Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

sexta-feira, 8 de março de 2013

As Várias Faces do Medo






Por Maurício A Costa*

Zygmunt Bauman
O ciclo do medo e das ações por ele ditadas não deslizaria tão tranquilamente nem continuaria ganhando velocidade se não continuasse a extrair sua energia de tremores existenciais... O terreno sobre o qual se presume que nossas perspectivas de vida se assentem é reconhecidamente instável – tal como são os nossos empregos e as empresas que os oferecem, nossos parceiros e nossas redes de amizade, a posição que desfrutamos na sociedade mais ampla e a autoestima e a confiança que o acompanham”. (Bauman, Zygmunt, em ‘Tempos Líquidos’ – Pág. 16 – Editora Zahar – Rio de Janeiro-RJ – 2007).


Acabo de fazer uma interessante pesquisa no ambiente do Facebook, motivado pela perspectiva de insegurança que assola nossas cidades derivada do medo que se alastra como erva daninha em meio ao caos no qual a sociedade rapidamente mergulha. A enquete resumiu-se em uma única pergunta: ‘Qual o seu maior medo?’ - com o propósito de ir diretamente ao cerne da questão sem rodeios. As respostas trouxeram os mais variados reflexos de inquietude possíveis: ‘medo da velhice’, ‘medo do desconhecido’, ‘medo da morte’, ‘medo da mentira e da falsidade’, ‘medo de não ser amado’, ‘medo do futuro dos filhos’, ‘medo do julgamento dos outros’, ‘medo de perder a fé’, ‘medo de perder a saúde’, medo das incertezas do mundo atual’, ’medo de sofrer’, ‘medo dos comportamentos humanos’... ‘medo dos relacionamentos’. Todavia, entre os mais citados, destaque especial disparado para: ‘o medo da solidão’. Mais de 70% das respostas apontaram nessa direção, de forma direta ou indireta.

Nunca estivemos tão conectados, graças ao avanço da tecnologia, mas aquilo que deveria nos unir está separando. Os relacionamentos virtuais produzem relações sem vínculos sólidos, instáveis e voláteis, desprovidas do contato físico, e, portanto, carente das sensações do toque e das reações sensoriais que nos permitem identificar o nível de energia e de transparência com o outro. Estamos gradualmente nos tornando Cyber-Ghost, ilusões cibernéticas que podem surgir do nada e desaparecer da mesma forma, como se nunca houvessem existido. Exibimos nosso melhor sorriso em fotos selecionadas a dedo para criar uma aparência de felicidade, que se desmancha ao primeiro contato na maior parte das vezes. Construímos falsas expectativas em relação a tudo: da amizade virtual ao emprego que se busca nas telas de dublês de head-hunter; há uma enganação generalizada no ar, que vai da fala do político sem escrúpulos aos ‘call-centers’ das empresas de telefonia, seguro saúde, ou cartão de crédito, que nos assusta. Estamos cercados não mais de pessoas, mas de clones. Zumbis repetidores de mensagens automáticas que nos produzem uma completa sensação de abandono nos momentos em que mais precisamos delas, e cria uma desconfiança institucionalizada.


Assim, o medo da solidão vai se instalando de maneira sorrateira; não como uma ameaça futura, mas algo que se faz presente no agora de nosso dia-a-dia, de forma impiedosa e avassaladora. Não confiamos mais no sócio, no parceiro, ou no amigo; desconfiamos de todos de maneira generalizada e agimos sustentados por frágeis vínculos que podem se romper a qualquer momento, colocando em risco nossas vidas, nossos destinos, nossas esperanças. As instituições, sagradas por sua natureza, sejam elas políticas, jurídicas ou religiosas tornaram-se ambientes propícios para a falsidade e a mentira, projetando um futuro sombrio para o indivíduo que dele depende ou nele deposita sua crença. Tudo isso junto, vai corroendo a confiança, a esperança e a fé. Como um câncer invadindo cruelmente um corpo, o medo vai gradualmente solapando a alma: Minando sonhos, alterando comportamentos, produzindo angústia.

Por não acreditar naquilo que se prega internamente dentro das organizações, há uma debandada silenciosa daqueles que em busca da sintonia com a verdade preferem se arriscar como solitários viajantes intergalácticos em pequenos empreendimentos autônomos, para livrar-se do engodo generalizado das grandes corporações, da mesma forma que proliferam os pequenos agrupamentos espirituais para fugir do inferno em que se transformaram as religiões, com suas tramoias e dogmas de caráter manipulativo. A crença cega vai sendo solapada pela inconsistência do próprio sistema ou doutrina. E é assim que em meio à desconfiança institucionalizada vamos sentindo crescer o medo da solidão, especialmente com relação aos tempos futuros.

Como adultos, estamos construindo uma ‘era de incertezas’ para nossos jovens, um perigoso caminho sem retorno garantido. Não há como ensinar-lhes a verdade se em nossas ações, agimos como corruptos ou corruptores nas mínimas atitudes diárias. Não há coerência em falar-lhes sobre honestidade se traímos a confiança de nossos parceiros, sem o mínimo pudor. Não se pode combater a violência e a degradação humana, se banalizarmos e subestimarmos os efeitos devastadores da droga, na qual se jogam, numa viagem sem volta, ingênuos sonhadores de falsas quimeras. Enganamos a nós mesmos quando fechamos os olhos aos problemas e desafios que provocam essa degeneração da humanidade, derivada da insatisfação generalizada, provocada pelo consumismo, pelo excesso de liberdade (libertinagem), pelo comodismo (torpor), e pela alienação contaminante que migra do topo para a base da sociedade. Estamos conscientemente criando o ambiente propício para a proliferação de uma doença que esmaga, isola, e destrói o ser humano: a angústia causada pela solidão.
Lamentavelmente, não há uma vacina genérica para essa degeneração humana coletiva. As instituições (civis ou religiosas) que deveriam cuidar disso já estão contaminadas o suficiente e não dispõem de força física ou moral para o tratamento da sociedade. Caminhamos a passos largos para uma deterioração cada vez maior do ambiente social, e a única saída será o tratamento individual que cada um ouse e decida buscar. Será preciso nadar na contramão da maré dos modismos e reagir de forma pessoal, sem a ilusão de que se tornará um novo herói, porque poucos irão segui-lo. Pelo contrário, muitos o chamarão de idiota, ‘careta’, revolucionário, ou um patético sonhador. Contente-se com sua luta solitária e aja de acordo com suas mais íntimas intuições. O coração não costuma enganar. O tempo se encarregará de mostrar o melhor caminho, a beleza da verdade e a grandiosidade da vida

A tomada de consciência dos nossos valores pessoais será o melhor antídoto para o mal do Século XXI, marcado pela impessoalidade, a superficialidade, e a insegurança. Ter a coragem de abrir mão do excesso de materialismo; não por hipocrisia ou falso puritanismo, mas por buscar uma perfeita sintonia entre espírito (essência dos valores), e matéria (conjunto de coisas físicas). Refletir sobre nossas necessidades reais, e em especial sobre aquilo que nos deixa bem: serenos, tranquilos, seguros. Na simplicidade de nós mesmos encontraremos as respostas para nossas inquietações e superação para nossos medos. No autoconhecimento perceberemos a nossa força latente. Na sinergia com aqueles que comungam desses princípios descobriremos que não estamos sós. A opção pela verdade nos libertará; só ela nos garante a paz.
__________________________________

Quero finalizar com um agradecimento especial a todos os amigos e amigas do Facebook que voluntariamente colaboraram com esta reflexão. A eles e elas dedico este artigo.
__________________________________

 _____________________________

*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 

3 comentários:

  1. Excelente... quem dera que tivéssemos uma "vacina" pra nos ajudar nos momentos do medo... eu mesma, dentre os medos citados, tenho alguns deles bem latentes dentro de mim... no entanto, procuro refletir, procuro reagir e lutar contra eles e não deixar que "eles" tomem conta de mim... rezo e peço a Deus proteção, luz e paz, para o meu caminho... obrigada, amigo e Mentor...nina

    ResponderExcluir
  2. MEDOS... quem os não tem...???

    O MEDO é um sentimento inerente a todos os seres humanos.
    É evidente que me identifico com as várias situações de MEDO... Necessitamos de ATITUDE e PERSISTÊNCIA... enfrentando-os, para melhor os combater.

    Obrigada Mauricio por nos brindar com mais um excelente artigo, que além de nos ajudar a reconhecer que todos temos nossos MEDOS, contribui, também, para nos ajudar a vencê-los e assim atingirmos nossos objetivos... Abraço

    ResponderExcluir
  3. Mauricio....o comentário acima pertence a ALICE LOPES...O MEDO de comentar apoderou-se mim...que falhei na identidade..

    ResponderExcluir

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.