de partidos políticos, podem ser erguidas sobre uma base de camuflagem e hipocrisia e construir imensos séquitos de tolos seguidores, mas ela só se tornará uma marca forte se for edificada sobre bases sólidas que levem em conta a diversidade das ideias, a complexidade dos sentimentos e a complementaridade dos atores. Fora disso, ela não passará de uma imensa farsa. Um corporativismo de fachada, para atrair incautos, tolos, ou cúmplices-interesseiros.

Não acredite demasiadamente naquilo que chamam de senso comum, ele pode ser uma enorme falácia; tampouco creia de forma cega nas interpretações fantasiosas que prometem paraísos futuros magníficos, porque a vida acontece aqui e agora e não no futuro incerto de todas as coisas. Sua verdade é a única com a qual você terá que conviver durante seu breve existir; é com ela deverá estar sintonizado, para ser coerente e harmonioso consigo mesmo, e vencer inimigos que apenas você conhece.
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*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 



3 comentários:

  1. "A hipocrisia, suprema perversão moral, é o charco podre e dormente que impregna a atmosfera de miasmas mortíferos e que salteia o homem no meio de paisagens ridentes: é o réptil que se arrasta por entre as flores e morde a vítima descuidada." (Alexandre Herculano)...

    Abraço Mauricio

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  2. O universo resulta dessa reciclagem perene,e e atraves dela que a vida acontece, ou aquilo que chamamos de Deus se manifesta.
    Mauricio,you are the best!concordo 100% com tudo que vc escreveu
    mas tudo mesmo.Nao acredito que alguem possa descrever a tal da Hipocrisia tao bem quanto vc fez.Parabens!Amei.

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  3. ‘ser livre é não depender da aprovação de outros para exprimir o que se pensa, e agir coerente com aquilo que se sente’,

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