Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Herói Está Morto







Por Maurício A Costa*


"É verdade: Amamos a vida, não porque estejamos habituados a vida, mas ao amor. Há sempre um quê de loucura no amor. Mas há sempre também um quê de razão na loucura.... Eu não poderia crer num Deus, se ele não soubesse dançar" (Friedrich Nietzsche, em 'Assim Falava Zaratustra')

__________________________
Conheci certa vez, em um voo entre San Francisco, na costa oeste americana e Londres, com direito a escala em Nova York, um grande executivo, com quem tive durante o imenso tempo da viagem, a oportunidade de um fantástico diálogo. Após algumas taças de um delicioso Chardonnay, um dos mais populares vinhos californianos, fomos gradualmente retirando nossas máscaras, e deixando expostas nossas almas, para uma conversa mais espontânea, sem as convencionalidades que costumam nortear os diálogos entre empresários e executivos, especialmente aqueles recém-conhecidos. Percebi aos poucos, que o meu novo amigo parecia querer desabafar algo que trazia entalado na garganta por algum tempo, e não hesitei em deixa-lo à vontade. Meu interesse pela alma humana sempre me coloca diante de situações de inesperadas catarses, e por conta disso, já sei o quanto é importante deixar à vontade aqueles que necessitam de ouvidos.

Para preservar sua privacidade, vou chama-lo aqui de Wayne. Um americano daqueles de bochechas avermelhadas, andar firme e fala descontraída, embora fosse um tipo um tanto reservado. Seu olhar parecia guardar marcas de uma vida conturbada, e sua volúpia com o vinho dava mostras de uma personalidade de quem tenta se esconder de si mesmo, angustiado com o momento seguinte da sua vida, e sente-se perplexo pelo que virá. Wayne havia sido um grande empresário no ramo em que ainda atuava, mas, como ele mesmo dizia, ‘vinha ladeira abaixo’ nos últimos anos, o que o deixava muito constrangido e inseguro em relação a tudo. As coisas em seu país não andavam nada bem; as mudanças constantes provocadas pelo avanço alucinado da tecnologia o faziam sentir-se cada vez mais despreparado, e a concorrência dos produtos asiáticos o faziam tremer em relação às perspectivas futuras do seu negócio. Cada dia uma nova forma de apreensão surgia no horizonte e ele não sabia como reagir diante de tamanha transformação.

Para piorar ainda mais as coisas, Wayne agora estava só, pois o casamento de mais de vinte anos havia perdido a razão de existir; não resistira ao enorme desgaste frente a uma indesejável sequência de desafios. Sua ex-mulher, uma bela e inteligente nova-iorquina, havia assumido posição de destaque na empresa onde atuava como executiva, e tornara-se alguém extremamente ocupada, ausente, e autoritária. Viajando com frequência para participar de reuniões ao redor do mundo, estava frequentemente assediada por ‘machos’ de toda coloração, que faziam seu ego viver nas alturas. Decepções contínuas, entretanto, com seres que estavam interessados apenas em uma ‘boa noitada’, a transformaram numa cética em relação aos homens; e uma repentina apatia a tornaram uma mulher fria e sem o mínimo interesse sexual no casamento, gerando uma situação de compreensivo desconforto para ambos, que só agravava a relação. Os diálogos iam aos poucos se tornando ríspidas discussões que só levavam a nervosas agressões verbais, a provocar feridas recíprocas. E assim, no momento em que Wayne mais necessitava de sua musa inspiradora, seu ponto de referência, seu farol em mares turbulentos, ele começou a sentir-se só. Sua base de apoio agora parecia algo distante e indiferente ao que se passava com ele, e nosso herói começava a morrer aos poucos. Sem a energia e a confiança daquela a quem dedicara toda uma vida, sua força ia pouco a pouco desmoronando como viga atacada por cupim.

Enquanto me contava sobre os últimos acontecimentos de sua história, Wayne embargava a voz tentando com frequentes pigarros esconder a indisfarçável angústia que o incomodava. Seus olhos brilhavam, traindo a calma aparente de sua narrativa, envolvida momentaneamente por aquele insuperável Chardonnay que nos anestesiava de uma realidade que surge do inesperado, a mostrar que muitas vezes as circunstâncias podem modificar vidas para sempre, ainda que à revelia das melhores intenções ou dos melhores planos. Caminhos se bifurcam do nada. O que era paralelo vai tomando direção imprevisível. O que já foi compatível vai se tornando indesejável, e o medo do imprevisível vai gradualmente ocupando todos os espaços a produzir um vazio insuportável.

Ao voltar no tempo para lembrar esse inesquecível diálogo, enquanto voava a mais de trinta mil pés de altitude sobre algum lugar deste maravilhoso planeta, eu reflito sobre o decisivo e importante papel da mulher na vida de um homem, e essa reflexão me faz sentir uma imensa preocupação com relação às mudanças comportamentais que assistimos no mundo contemporâneo. Durante séculos, a mulher foi, na maioria dos casos, a retaguarda, o apoio, a sustentação, ou o ponto de referência de qualquer homem normal. Ela foi a figura central; inicialmente como mãe, e na sequência, como esposa, cúmplice ou companheira, e suas sutis recomendações, disfarçadas sob uma aparente inferioridade foram captadas pelo homem como poderosos comandos subliminares que uma vez processados pela mente do ‘filho’ ou companheiro transformavam-se em alavancas capazes de mover o mundo. A mulher, desde os primórdios da humanidade, era percebida em sua essência como a deusa, a ninfa, a musa, ou a sacerdotisa, e como tal, a inspiração, a força, e a motivação para o homem, seu herói. ‘O herói, ao longo de várias civilizações, costuma ser definido como uma figura arquetípica, isto é, algo de conteúdo simbólico, que resulta da propagação do inconsciente coletivo, e reúne em torno de si os atributos para superar de forma excepcional as limitações humanas, dando-lhe uma dimensão épica. Na mitologia grega, o herói situa-se na posição intermediária entre os deuses e os homens, o que lhe confere uma dimensão fora do convencional’. Todavia, sem a energia que emana da mulher e a força produzida pela motivação do sexo esse herói perde sua razão de existir e definha. Torna-se um eremita, um andarilho, ou um caramujo, e como água que se esvai no ralo, ele se desfaz.

É a mudança drástica de atitude dessa mulher contemporânea que assusta e afasta o homem. A musa vai se transformando em competidora, a ninfa transmuta-se em modelo para outras mulheres visando exibir sua vaidade, e a sacerdotisa age como um grande general de guerra, a querer impor um estilo que destoa da magnitude de sua sensibilidade e energia espiritual. O papel de mãe já não é mais desejado com a mesma ênfase de outrora, e a criação da prole vai se tornando algo delegado, aborrecido e distante. Por conta disso, uma geração sem rumo, fruto da indiferença maternal, vai nascendo em quantidades cada vez menores, criada em ambientes cibernéticos e educada pela impessoalidade do ambiente virtual, onde o toque, o contato e a emoção do abraço vão sendo substituídos pela frieza das relações superficiais, que produzirá um ser humano cada vez mais calculista ou trapaceiro, desprovido da mais poderosa fagulha divina que permeia o homem através da mulher, a sensibilidade.

Ao aprofundar a análise sobre a história do Wayne, o personagem inicial deste texto, percebo que sua decadência não teve origem na verdade nos desafios do ambiente econômico ou no ímpeto das forças de mercado, mas sim, nas radicais transformações sociais que vivemos nos últimos cinquenta anos, que foram mais intensas do que as vividas pela humanidade nos últimos cinco mil anos. Nesse contexto, vejo a postura desempenhada pela mulher como fundamental. Sua ânsia por liberdade e independência a está distanciando do seu papel ao longo de milhares de anos e é essa mudança que cria a dissonância entre seres da mesma espécie cujas habilidades, características e performances deveriam ser complementar, jamais competitiva. A vaidade e egoísmo pessoal não podem se tornar maiores que a grandiosidade gerada pela sinergia de forças complementares. A natureza com certeza não perdoará qualquer falta de sintonia que altere o equilíbrio de suas forças, e essa alteração de forças poderá afetar o futuro de maneira catastrófica. E ainda que pareça um tanto exagerado, a continuidade da espécie humana, tal qual qualquer outra atividade no mundo conhecido, depende essencialmente da complementaridade. O princípio dualístico está presente em todo universo. Matéria e energia são os principais componentes de tudo que percebemos. Fora disso, é o vazio absoluto, o buraco negro que tanto tememos.

Homens e mulheres necessitam urgentemente avaliar seus papéis nessa ópera de dimensão universal. Dois elementos distintos ocuparem simultaneamente o mesmo espaço ainda parece uma incógnita para qualquer cientista, e soa como uma incoerência quando procuramos entender o princípio da complementaridade no processo dualístico que move todo universo. Reverter os papéis de cada um não nos parece algo simples e factível em curto espaço de tempo. A natureza das coisas exige um tempo mínimo para adaptações e contrariar tal princípio pode acarretar a extinção pura simples de uma espécie para sempre. Não se trata aqui de uma apologia à mesmice, ao continuísmo ou à acomodação. Nosso alerta está voltado para a velocidade das mudanças. É aí que reside o risco de qualquer desintegração. Talvez não estejamos preparados para acompanhar essa velocidade, como mostram os comportamentos e atitudes que assistimos diariamente estampados no noticiário internacional, onde o descontrole emocional, o estresse, a depressão, e a violência, só para citar alguns, vão se banalizando de tal forma a não nos causar mais estupefação. Como ensina O Mentor Virtual, “tudo no universo está interligado”; por isso, não podemos subestimar e muito menos banalizar princípios que regem o equilíbrio de forças. A sabedoria é a somatória da inteligência de todas as coisas; reverenciá-la é no mínimo uma atitude de coerência, e por que não dizer, uma atitude em prol da sobrevivência.

Um dia Nietzsche falou que ‘Deus estava morto’, numa referência ao fato do homem haver crucificado aquele a quem consideravam a encarnação do próprio Deus, e hoje ao ver histórias como a do Wayne proliferar de forma assustadora, eu declaro: O herói está morto. O que veremos a partir de agora serão clones de um Darth Vader, mortos-vivos movidos por controles artificiais a exibir uma fachada de algo que na verdade não são. Uma força negra a permear relações outrora humanas, que se transforma em poder avassalador destrutivo, por conta do desequilíbrio de forças que de maneira incontrolável vai permeando a humanidade. O herói está morto, porque sua musa está deixando de passar-lhe inspiração e motivação. Sua ninfa está se transformando numa estátua de sal, e sua sacerdotisa já não lhe inspira mais a fé e a confiança que o faziam lutar sem medo. 

Marcas fortes nascem da coesão de forças opostas, mas complementares, e a unidade é a base dessa força. Os valores universais que dão vida a essa unidade são princípios intrínsecos que carregamos na alma, ainda que os desconheçamos ou mesmo o ignoremos. Matéria não subsiste sem energia. Energia não faz sentido sem matéria. Nisso consiste a origem do universo. Uma singela lição sobre a complementaridade que gera a vida. 
_______________________________

"No ventre de cada mulher, o templo de uma divindade. Nesse átrio vazio o universo penetra com seu fogo sagrado para se realizar, sem importar com limitações ou desafios. Feras e deusas se misturam num magnífico ritual onde a incomparável energia do amor realiza o milagre da vida. É dessa simples magia que surgem todos os heróis". (Fragmentos do Mentor Virtual)
_______________________________________

____________________________________


MAURÍCIO A COSTA -Campinas, São Paulo, Brazil

Um obcecado por resultados, focado em pessoas, no pensamento estratégico e no valor agregado. Ex-Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Disponível para participar de Empresas sérias, que estejam interessadas em melhorar resultados e aumentar rentabilidade. Em termos pessoais, o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento em fase de gestação, focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Como autor e palestrante, disponível para, conferências e workshop que poderão mudar a sua visão do mundo, e alavancar o potencial de sua equipe. Disponível também para atuar como 'Coaching' de Empresários ou Executivos que buscam harmonia entre o ser humano que são, e o guerreiro que necessitam incorporar diariamente. Contatos: mauriciocosta@uol.com.br


Um comentário:

  1. Divino Mauricio! Você enaltece a Mulher até mesmo criticando-a! Se faz necessário urgentemente SALVAR O HERÓI!

    Ser uma Mulher moderna, não significa necessariamente deixar de ser Mulher com todas as suas tolices e meiguices:
    - Ser mãe, às vezes, um pouco tolerante;
    - Depois de uma jornada de 6;00 horas de trabalho, fazer uma faxina na casa, esperar o 'herói' com o jantar à mesa, linda e cheirosa e ainda lhe perguntar - "como foi seu dia?";
    - Fazer aquele olhar, jogar os cabelos para trás, morder as pontinhas dos dedos, o 'herói' fica todo desconcertado, porém mais forte.

    Mulher moderna é assim; ela não compete com seu 'herói', ela o deixa mais forte; pois sabe que nos momentos de turbulências poderá contar com sua força; e, o 'herói'. por sua vez sabe que nela tem sua fonte de energia.

    Todos os seres possuem sua própria 'luz'. Mas a Mulher, possui uma Luz especial; pois a ela foi dada a "benção" de dar a LUZ a todos as seres da Terra. Não podemos deixar apagar essa LUZ!

    Abçs. carinhosos Mauricio.

    ResponderExcluir

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.