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sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Pelo Que Lutamos?






Por Maurício A Costa*

“Por fim, perdido o resto do juízo que ainda conservava, ocorreu-lhe o mais estranho pensamento que jamais passara pela cabeça de outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e sair pelo mundo com armas e cavalo em busca de aventuras, e a exercitar-se em tudo que havia lido acerca das práticas dos cavaleiros andantes, desfazendo todo gênero de agravos, enfrentando agruras e perigos, a fim de que, vencendo, pudesse granjear fama e nome eternos... E assim, com esses tão agradáveis pensamentos, impelido pelo estranho gosto que neles sentia, deu-se pressa em concretizar seu intento”. (Miguel de Cervantes, em ‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’ – Edição Comemorativa dos 400 anos – Editora Itatiaia – Belo Horizonte-MG).
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Uma das mais agradáveis e ao mesmo tempo, mais complicadas leituras do meu tempo de adolescência, foi sem dúvida o livro de Cervantes. A história do grande cavaleiro andante ao lado do inseparável companheiro em suas lutas ensandecidas por ideais imaginários. Agradável pelo desenrolar de um tema tão permeado de aventura; complicado pelo uso de uma linguagem não muito familiar para mim naquela época. Alguns capítulos eu precisei ler duas ou três vezes para conseguir compreender o sentido figurado da linguagem, especialmente pelo fato do livro está escrito em sua língua original; e embora esse pequeno detalhe representasse outro sério complicador, a verdade é que, foi assim que comecei a aprender espanhol. Creio que levei mais de seis meses para ler suas quase mil páginas, mas confesso que valeu a pena. Esse livro marcaria minha vida para sempre e criaria em mim um divisor de águas entre o sonho e a realidade. Uma demarcação decisiva entre lutar por aquilo em que eu acreditasse, ainda que à revelia do mundo, ou acovardar-me diante dos desafios, que teria pela frente, uma vez que havia nascido em um ambiente de extrema pobreza.

Lutar, todavia, é algo paradoxal, pois com o tempo pode se revelar algo sem lógica, marcado por incompreensíveis contradições. Parafraseando o filósofo Kierkegaard (1813-1855), no aspecto existencial, frequentemente nos vemos diante de argumentos conflitantes por conta do disparate que representa a existência humana. Uma sequência infinita de contradições, em que realidade e ficção se misturam de forma a criar ilusões ou percepções que se modificam ao longo do tempo. Como ensina meu 'mentor virtual': “Somos dúvidas, incertezas, indecisões, imprecisões e obscuridades. Somos multiplicidade de sentidos, equívocos e hesitação. Vivemos a diversidade de infinitos significados. Somos, enfim, o paradoxo da ambiguidade... vivemos um permanente processo de evolução, onde a verdade se revela gradualmente através da mudança”. E é dessa ambiguidade que resulta a revelação de como muitas das batalhas que encetamos foram inócuas, isto é, incapazes de produzir o efeito que esperávamos, ou pior, provocaram apenas desgastes ou conflitos desnecessários, que no final resultaram em perdas irreparáveis. Com o tempo nos damos conta de que muitas das coisas pelas quais lutamos não valeram a pena. Na verdade, não passaram de quimeras: fantasias que habitaram nossa mente por algum tempo.

A cômoda racionalidade de Sancho Pança, fiel companheiro de aventura do herói de Cervantes, nos mostra um importante paralelo entre a sensatez do que é conhecido e os rompantes de um idealismo marcado pela crença na utopia dos nossos sonhos. Uma dessas utopias pode estar disfarçada na vaidade implícita do desejo de reconhecimento e fama, como diz o texto que inicia este artigo. Em outras situações, pode estar embutida simplesmente no desejo ardente de que sua mensagem se propague. E são sentimentos como esses, que levam um ser humano comum a querer transformar-se em herói. Um herói quase sempre desiludido com o mundo à sua volta; decepcionado com a passividade, a indiferença, e até mesmo com a covardia humana. (‘Veio para o que era seu, mas o seus não o receberam’... ‘Ainda esta noite todos vocês me abandonarão’... ‘e ainda esta noite, antes que o galo cante três vezes você me negará’). A história está repleta de maravilhosos heróis que deram a sua vida por aquilo em que acreditavam, embora seu valor só viesse a ser percebido após sua morte. No entanto, há uma infinidade de guerreiros anônimos entre nós, que diariamente lutam por algo que acreditam e que nem sempre são reconhecidos em vida, tampouco, depois da morte. São idealistas como D. Quixote, que ainda acreditam na ética, no altruísmo, no trabalho, no amor, e na importância da liberdade humana em suas escolhas.

Há os heróis-empresários, destemidos guerreiros, apostando tudo em suas ideias; formando e liderando belas equipes; superando desafios; enfrentando desmandos de governos ineptos, com seus excessos de tributação e encargos; lutando como empreendedores, abandonados no campo de batalha, na competição desvairada com países que apoiam seus próprios guerreiros. Homens e mulheres que se estressam diariamente em busca de saídas para suas avassaladoras turbulências, numa luta sangrenta por espaço, por recursos, por direitos, por respeito afinal. Nem sempre reconhecidos por suas equipes, e por vezes, tomados até como o vilão da história.

Há também, os heróis-homens-públicos, que independente da função que ocupam, fazem do seu trabalho um verdadeiro sacerdócio, dedicando-se inteiramente com ética e respeito àqueles que através de impostos lhes garantem o emprego, para que, mesmo sob as piores condições fornecidas pelo Estado, possam assegurar um mínimo de dignidade a todos os cidadãos que dependem dos serviços que lhes devem ser garantidos. São enfermeiros, policiais, agentes administrativos, advogados, promotores, juízes, militares, médicos, e tantas outras funções de igual respeito, resistindo ao assédio moral constante de gananciosos em busca de facilidades sob o manto da fraude, da impunidade e da corrupção.

Há ainda, e não menos importante, o pai/mãe-herói, que durante anos dedica a sua existência a garantir a formação de uma prole, levantando na madrugada e varando noites em jornadas extras para assegurar melhores recursos, e quiçá formar um patrimônio que lhe permita uma velhice tranquila. Pais que, no entanto, ao final de suas vidas são abandonados à própria sorte, e tratados como algo incômodo em lares inóspitos ou frios asilos. Alvo muitas vezes de ataques morais ou no mínimo desrespeitosos, por serpentes em forma de filhos, interessados unicamente na eventual herança, de um patrimônio que ainda não tenham conseguido delapidar. Pais-heróis que lutaram por toda uma vida, de maneira silenciosa e persistente, cujo fim pode ser o esquecimento ou a humilhação.

Em cada um de nós um D. Quixote anônimo, em luta constante contra moinhos de vento construídos em nossas mentes, que se dissipam como poeira no deserto; amores que esvaem como se nunca houvessem existido; combates diários contra 'exércitos' de ferozes e invisíveis inimigos que nos ameaçam sorrateiramente em todos os sentidos, mas que se tornam inatingíveis por conta de suas forças corporativas. Guerras intermináveis por um lugar ao sol, por desejar ter opinião própria, por um teto, por um emprego, por um amor, por respeito, por reconhecimento, ou por dignidade. E em meio a essa batalha infernal, algumas perguntas clamam por respostas: Pelo que lutamos afinal?... E quem são nossos verdadeiros inimigos?... Estarão eles distantes, ou muito próximos de nós?... Valerá a pena tamanho empenho e sacrifício?... Enfim, ser racional, um acomodado Sancho Pança a aceitar as coisas como estão sem questioná-las?... ou ser um tolo e idealista D. Quixote, e continuar a sonhar mais um ‘sonho impossível'... Quem sabe, até mesmo pelo amor de sua  Dulcinea...?

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*Maurício A Costa foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. 

É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 

Contatos:
mauriciocosta@uol.com.br 

2 comentários:

  1. Eu me apaixonei pelas suas definições sobre a obra. Você disse tudo e tão bem que pouco deixou para comentarmos. Simplesmente perfeito.
    Engraçado, que só agora, estou lendo Dom Quixote, aos 30 anos. Li aos 15 mas não compreendi bem a linguagem e abandonei. Anos se passaram e ele veio até mim, de repente. Não sei porque, eu não parava de procurá-lo no Google imagens, nos sites. Passei a colecionar frases que achava na internet e enchi meu blog de imagens desse nobre cavalheiro. Ele não saía dos meus pensamentos. E ele me veio assim, justamente quando minha caminhada, rumo a advocacia havia chegado em seu maior êxtase. Porque foi aí que eu percebi que eu era apenas um cavalheiro errante, lutando contra moinhos de vento. Depois de tudo que eu passei pra me formar (fome, frio, humilhações) me vi advogada, com uma boa profissão, um bom emprego mas um tanto que desiludida. A realidade assola nosso chão. Me vi assim, Quixote. Tratei de comprar seu livro e iniciei atualmente a leitura maravilhada. Mas engraçado como a mensagem dele me veio antes mesmo de eu começar a ler o livro. Essas coisas me fascinam.
    No prefácio, descobri que seu escritor, Cervantes, serviu de forma corajosa e extremamente dedicada como soldado em guerra. Mas depois que as lutas se acabaram, Cervantes se viu miserável, sem auxílio e esquecido. Passou dificuldades financeiras e se sentiu traído por aqueles que ele arriscou a própria vida. Depois da guerra ele percebeu que se quer houvera sido soldado.
    Como você mesmo disse no texto, há um Quixote em todos nós. A diferença é que muitos passam a vida sem perceber que na verdade, lutam contra moinhos de ventos e não contra temíveis dragões.
    Os humanos e seu amor pelas causas perdidas....
    Blog Tromba de Elefante

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    1. Olá, Sabrina... Aqui está a prova de que o tempo não passa de mais uma dessas ilusões que a mente cria... Depois de quatro anos do seu comentário, estou aqui para dizer-lhe o quanto gostei de sua passagem meteorica mas enriquecedora...Seres por caminhos paralelos que se cruzam por segundos, mas deixam marcas que permanecem para sempre.
      Um abraço carinhoso,
      Mauricio A Costa
      www.projetomentorvirtual.com

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