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sábado, 5 de janeiro de 2013

‘Volare’




Por Maurício A Costa*


Para o escritor, a história nunca termina. Como névoa, alguns personagens se esvaem, enquanto outros suavemente vão surgindo. A vida é um reciclar eterno, revelando toda beleza e magia da fantasia que formos capazes de criar, para deixar marcas que permanecerão para sempre” (Mauricio A Costa, em artigo do blog Marcas Fortes – Dez.25-2010).

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Acordei naquela manhã de sábado com uma intensa luminosidade no quarto. Havia adormecido com as janelas do meu apartamento totalmente abertas, contemplando um estonteante céu desenhado exclusivamente para mim, e agora nossa estrela maior já brilhava com toda sua energia, despertando os humanos da terra para mais um dia. Tudo levava a crer que apesar de belo, aquele iria ser apenas mais um dia como outro qualquer. No entanto, algo lá no fundo me dizia que ele nascia para ser um dia especial; embora eu não soubesse explicar por que, havia algo no ar que me agitava internamente, a esconder uma silenciosa calmaria, como aquelas que antecedem uma incrível turbulência.

Levantei displicente, liguei o equipamento de som e deixei a música do universo penetrar por cada cômodo, como um perfume que invade o cérebro a produzir inexplicáveis reações. Alheio ao mundo que borbulhava lá fora dezoito andares abaixo, eu vagava pelo meu apartamento numa completa nudez, sem a mínima noção de pudor, curtindo uma delicada brisa que suavemente me tangenciava, a produzir incomparável sensação de liberdade. Enquanto isso, milhões de pensamentos iam aflorando, trazendo à consciência inesquecíveis momentos de uma vida em processo de construção: Amigos, musas, vinhos, noitadas, viagens, projetos, conquistas, fracassos, desafios... Pensamentos que iam e vinham como bolhas de sabão... Mal explodia um, já nasciam vários... Alguns maiores, outros menores, mas todos igualmente efêmeros. Viajando ao som da música que estranhamente me conduzia, eu já não sabia se ainda dormia ou se estava a flutuar naquele imenso céu azul que parecia me convidar a voar.

Entrei no chuveiro como quem se entrega à chuva, sentindo cada gota d’água escorrer sobre o corpo, num banho demorado como alguém que deseja livrar-se das energias negativas de um passado que se quer ardentemente esquecer. Cada minuto ganhava a duração de um século, porque não há pressa quando se penetra nos umbrais do universo para realizar um ritual de passagem. Viaja-se como o som, conduzido pela desconhecida energia que a tudo permeia, ou como água que flui entre rochedos a retirar-lhe o inútil limo que se acumulou com o tempo. Em meio ao aguaceiro que lavava a alma, eu me despia de frustrações e fazia renascer a esperança de dias melhores. E assim, um novo ser aos poucos ia surgindo das cinzas sem que eu me desse conta do milagre.

Vesti um jeans e uma camisa polo, calcei um confortável tênis, tomei um leve ‘breakfast’, e sem perda de tempo rumei para o Aeroclube de São Paulo, onde meu instrutor me aguardava para mais uma de suas inesquecíveis aulas de pilotagem. O céu era de brigadeiro naquela manhã. Quase não havia nuvens, como é comum nos dias de inverno. A temperatura era imensamente agradável e o vento não passava de uma leve brisa. Tudo isso era um convite a voar. Voar em busca de horizontes que nunca terminam. Voar porque havia um imperativo que eu trazia comigo desde a infância. Voar porque a vida não passa de um magnífico voo.

Pista do Campo de Marte
Aeroclube de São Paulo
Decolamos com nosso já conhecido avião, um pequeno ‘Archer II’ produzido sob licença da Piper americana com o nome de ‘Tupi’ pela Embraer. Um monomotor de leveza inigualável, com sua confortável cabine de comando duplo, e espaço para quatro pessoas. Uma aeronave que parecia sentir-se feliz voando, e flutuava sereno como um pássaro de metal levado pelo vento como uma pluma. Deixando para trás a área do Campo de Marte, nos dirigimos para a região de Jundiaí, onde costumávamos fazer ‘pousos e arremetidas’ para fins de treinamento, e durante o voo, meu instrutor me solicitou que fizesse algumas manobras radicais, como ‘perda’ e ‘pane simulada’, procurando avaliar meu nível de capacitação e controle do avião; tudo dentro dos padrões de uma aula convencional para aquele estágio. Todavia, para minha surpresa, quando ainda sobrevoávamos o Aeródromo de Jundiaí, ele me falou taxativo: ‘vamos fazer um pouso completo, e estacionar ali por uns momentos’. Achei aquilo um pouco estranho, mas pousei nosso Tupi com a máxima elegância possível.

Ao estacionar no pátio do Aeroclube, meu instrutor voltou a me falar, dessa vez com um tom mais grave: ‘agora eu vou descer, e você vai decolar sozinho para seu primeiro voo solo’... Um calafrio repentino me percorreu a espinha dorsal! Olhei para ele com um olhar assustado e perguntei: ‘se eu iria fazer um voo solo hoje, porque você não me avisou um dia antes, ou pelo menos antes de decolarmos, para que eu me preparasse para isso?’... Ele então me respondeu sem hesitação: ‘se eu tivesse lhe avisado um dia antes, você não teria dormido bem por conta da ansiedade; se houvesse lhe avisado antes da decolagem, você teria feito um voo nervoso e não teria me mostrado o quanto está pilotando bem, com fez hoje’... Sorri para ele, e confiante falei: ‘Então está bem... Vamos lá. Tenho certeza de que farei um belo voo’... Ao que ele me respondeu retribuindo o sorriso: ‘Curta esse momento que é só seu agora. Você esperou e se preparou a vida inteira para isso. Bom voo’...

Taxiei pela pista. Fui até a cabeceira e decolei com aquele Tupi como se fôssemos um ser único. Piloto e avião voando juntos, enquanto uma sensação indescritível ia tomando conta de mim. Olhar no horizonte, quase sem piscar, eu evitava olhar para a minha direita, para não me dar conta de que o ‘Bola’, meu inesquecível instrutor não voava ao meu lado. Ali agora, havia apenas um assento vazio. Eu estava só. Levando comigo todos os meus sonhos de infância e adolescência de um dia poder pilotar uma máquina como aquela. Curtia, realmente, aquele momento como só meu. Um momento único, incomparável, insubstituível, inigualável, e acima de tudo exclusivamente meu, como houvera escutado alguns minutos atrás. A alma enviava uma emoção faiscante para os olhos, mas a mente sugeria que aquela não seria uma boa hora para lágrimas, afinal, eu estava no comando de uma aeronave, em que toda atenção e concentração estariam sendo exigidas de mim naqueles momentos. Por conta disso, contive a emoção, mas meu coração pulsava mais forte que os cavalos daquele motor à minha frente, e minha mente girava mais veloz que a hélice que nos mantinha voando. Posso dizer que juntos, eu e aquela pequena aeronave, tivemos um orgasmo cósmico. Havia uma relação perfeita enquanto voávamos. Tudo estava sincronizado e podíamos sentir cada vibração. Uma interação extraordinária entre homem e máquina, como se houvessem sido feitos um para o outro. Flutuando numa invisível camada de ar, deslizávamos sobre um oceano de prazer, ignorando qualquer obstáculo que pudesse interferir naquele voo.

Aeródromo de Jundiaí-SP
Depois de alguns minutos de pura realização e plenitude dos sentidos, retornamos, eu e aquele pequeno pássaro, à ilusória segurança do solo, já saudosos daquele momento que havia sido único para alguém que descobrira para sempre o prazer de voar. Lá embaixo, nos aguardava ansioso  meu competente e confiante instrutor, que tanto me ajudara com extremo cuidado a chegar até ali. Seu abraço entusiasmado nos colocava no mesmo nível de emoção. Suas palavras de estímulo soavam como música aos meus ouvidos, e me encorajavam a seguir em frente. Meu único desejo naquele instante era eternizar aquele momento. Eu havia desafiado meu medo de voar, e agora o desafiara de maneira singular: sozinho. Frente a frente com a minha insegurança, eu provara que quando vamos ao encontro de nossos sonhos não há nada que nos detenha; não há temores ou obstáculos que nos apavorem, porque nos tornamos gigantes; maiores que o próprio desafio.

E ao final daquele memorável dia, enquanto me deleitava observando da janela do meu apartamento um estupendo por de sol, eu me dava conta de que, sem perceber, havia vivenciado mais um incrível ritual de passagem, que me ajudaria para sempre na caminhada; e aprendido o quanto nossos sonhos sinalizam essa caminhada. Aprendera também que a insegurança e o medo não são simples sintomas de uma atitude passiva ou mera covardia, eles podem indicar reflexos da ausência de um mestre que nos pegue pela mão e nos conduza nos momentos cruciais, estimulando-nos a encarar o desafio de forma determinada. Descobri naqueles memoráveis momentos a importância de contarmos com pessoas que nos encorajam a ir em frente de maneira autoconfiante, mesmo que ainda não nos sintamos confortavelmente preparados. Porque à revelia dos nossos medos, voar é preciso...


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*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio.
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.


Um comentário:

  1. Lindo, lindo... Lindo!!!

    PEREGRINA ALMA

    Alma peregrina
    tal qual passarinho
    que deixou seu ninho
    desafiando os caminhos,
    Para assim
    encantar com seu cantar
    outras passagens...
    Peregrina nota
    que sai da partitura
    desafina...
    desafia a maestria
    do destino.
    Mas, continua
    seu solfejo
    solo...
    Pela estrada,
    quem ouve...
    ouve?!

    Por: - Amarílis Adélio

    "Voar, voar... Subir, subir...
    Ir por onde for... Descer até o céu cair...
    Anjos de gás... Asas de ilusão...
    E um sonho audaz... Feito um balão...
    .
    .
    .
    Do alto coração... Mais alto coração!"

    Abçs. carinhosos Mauricio.

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