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sexta-feira, 27 de abril de 2012

E... Se?





Por Maurício A Costa*


“Em algum lugar, lá no mais profundo de nós mesmos, em geral sabemos onde ir e o que fazer. Mas há ocasiões em que o palhaço a que chamamos ‘eu’ age de modo tão irrefletido que a voz interior não se consegue deixar ouvir. Algumas vezes falham todas as tentativas para entender-se as mensagens do inconsciente, e diante desta dificuldade só resta o recurso de se ter a coragem para fazer o que nos parece melhor, apesar de prontos para mudar o rumo das nossas decisões quando o inconsciente indicar ou sugerir, subitamente, uma outra direção” (Jung, Carl Gustav, 1875-1961 – ‘O Homem e Seus Símbolos’ – Pág. 176 – Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro – Brasil – 2002).

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Alguns dias atrás, eu estive a conversar sobre diversos assuntos com um pastor de determinada igreja evangélica, e em meio à conversa, andava a justificar minha percepção sobre o fato de não acreditar em nada ‘sobrenatural’, por achar que tudo no universo tem uma explicação lógica e natural. Por conta dessa postura, sou tomado muitas vezes como um ‘cético’, isto é, alguém que não acredita em nada além daquilo que vê; ou seja, um descrente. Na verdade, assumo parte desse ceticismo, por trazer comigo desde a infância, o hábito de observar, examinar e refletir sobre todas as coisas, ao invés de aceita-las como algo inquestionável. Duvidar é a essência da ciência e da filosofia, e é desse questionar permanente que brota toda inovação.

Uma expressão, contudo, daquele missionário da fé empenhado em ajudar-me me deixou intrigado, fazendo-me questionar a certeza com que expunha minha posição, quando ele me pediu para que por instantes, eu fizesse a pergunta ‘E... Se?’... Ora, se o princípio que me rege é o do questionar a tudo, porque não questionar também minhas próprias definições e conclusões? Toda e qualquer afirmação traz consigo certa presunção de verdade, mesmo quando sabemos que ela pode ser uma visão parcial, incompleta ou inacabada, o que a leva a ser, uma meia-verdade, e só por isso, já merece o direito da dúvida. Nesse momento, perguntei-me interiormente se ao afirmar isso ou aquilo, através de mensagens e textos sintetizando metáforas, eu não estaria no mínimo sendo arrogante e prepotente. Pior que isso, será que as minhas palavras não poderiam ser interpretadas de maneira equivocada em relação ao pensamento original, como tem ocorrido com as ideias de tantos pensadores? E isso me entristeceu bastante. Afinal, vivemos em um mundo cercado de seres humanos que não conhecemos; tampouco suas intenções. Pessoas de todas as origens e diferentes convicções, algumas das quais, camufladas sob as mais indecifráveis máscaras, a esconder insegurança, inquietudes e medos.

Acabo de ler um livro intitulado ‘O 11º Mandamento’, do jovem escritor português, Daniel Sá Nogueira, obra que recomendo como importante reflexão para uma nova postura dos líderes diante dos desafios impostos pelo capitalismo selvagem, onde o autor foca no princípio de que ‘somos todos um’; uma ideia simples e grandiosa, contida na maioria das religiões desde os seus primórdios, que se levada à sério pode produzir mudanças significativas na humanidade. Entretanto, apesar de defender essa ideia, percebo que mesmo sendo parte de algo único e extraordinariamente maior, somos muito diferentes uns dos outros; não no aspecto físico ou espiritual, mas no que diz respeito às nossas mentes. É aí que o diabo reside. Por isso, nossas mentes são infernais. É nela que construímos todo tipo de maquinação, e fantasmas de toda ordem. Como ensinam as escrituras sagradas de judeus e cristãos, o homem se afastou de Deus, no exato momento em que tomou consciência de si mesmo. A partir daí, sua mente já não seria mais a mesma, e uma das primeiras de suas reações foi aprender a culpar o outro por suas atitudes; uma forma egoísta de convivência que resultaria em posturas cada vez mais beligerantes com seu próprio semelhante. Afastar-se de Deus tem, portanto, uma conotação de afastar-se da unidade. A unidade que cria convergência, produz sinergia, e gera vida.

Ao voltar ao “E... Se?” que deu origem a este artigo, eu me pergunto: E se... para assustar os mais humildes nós criamos a ideia do sobrenatural, com o propósito de manipulação pelo medo, da mesma forma que sempre o fizemos com nossas crianças com cantigas como ‘boi da cara preta’? E se... inventamos mitos de toda natureza ao longo de séculos para fazer o ser humano sentir-se cada vez menor diante da grandiosidade do universo? E se... os mais espertos tivessem descoberto que pela manipulação da religião seria possível criar a manipulação econômica? E se... fosse interessante criar governos manipulados para potencializar a concentração econômica? E se... conviesse a poucos construir um mundo onde muitos passassem a viver como escravos do próprio dinheiro? E se... nos tornamos um bando de animais domesticados, que como gado segue para o curral de um destino que não se consegue mudar? E se... E se... E se...

Numa coisa concordo inteiramente com o Daniel Sá Nogueira, autor do livro já mencionado: todos que ousaram ir contra o ‘status-quo’ desse maquiavélico sistema que aí está terminaram suas vidas precocemente assassinados como Sócrates, Jesus Cristo, Gandhi, John Lennon, Tiradentes, ou Luther King. Em menor escala, sinto isso diretamente na pele, em algumas empresas, que por discordar da minha visão, evitam minha presença para não contaminar os dóceis cordeirinhos que lhe seguem, a esconder verdades, vendendo suas almas por questões de sobrevivência. Erguer a voz contra essa manipulação econômica é como gritar no deserto e por isso, quem o faz é no mínimo tomado como um tolo, sonhador ou poeta, a construir utopias. No entanto, faço votos que as sementes jogadas ao vento pelo Daniel possam espalhar-se mundo a fora, a despertar consciências adormecidas pelo torpor induzido da manipulação mental.

E para finalizar com essa abordagem do eterno “E se” que nos aflige em todas as questões, sugiro que nos inspiremos nas gaivotas, que não se preocupam, com o dia seguinte, e voam livres em busca do alimento que as sustenta, com a certeza de que o universo estará a conspirar a seu favor cada vez que levantarem voo sobre mares tempestuosos, que escondem sob suas águas todo alimento que necessitam. Como dizia o grande mestre Carl Jung: “Qualquer um de nós pode facilmente verificar que existe em nossas vidas um conflito entre aventura e disciplina, mal e virtude, ou liberdade e segurança. Mas são apenas frases, que utilizamos para descrever uma ambivalência que nos atormenta e para a qual parecemos nunca encontrar resposta”.

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*Maurício A Costa foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida.

É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.

sábado, 21 de abril de 2012

Dunas e Falésias





Por Maurício A Costa*

"A paz interior é um estado de espírito resultante da harmonia consigo mesmo. Mente e alma sintonizadas em um propósito único, construindo poderosa sinergia capaz de superar qualquer obstáculo. É a essência do ser, a fluir de forma sincronizada com o mundo exterior, refletindo a incomparável quietude da unidade" ('O Mentor Virtual' - O Elo Invisível – Campinas-SP - Em gestação).
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Era um final de semana comum, de um ano qualquer, da década de 1990, e eu vagava por uma das mais belas praias do litoral cearense, no trecho entre Marjorlândia e Canoa Quebrada, no município de Aracati, tentando relaxar da enorme tensão resultante da pressão que envolvia o projeto que eu dirigia na época, atuando como Diretor no Grupo Grendene, onde era responsável pela relocalização da Vulcabrás, uma empresa com mais de quatro mil funcionários, com sede na cidade de Jundiaí (SP), e que havíamos decidido transferir para a região nordeste do país. Deslumbrado com a beleza do local, e envolvido por sua indescritível quietude, não percebi que houvera caminhado mais de seis quilômetros sob um sol escaldante, que nasce antes da cinco horas da manhã, e por volta das nove, brilha e arde como se fosse meio-dia. Já ‘bronzeado’ como um peixe frito, sob o efeito de um calor quase imperceptível, devido à brisa marinha, sentei-me embaixo de uma das tendas armadas à beira mar, para alguns momentos de relaxamento e descontração. Como havia pouquíssima gente no local, o próprio ‘dono’ do pequeno empreendimento sentou-se ao meu lado sem muitas cerimônias para me fazer companhia em um bate-papo descontraído e inusitado.

Comecei a falar empolgadamente sobre a magnitude daquele lugar e a energia que ele me passava em todos os aspectos, destacando a beleza agreste das dunas e falésias do local, a produzir uma visão extraordinária e única; e ao mesmo tempo em que falava, dava-me conta da paz transmitida pelo silêncio quase sagrado do ambiente, onde era possível ouvir a passagem de um vento preguiçoso, e escutar em detalhe cada rebentação do mar sobre areias reluzentes, a se desfazer em borbulhantes espumas que se dissipavam suavemente. Inconsciente, e de forma gradual, me desfazia da energia negativa que circunda o ambiente empresarial com todas as suas mazelas, onde seres humanos se comportam como animais primitivos, em luta sangrenta por espaço e poder, em meio a atitudes mesquinhas, onde o ‘vale-tudo’ disfarça a engenhosidade de instintos predadores, a revelar o comportamento daquilo que chamamos de ‘humanos’.

Minutos depois, após uma boa ‘refrescada’ nas águas mornas de um mar verde-sereno, me deliciava com uma incomparável ‘caipirinha’ feita com Ypióca, a cachaça nativa do Ceará, e muito limão, acompanhada de um ‘pargo frito’, preparado sem qualquer protocolo ou receita especial, enquanto escutava meu anfitrião contar suas histórias, num desabafo por horas a fio, digno de qualquer sessão de terapia intensiva. Meu novo ‘amigo’ falava como se houvesse esperado por aquele momento há anos. Citava nomes e empresas sem o mínimo pudor, exibindo uma visível decepção com os seres humanos que profissionalmente haviam cruzado seu caminho e os tratava como se fossem alienígenas de um planeta distante, com os quais jamais gostaria de volta a cruzar. Vou chama-lo aqui de Antonio, a fim de preservar sua identidade original e desvincular a narrativa de qualquer eventual conexão com a realidade do complicado e movediço mundo corporativo.

Seria impossível escrever sobre todos os ‘desabafos’ do Antonio nas poucas linhas de um artigo, especialmente para leitores que não gostam muito de ‘perder tempo’ com o que consideram ‘baboseiras’, uma vez que a maioria está absorvida por coisas muito importantes, inadiáveis e urgentes. Por essa razão, irei resumir apenas seu último relato, e que o fez abandonar tudo para ‘esconder-se’ naquele lugar, que para muitos é um ‘fim-de-mundo’.

Antonio havia trabalhado para uma grande corporação, que segundo ele, estava entremeada por um grupo de pessoas extremamente astuciosas, que havia durante anos ‘depenado’ a empresa através dos mais audaciosos ‘esquemas’, que iam da área de compras, ao setor de finanças, passando por vendas e logística. Uma teia montada por executivos de vários níveis, disfarçados sob a pele de competentes profissionais em suas respectivas áreas, combinados entre si, visando o interesse pessoal. Quando começou a perceber o terreno que estava pisando, se deu conta das muitas armadilhas montadas para ele, em ambientes que iam de almoços fora da empresa a churrascadas de final de semana, onde a sutileza das insinuações escondia as verdadeiras intenções por trás de cada diálogo ou manobra. Ao evitar envolver-se com a ‘turma’, passou a ser tratado de forma ostensiva, e em algumas situações, com ameaças veladas. Os olhos de Antonio enchiam-se de lágrimas enquanto falava das seguidas decepções com pessoas com quem convivia. Apesar de tudo, ele demonstrava gostar muito daquela empresa, pela forma carinhosa como falava dela e de seus líderes. Dizia, de maneira entusiasmada, que jamais trabalhara numa empresa como aquela, e que se sentia realizado com o que fazia. Todavia, aquele ambiente à sua volta o desmotivava demasiadamente, até que certo dia, movido por um impulso emocional, foi até a sala do ‘Manda-Chuva’, abriu o verbo a falar o que pensava daquela gente, e pediu em caráter irrevogável para ir embora, segundo ele, ‘moído por dentro’, como quem abandona aquilo que mais ama.

Em decorrência de sua indesejada decisão, Antonio entrou numa profunda depressão, e fechou-se em si mesmo. Ignorando os apelos de amigos e família, mergulhou em mundo escuro, povoado por amargos pensamentos e destrutivos sentimentos de derrota. Parado à minha frente, engoliu de uma só vez uma taça de cachaça pura, e me fitando agora com olhos avermelhados, numa clara expressão de frustração, dizia: “Amigo, eu estou aqui fugindo de tudo e de todos. Fui ridicularizado pelos que me rodeavam e que me chamavam de ‘tonto’, entre outras coisas, por querer ‘nadar contra a maré. Por isso, joguei tudo para o alto e saí mundo afora procurando por um lugar onde eu pudesse avaliar com mais calma meus próprios valores. Não sei dizer se viajei do céu ao inferno ou do inferno ao céu, mas estou cada dia mais convencido de que o ser humano é o mais selvagem de todos os animais da terra, por isso quero ficar longe de suas cavernas corporativas, pois ali é cobra engolindo cobra”, finalizou ele com um tom de sarcasmo, e um sorriso maroto na expressão aliviada de quem já não acredita em falácia.

Quando ele terminou de falar, comentei com certa tristeza no coração e um ar meio desolado: “Sabe, Antonio, já passei por tudo isso, e vivi em ambientes dos mais inóspitos; Descobri, que enquanto somos lobos precisamos saber conviver com a matilha e agir como eles; quando, porém, nos tornamos leves como pássaros, tudo o que necessitamos é aprender a voar sem medo. Não há certo ou errado nas posturas de quem quer que seja; há apenas um preço a pagar por cada decisão que se toma. Voar significa estar acima do céu ou do inferno, e apreciá-los à distância, por saber que o sucesso e o fracasso, não passam de meras alegorias para designar estágios criados pela mente ao longo da viagem. Sou executivo de um grande grupo, vivenciando tudo o que você experimentou, no entanto, não vou medir forças com o mundo à minha volta. Quando não me alinho com o ambiente que me cerca, decolo suavemente para outras paragens e deixo-me levar pelos ventos da esperança, consciente de que nada neste mundo é definitivo”.

Quando terminei de falar, Antonio estava chorando. Sentado ao meu lado, em um pequeno ‘banquinho’, naquela desajeitada mesa, ele parecia envolvido por uma serena reflexão, como se mergulhasse no profundo oceano que havia dentro de si mesmo, mil vezes maior que aquele ‘marzão’ à nossa frente. Senti por instantes que ele desejaria ser o executivo que eu representava naquele momento, ao mesmo tempo em que desejei fortemente largar tudo para trás e montar uma pousada, um boteco ou qualquer coisa parecida naquele paraíso terrestre e nunca mais ser parte de uma ópera cujo final é quase sempre patético.

Voltei caminhando naquela tarde, por uma praia magnificamente deserta, sem avistar uma única alma viva, pensando em como, sem perceber, vamos desenhando nossa história por meio de pensamentos e gestos sobre as quais nem sempre teremos controle, pois não podemos represar pensamentos, tampouco, conhecer ou prevê as transformações causadas pelas palavras resultantes desses pensamentos. Em meio a mais completa solidão, senti que não estava simplesmente a caminhar, mas a voar sobre dunas e falésias com o espírito livre de quem está além do céu e o inferno de todas as mediocridades. E enquanto lembrava aquele amigo que não voltaria mais a reencontrar, cantarolava baixinho a música ‘Quem Me Levará Sou Eu’, do mais poeta de todos os cearenses, o insuperável Raimundo Fagner, deixando para trás marcas que iam sendo apagadas por borbulhas de um tempo inexorável que não retornará jamais.

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*Mauricio A Costa, é Estrategista. Sócio Fundador da SUPPORT BRANDS, empresa de projetos e assessoria para alavancagem de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, sob consulta, para atuar como Executivo, Estrategista, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual, organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, sob consulta, para associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Labirintos





Por Maurício A Costa*


“Enquanto parte de mim se porta como herói, a outra não sabe o que faz. Metade age com sabedoria; a outra como tola se revela. Uma, parece segura; a outra é a própria incerteza. Assim, viajando em meio ao caos, me perco entre mundos que não conheço, flutuando ao sabor do imponderável, sem me dar conta de que a realidade que percebo não passa de mera abstração, a gerar as mais esdrúxulas expectativas”. (‘O Mentor Virtual II – O Elo Invisível – Campinas-SP – Livro em Gestação).

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Ultimamente, não sei se pelo efeito do tempo, ou se por conhecer a cada dia um pouco mais o ser humano que me cerca, me dou conta dos complexos labirintos que percorremos entre paredes, às vezes translúcidas, mas na maioria, tremendamente opacas; e como essa percepção nos faz sentir a incômoda sensação de impotência frente ao mais ínfimo desafio. Atuamos como se conhecêssemos o outro, quando na verdade, estamos sempre diante de algo desconhecido, por não termos a mínima noção do grau de confiabilidade ou de intenção do nosso interlocutor. Agimos como se tivéssemos controle sobre o ambiente à nossa volta, ingenuamente ignorando que, na verdade, estamos sendo conduzido pela história, resultante de milhões de informações que desconhecemos.

Por sermos vítimas e ao mesmo tempo algozes da falácia coletiva, o raciocínio falso que simula a veracidade, e caracteriza a maior parte dos relacionamentos humanos na atualidade, nos tornamos eternos desconfiados em relação ao outro, escutando-o sempre com ‘um pé atrás’, tentando ler ‘as entrelinhas’ do que é expresso, para captar o mínimo sinal de camuflagem. Abandonamos a crença espontânea no outro para nos tornarmos um bando de céticos em relação a tudo. E assim, a lei da sobrevivência em um mundo altamente competitivo aos poucos nos transforma em ferozes predadores da própria espécie, sem qualquer pudor ou noção de limites.

Nascemos puros, acreditando em tudo que nos é ensinado, sem perceber que na maioria das vezes somos alvo de uma descarada hipocrisia dos adultos, o que nos leva a agir na adolescência com impetuosidade, idealismo e coragem, dispostos a lutar contra todo tipo de sistema que encontrarmos pela frente, seja ele uma família, uma empresa, ou um país, por não acreditarmos nessas instituições corrompidas pela mentira e a falsidade, a esconder maquiavélicas atitudes que embutem traição, enganação e uma desenfreada sede pelo poder e dominação, que vai além do conceito de sobrevivência para ultrapassar todos os limites de civilidade e bom senso. Entretanto, descobrimos já nos primeiros empregos ou ambiente de convivência empresarial que se não aprendermos rápido a agir como aves de rapina seremos considerados ingênuos ou tolos pela matilha a qual pertencemos. E assim, nos transformamos rapidamente em aprendizes de feiticeiros, corrompendo tudo que encontrarmos pela frente; do guarda de trânsito ao garçom; do fiscal de rendas ao político, na ânsia pela ‘lei da vantagem’.

No âmbito das relações familiares, ao longo de milhares de anos, nós os homens, tratamos com desdém nossas mulheres, usando a supremacia da força e o subterfúgio da enganação, tratando-as como seres inferiores. Por essa razão, não deveríamos nos mostrar surpresos ao vê-las romper a casca da submissão e do sentimento de inferioridade para se colocar lado-a-lado com aquele que se disponha a acompanha-las como parceiro. Ao contrário, porém, como reação a essa mudança, assistimos ‘perplexos’, uma significativa redução do nível da confiança e diálogo que exige qualquer relacionamento. Sonhos convertem-se em pesadelos, transformando parceiros em inimigos mortais, de maneira quase sempre irreversível. Como resultado, mais e mais labirintos vão sendo construídos à nossa volta, a esvaziar todas as esperanças.

Ao olhar no retrovisor do tempo, observo consternado que não evoluímos como seres humanos em direção à unidade, ensinada pela sabedoria; ao contrário, estamos caminhando a passos largos em direção ao perigoso ambiente de ferrenha competição e individualismo que se agiganta nos tempos atuais com o crescimento dos relacionamentos virtuais, onde os traços de confiabilidade tendem a se tornar críticos e excessivamente vulneráveis. Essa constatação, lamentavelmente, me produz um enorme ceticismo com relação aos valores apregoados por muitas organizações, marcadas pelo falso brilho das aparências; quer seja um pequeno agrupamento familiar ou um mega empreendimento corporativo, pelo simples fato de que não acredito em construções erguidas sobre bases não confiáveis.

Quando me flagro questionando coisas desse tipo, me lembro de um desenho animado chamado ‘Rango’, que assisti muito tempo atrás, onde o personagem tem o seguinte diálogo com o ‘Espírito do Oeste’: - “O que você faz aqui? - Procurando. Como você. – Responde ele.-  Nem lembro mais o que procuro. Nem mesmo lembro quem eu sou. Não lhe chamavam de homem sem nome?- Hoje em dia eles têm um nome pra tudo. Não importa como chamam você. São as ações que fazem um homem. - Minhas ações tornam tudo pior. Sou uma fraude. Um falso. Meus amigos acreditavam em mim, mas eles precisam de um herói. - Então seja um herói! - Não, você não entende. Eu nem deveria estar aqui. - Está certo. Veio de longe procurando algo que não está aqui. Você não entende? Não é sobre você. É sobre eles. (...) Nenhum homem pode fugir da sua própria história. 

Assim, como não tenciono me tornar herói, sinto-me deslocado em meio ao ambiente superficial que vai tomando conta de muitas organizações, ao mesmo tempo em que me questiono sobre o sonho que trago da adolescência de construir um mundo melhor; e me pergunto se seria isso ousadia, tolice, ou utopia? Seria o que sonhei apenas algo inconsistente que se esvai com o tempo, ou teria a própria vida matado o sonho? Valerá a pena seguir lutando por um ideal como um tolo cavaleiro andante, ou será melhor aprender a nova forma de uivar da matilha? Ao final da história de cada um de nós, descobriremos todos que não passamos de um bando de 'misérables', perdidos em labirintos, e marcados pela desilusão gerada por falsas expectativas.
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"Vagando por escuros labirintos, me perco a procura de algo que não sei definir. Nem ao menos sei quem sou; tampouco para onde vou. Sem a mínima noção do que é realidade viajo insanamente perdida em meio a ilusão, tentando descobrir o que me realiza. Imersa na carência de todas as almas solitárias sigo sem rumo na busca daquilo que me complementa". ('O Mentor Virtual II' - O Elo Invisível – Campinas-SP)
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*Mauricio A Costa, É estrategista para projetos de ‘alavancagem’ de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, para atuar como Executivo, Assessor, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, para grupos, associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.






sábado, 7 de abril de 2012

Jesus Cristo, Uma Marca Forte





Por Maurício A Costa*



"Cada gesto, pensamento ou palavra transporta imensurável energia, capaz de provocar intempestivas reações ou produzir magníficas transformações. Em nossas mãos, o poder das escolhas mais acertadas". (Mauricio A Costa, em ‘Fragmentos do Mentor Virtual – Campinas-SP).

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O sincretismo contido no evento da páscoa me inspirou a escrever este artigo. Antes, porém, que você pense que ele traz um tema religioso, quero deixar claro que não professo ou defendo qualquer religião. Pelo contrário, sou avesso a elas, pelo simples motivo de não gostar de generalizações. Penso que nada neste mundo possa ou deva ser generalizado, em face do nosso limitado conhecimento e pela peculiaridade de cada ser humano diante do desconhecido. Afirmar e difundir algo como uma verdade absoluta pode ser uma temeridade. Trazemos uma bagagem extraordinária de informações, acumuladas por nossa alma, (a essência daquilo que somos), durante milhares de gerações, e isso cria inevitavelmente percepções invidualizadas em cada um de nós. Cada ser humano 'percebe' o mundo à sua volta de uma maneira significativamente pessoal. Daí a importância da complementaridade que forma o ‘todo’. 
A diversidade é uma das principais características do universo conhecido. Catalogá-las, defini-las e rotulá-las para sempre é, no entanto, uma tentativa inócua de simplificação, pois, ainda que pensemos nas repetições resultantes dos desdobramentos naturais de cada espécie, vista, por exemplo, nos fractais representados há milênios pelas cabalas, sabemos que a cada processo de reprodução poderão ocorrer mutações significativas por conta do ambiente ou das circunstâncias que cercam cada evento.

Nada no universo é definitivo. Tudo é mutante. Até mesmo o que escrevo aqui será objeto de avaliação, análise e interpretação por cada um que me lê neste exato momento, sendo que, o que chamo de ‘este exato momento’ já não será o momento em que escrevo, mas um momento em futuro incerto e imprevisível, onde desconheço o ambiente; uma vez que, tudo à nossa volta está em permanente evolução, transformando-se o tempo todo para adaptar-se ou sobreviver às novas condições que vão se sucedendo. Pretender tomar algo como verdade absoluta é, a meu ver, uma pretenciosa insensatez, ou indisfarçável arrogância, pois não temos alcance para compreender a profundidade ou dimensão de todas as coisas que nos cercam; e muito menos de prever seus desdobramentos.

Nada permanece para sempre. Até mesmo a mais dura rocha ou metal poderá fragmentar-se diante de um processo de fusão adequado, da mesma maneira que, o que aqui escrevo é também uma verdade parcial, incompleta e efêmera, pois meu conhecimento não é absoluto, tampouco tenho noção do que poderá ocorrer nos próximos segundos. E se tudo no universo está em constante mutação, todo conhecimento e toda informação estará permanentemente em fase de ajuste e renovação. Além do que, o que vemos não é necessariamente a verdade, mas uma realidade projetada ou construída pela nossa mente; algo adaptado à nossas circunstâncias, ou ao que desejamos ver.

Navegar pelos escuros caminhos da mente é algo temeroso e imprevisível, pois desconhecemos seus delicados meandros, uma vez que ela é reflexo de todo o universo, e a mente do universo é o que convencionamos chamar de Deus; o todo que contém sabedoria, e se revela à medida que nele nos integramos. Ao passo que interagimos com essa sabedoria universal, nos percebemos como um fragmento dela, reproduzindo, ao estilo dos já mencionados fractais, o conjunto de informações que assimilamos. Todavia, embora possamos refletir com plena propriedade esse todo, permanecemos como algo individual. Somos parte dela, mas não somos ela. Tal qual a bateria de um automóvel, mesmo sendo parte importante, ela será apenas um componente daquele veículo; ela é parte do carro, mas não é o carro. O carro necessita dela para funcionar e ela do carro para realizar-se. Mas, ainda que possa ser retroalimentada durante muito tempo, em determinado momento necessitará ser substituída, em decorrência do seu limite de duração. Ser parte, portanto, de um algo maior é a única e inexorável função de cada mínima ou grandiosa potência no universo, onde princípio e fim são fundamentos do mesmo processo: o reciclar que promove a continuidade do todo através dos tempos.

Por tudo isso, o fenômeno Jesus Cristo não deixa de ser algo extraordinário do ponto de vista antropológico, ao levarmos em consideração a consistência do seu discurso, e a profundidade de suas palavras. Seus ensinamentos abrangiam aspectos que iam das origens do ser humano, em todo processo evolutivo, até penetrar em suas mais arraigadas crenças, englobando atitudes, cultura e psicologia. A preparação desse homem estava muito acima da maioria dos mortais, e seu único propósito era ajudar a construir uma nova mentalidade para a humanidade de sua época. Lamentavelmente, no entanto, as religiões, algo que combateu ferozmente, por conhecer as entranhas de sua fisiologia: (‘Ai, de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes aos sepulcros caiados; por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda podridão’. Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidades), deturparam sua mensagem, transformando-a em objeto de exploração comercial e manipulação de mentes. Transmutaram sua fala metafórica quando se referiu ao preço a ser pago por cada decisão humana, em uma doutrina escatológica, onde se prega o destino final do homem num contexto profético de visão apocalíptica. Pior ainda, numa ameaça constante de céu ou inferno no após morte, se ele próprio ensinava que ‘Deus não é Deus mortos, mas Deus dos Vivos’. Quando ele falava em ressurreição estava se referindo ao renascer do espírito. Na renovação que torna o homem semelhante a um anjo de Deus; isto é, alguém leve, portador da sabedoria que produz vida; vida em abundância. Vida com a intensidade daquilo que se propaga como fogo. No entanto, os tais hipócritas, deturparam suas palavras sobre o renascimento, construindo um conceito de ressurreição dos mortos, ou pior ainda, uma teoria de reencarnação; como se fosse possível a uma maçã, (um golfinho, ou uma vaca), uma vez apodrecida, voltar a viver, salvo, sob a forma de um novo ser ou criatura, com identidade própria, resultante de sementes, sêmens e óvulos que se replicam no eterno balé dos fractais da vida.

Deturparam também seu conceito de céu e inferno, ao levar para o ‘além’ esses estágios que fazem parte da própria vida.  Ele mesmo dizia: ‘o reino dos céus é comparável ao fermento que uma mulher toma e faz fermentar toda a massa’... Ou ainda, ‘semelhante a uma rede que jogada ao mar recolhe peixes de toda espécie’, numa clara alegoria ao verdadeiro sentido do ser humano sentir-se 'feliz' ou realizado com coisas tão pequenas. Graças a essas deturpações, manipulam o pequenino, aquele ser humano que sem esperanças, fustigado pelas vicissitudes da vida cresce carente de apoio, de ajuda, de amor, ou de segurança, ameaçando-lhe com ‘infernos’, ‘purgatórios’, ou coisas do gênero, para arrancar-lhe até o último centavo, sob a forma de penitências, e doações, que vão de pequenas moedas até fazendas inteiras. 
Recentemente, a revista Veja publicou uma verdadeira guerra por seguidores entre duas seitas evangélicas de grande porte, sendo uma delas possuidora de várias  estações de rádio e canais de televisão, e a outra em fase de aquisição. Segundo a reportagem, seus sacerdotes são comissionados em até 20% das ofertas arrecadadas, e seus templos são abertos como se fossem franquias. Aqueles que deveria preocupar-se com o bem de seus seguidores, estão a preocupar-se mais e mais com suas fortunas pessoais. Esse festival de hipocrisia da qual falou o grande mestre, me faz cada vez mais distanciado das religiões que aí estão, embora tenha sempre comigo, um grande mentor,  na figura de Jesus Cristo; que apesar de jamais haver escrito um livro é um mestre por excelência. Sua mensagem é uma fonte inesgotável de sabedoria, e é lamentável que, no dia em que se reverencia sua morte, muitos de seus falsos seguidores sequer lembrem-se dele, por estarem ocupados demasiadamente com futilidades, coisas que para a alma não passam quimeras que iludem a mente sem limites por dominação e poder, ou o corpo sem limites para seus instintos.

Por tudo isso, considero esse homem simples do deserto uma exemplo de marca forte. Um símbolo que aglutina valores, que se perpetuam no tempo não pelo homem em si, mas pela magnitude da mensagem que incorpora. Não há fotos, estátuas ou registros de sua pessoa. Não fundou qualquer religião que está aí, pelo contrário, foi contra todas elas. Recomendou que quando desejarmos falar com Deus: ‘Entra em teu quarto escuro, fecha a porta e ora em segredo’. Essa é a forma de entrar em contato com a sabedoria universal presente dentro de nós mesmos. Ele foi um revolucionário diferente, porque usou apenas a força da palavra, jamais qualquer arma, força física ou enganação para construir seu legado.

Muitas famílias, empresas e governantes deveriam usá-lo como principal mentor de seus planos e ações, e buscar em suas palavras a orientação (independente de qualquer religião) sobre vida, crescimento, abundância, sustentabilidade, ética, visibilidade, liderança, bom senso, e prosperidade. Suas ideias darão têmpera para manter equipes unidas e focadas no mesmo objetivo em qualquer empreendimento, e  torná-los capazes de transformar um simples projeto numa marca forte. Como ele ensinava: ‘Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesmo não pode subsistir’. Só se conseguirá crescimento sustentado se a missão, princípios e valores do empreendimento forem coerentes, embasadas pelo conceito de unidade que faz com que 'o todo seja maior que a soma das partes'.

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*Mauricio A Costa, É estrategista para projetos de ‘alavancagem’ de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, para atuar como Executivo, Assessor, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.
É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, para grupos, associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.