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domingo, 24 de março de 2013

Busca Infinita





Por Maurício A Costa*


"Numa busca agitada por definir a própria identidade a alma viaja em seu voo solitário, intercalado por breves momentos de pouso. Por vezes se detém entretida com a ilusão criada pela imagem refletida em algo que não compreende, mas logo decola para a imensidão desconhecida que ao mesmo tempo teme e fascina" ('Fragmentos do Mentor Virtual - Campinas-SP – Em Gestação)        
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Em uma de minhas várias palestras, conheci algum tempo atrás um jovem cuja principal característica era a curiosidade. Percebi enquanto eu falava que seus olhos me acompanhavam como dois radares, procurando captar o sentido de cada simples palavra que eu proferia naquela noite. Seus olhos pareciam o periscópio de um submarino, rondando o mundo exterior em busca de informações preciosas para um desconhecido ser submerso, desorientado em meio a um imenso oceano de possibilidades. Quando terminei minha apresentação, onde falava sobre a ‘complexidade de nossas escolhas’, ele me chamou a parte, e com uma voz um tanto assustada me disse: ‘Mestre, gostaria de lhe fazer uma pergunta muito pessoal; o senhor teria tempo para me dar um pouco de atenção?’ – Claro! Sinta-se à vontade para falar. - Respondi. Sem perda de tempo, aquele jovem procurou um lugar mais afastado dos demais para nos sentarmos, e em seguida me falou, quase sussurrando: ‘Mestre, eu chego a pensar que não sou uma pessoa normal como os outros. Sinto-me muito inseguro e às vezes ansioso demais. Não consigo me relacionar muito bem com meus pais e me distancio deles, por achar que eles não acompanham minha cabeça, e não entendem o meu modo de ser. Por conta disso, sinto uma enorme solidão e um medo louco de ficar sozinho. Estou sempre procurando novos amigos como uma forma de preencher essa solidão, e algo muito forte me empurra para lugares diferentes, como se dentro de mim houvesse uma necessidade irresistível de conhecer coisas que ainda não conheço. O que o senhor acha que pode estar acontecendo comigo? – Concluiu ele.

Um tanto surpreso com aquele questionamento tão repentino, vindo de alguém tão jovem, respondi: ‘Em primeiro lugar, quero parabeniza-lo pela coragem de expor suas dúvidas, de maneira tão aberta. A maioria das pessoas como você costuma guarda-las, por temer revelar-se, ou pela vergonha de sentir-se inferior diante dos demais. Saiba que suas dúvidas são as mesmas que acompanham todas as pessoas à sua volta. Todos nós estamos em busca de algo que não sabemos definir. Todos nos sentimos sozinhos, mesmo quando cercados de muita gente. Portanto, não se sinta ‘anormal’ como falou; essa angústia que você sente está presente na vida de cada um, pelo simples fato de que não temos respostas para a maioria de nossos questionamentos. Não sabemos quem somos, de onde viemos, nem para onde vamos. Não sabemos exatamente o que queremos e quando achamos que sabemos, não temos noção de como chegar lá. As pessoas à nossa volta não são exatamente o que aparentam ser, e nós mesmos nem sempre somos aquilo que aparentamos, porque escondemos a parte mais bonita do que somos por medo de nos tornarmos vulneráveis a equivocadas interpretações a nosso respeito’. Enquanto eu falava, vi que seus olhos brilhavam como se de repente uma pequena luz iluminasse sua pequena caverna pessoal. Fitava-me como se eu fosse um ET. Ao perceber que gostaria de ouvir um pouco mais, completei: ‘Trazemos dentro de nós a memória de todos os nossos ancestrais, e a isso chamamos de alma; a essência daquilo que somos. Tal como um programa dentro de um computador acessando o complexo e diversificado mundo exterior via internet, assim a nossa alma em busca de respostas. Por isso, não se sinta angustiado pelo excesso de questionamento, apenas deixe-se conduzir por essa sede de informações. Ela o levará a conhecer o extraordinário, que está ao alcance de todos, mas que poucos percebem. Não se sinta sozinho; há muitos que pensam como você, mas só irá descobri-los quando expuser, de forma honesta consigo mesmo e transparente com os demais, sua maneira de pensar e de sentir. Apesar da diversidade das aparências e seus insanos conflitos entre si, há mais afinidades entre os seres humanos do que eles imaginam. Busque compreender a vida enquanto ela acontece à sua volta. Em cada movimento, cada gesto, e cada palavra há uma imensidão de significados. Interpretá-los é o seu maior desafio’ – finalizei.

Aquele singelo diálogo, tão rápido e de certa forma inusitado, produziu em mim profundas reflexões e me faz perceber o quanto somos parecidos na essência. Não é sem razão que recebo com frequência comentários de meus leitores dizendo que algo que escrevi foi escrito para eles, ou que se identificaram totalmente com esse ou aquele texto. Ao que parece, divergimos na verbalização de nossos pensamentos, mas somos unificados pelo espírito universal que a todos permeia com a mesma intensidade. Numa busca infinita, quase sempre sem saber pelo que procura, acompanhamos o viajar de nossas almas, em seu voo solitário, sem noção de tempo ou espaço, fascinada pelo novo, e temerosa do desconhecido. Somos dúvidas e hesitações na maior parte de nossas vidas, e é exatamente isso o que nos angustia. Nossa ansiedade deriva unicamente da apreensão em relação às nossas escolhas, por temermos as consequências de eventuais decisões equivocadas, esquecidos, de que: ‘Viajamos em busca de certezas sem perceber que é no vazio absoluto que voamos’ (O Mentor Virtual).

A beleza da vida consiste nessa imprevisibilidade, decorrente da diversidade. É o imponderável que nos fascina. A multiplicidade de opções do vir a ser ao mesmo tempo que enlouquece, produz um sentimento de grandiosidade em relação ao todo que pertencemos, e disso decorre nosso sentimento de gratidão pela vida que por um efêmero momento nos sustenta. 

E assim, na maior parte do tempo, confesso que me sinto como aquele jovem, perdido em meio a galáxias, mas com uma infinita sensação de completude, mesmo consciente da minha pequenez nesse contexto, pois como ensina o sábio Angelus Silesius, pseudônimo de Johannes Scheffler, citado por Jostein Gaarder em seu livro O Mundo de Sofia: ‘Quando a pequena gota encontra o oceano, ela já não é apenas mais uma simples gotinha, ela se torna o próprio oceano’. 



*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 

Um comentário:

  1. Todos os momentos são únicos na nossa vida...os bons e os maus. Temos que aprender a viver com as constantes mudanças.
    Nenhum homem se sente inteiramente feliz no presente, porque a sua BUSCA INFINITA, do que quer seja, priva-o da FELICIDADE plena.
    Gostei do "Artigo"...mas a minha BUSCA continua!!!
    Abraço Mauricio...sempre a pôr-nos a refletir..
    ALICE LOPES

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