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sábado, 6 de outubro de 2012

Sobreconfiança; Origem de Frustrações




Por Maurício A Costa*


“Quebrar paradigmas ou ideias pré-concebidas, permite vislumbrar o mundo além do horizonte das nossas limitadas convenções; Inserir uma visão mais ampla, que contemple múltiplas percepções para um mesmo fato, enriquece nossas decisões, e amplia infinitamente as possibilidades” (Mauricio A Costa, em 'O Mentor Virtual' - Editora Komedi - Campinas-SP -2008).

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Antes de iniciar a leitura deste artigo, peço ao amigo leitor que não procure nos dicionários convencionais a palavra ‘sobreconfiança’, pois ela não existe formalmente; eu a utilizo com frequência, sabedor de que se trata uma corruptela linguística ou algum tipo de neologismo; No entanto, estou certo de que em algum momento você já a escutou ou até mesmo utilizou essa expressão em algum diálogo. ‘Sobreconfiar’, aqui agora colocado como verbo, poderia ser traduzido por confiar em demasia, em algo ou alguém, ou até em si mesmo, sem levar em conta circunstâncias aleatórias ou desconhecidas que possam afetar um resultado esperado. É subestimar consequências de um pensamento, gesto ou ação que pode desencadear situações imprevisíveis ou indesejadas; algumas delas de efeitos avassaladores e até mesmo catastróficos.

Sobreconfiança é lançar-se ao mar para aventuras audaciosas, confiado apenas na visão aparente de uma praia de águas calmas e de vento sereno, sem levar em conta a resistência da embarcação, as previsões meteorológicas para a viagem, subestimar recursos, ou por último, mas não menos importante, superestimar a competência da tripulação, especialmente daquele a quem se delega o timão. Sobreconfiança é ir além do bom senso, ou extrapolar a própria intuição que silenciosamente avisa que algo pode dar errado, por conta de impulsos movidos pela vaidade. 

Ao longo da minha carreira como executivo, empresário ou consultor, vivenciei com frequência situações onde o excesso de confiança foi responsável por consequências indesejadas. Participei, tanto como ator principal, ou como coadjuvante, de decisões impetuosas que colocavam em risco o empreendimento, pelo fato de estarem sustentadas unicamente por situações aparentes, leituras equivocadas, informações não confiáveis, e pessoas despreparadas ou de intenções disfarçadas. E em todas essas situações, o tempo se encarregou de mostrar o quanto podemos estar errados, quando movidos pelo egoísmo de nos sentirmos donos absolutos da verdade. Olhamos o mar tranquilo à nossa frente, com nuvens que se movem de maneira quase sonolenta, a nos inspirar confiança, ignorando que tudo está em permanente mutação, numa silenciosa e decisiva transformação que modifica cenários em fração de segundos. Como adverte a teoria do caos, ‘o simples bater de asas de uma borboleta na Amazônia pode desencadear uma monção no sudeste asiático’. A tranquilidade aparente não passa muitas vezes de um singelo momento de transição entre uma turbulência e outra, em que elementos da natureza buscam acomodar-se diante do frenético balé de todas as coisas, de um universo em constante movimento. Como ensina meu inseparável mentor, ’não é aconselhável nos deixarmos fazer reféns de perigosas ilusões criadas pela mente’.

Hoje, ao ver carreiras ou empreendimentos destruídos, ou sob o efeito de fortes turbulências, eu me questiono um tanto desolado: Onde nós erramos?... E a resposta vem clara e incisiva: Erramos por sobreconfiar! Por confiar em excesso nos outros. Por confiar cegamente nas informações que recebemos. Por ingenuamente nos acreditarmos invulneráveis, superestimando nossa força diante do imponderável. Sobreconfiamos por não perceber nossa fragilidade frente a um universo de múltiplas possibilidades a revelar imprevisíveis circunstâncias sobre as quais não temos qualquer controle. Sobreconfiamos por não acreditarmos que navegamos no caos, onde o imprevisível é a única verdade absoluta, que nos faz flutuar ao sabor de incertezas. Um executivo ou um empreendedor vaidoso no topo de uma organização pode colocar tudo a perder ao colocar seu egoísmo acima do bom senso coletivo. Uma decisão movida por interesses pessoais pode detonar tempestades imprevisíveis a comprometer todo um plano de viagem. Um repentino gesto emocional pode alterar significativamente os rumos de um projeto e coloca-lo em rota de colisão com inesperados icebergs. Uma simples palavra interpretada de forma equivocada ou distinta de sua intenção original pode desencadear consequências irreversíveis. Como lembra nosso mentor virtual: ‘tudo está intimamente interligado’. A sabedoria universal nos ensina que é preciso duvidar de tudo. O grande mestre do cristianismo ensinava que é imperativo estar 'alerta' sem cessar, porque a 'enganação' espreita o tempo todo. Sobreconfiar é ir além do que recomenda nosso ser mais profundo, que atento a tudo nos adverte sutilmente sempre que agimos movidos unicamente por instintos de qualquer espécie. Sobreconfiança não pode ser confundida com idealismo. Esta última, significa enxergar um futuro que para muitos não faz sentido, mas nunca de maneira irresponsável.

Assisti atônito, a derrocada de impérios financeiros, ou fragmentação de poderosas estruturas corporativas por conta da vaidade de seus líderes, especialmente por se julgarem donos absolutos da verdade e não aceitarem sugestão ou recomendação que vem de fora, ou mesmo de dentro da própria organização. Ao impor suas ideias de forma centralizadora, eles as transformam em um plano estratégico rigidamente suicida, que todos percebem, menos aqueles cuja visão está tapada pela vaidade. Esquecem que em tempos de navegação no caos, o planejamento estratégico não passa de um manual de procedimentos transitório; pois a mudança é algo permanente e acima de tudo veloz. Navegar no caos exige na verdade, pensamento estratégico. Dinâmico. Flexível. Holístico. Com a plena consciência do efêmero, resultante da velocidade das mudanças. Nos tempos atuais, a tecnologia da informação nos coloca diariamente diante do inusitado, e nos faz perceber que aquilo que vemos não passa de algo fugaz, quase uma ilusão de ótica que se dissipa como se nunca houvesse existido em questão de minutos. A cada dia, tudo se torna mais fluido. Inclusive nossa percepção. E assim, vamos descobrindo que o conceito de eterno não se aplica a coisas sólidas, que são meros instrumentos, mas à sua essência. Por essa razão, um empreendimento contemporâneo não deve se ater apenas a velhos padrões do passado como unidades industriais, prédios, fábricas, lojas, produtos, ou equipamentos de maneira isolada, mas a conceitos como intangibilidade, valor agregado, marca, sustentabilidade, diversidade, holismo, interatividade plena, fluxos, e acima de tudo, complementaridade. O leve substituindo o pesado, desmistificando o termo alquimia, para nos fazer compreender a energia como um princípio natural, (não necessariamente metafísico), que permeia a matéria produzindo movimento; que por sua vez gera vida e por ela é gerado. 

A sobreconfiança é sem dúvida também, a causa de inúmeras frustrações do ponto de vista social. Presenciamos quase impotentes, o esfacelamento de estruturas familiares ou organizacionais por causa da sobreconfiança reinante entre seus componentes. Irmãos que subestimam a esperteza ou voracidade do outro; Casais cujos cônjuges depositam mutuamente suas mais nobres expectativas em seres que encontraram pelo caminho, e que são sabidamente diferentes; amigos cuja afetividade os impede de enxergar interesses escusos por trás de supostas amizades... E por aí vai. A verdade, é que, conscientemente ou não, nos tornamos cegos ao óbvio. Superestimamos valores e subestimamos instintos predadores, ou vice-versa, e desse equívoco de percepção nos tornamos reféns, criando paradigmas que nos limitam o bom senso, e nos fazem lamentar ‘perdidas ilusões’ que só o tempo nos permitirá descobrir. 

Para nos precavermos de maneira prudente das atitudes de sobreconfiança, é recomendável que, antes de tudo, estejamos atentos às nossas próprias posturas, no que diz respeito a falsas expectativas, evitando o famoso ‘canto das sereias’ que chegam até nós como fantasiosas visões. Que não depositemos fora de nós nossas esperanças, acreditando em promessas de um porvir sobrenatural desprovido de qualquer racionalidade. A fé é fundamental, mas não deve ser cega, irracional, e muito menos dogmática. Que escutemos nosso eu mais profundo (subconsciente, coração, ou alma), sempre que estivermos diante de situações duvidosas, ou de pessoas sobre as quais nossa intuição adverte a agir com cautela. Lembrando que por baixo de águas tranquilas podem haver belos, mas traiçoeiros corais, ou um perigoso lamaçal, dos quais, talvez, não consigamos sair jamais. 

Dentro de nós, costumam estar todas as respostas que precisamos. Escutar a voz que vem de dentro pode ser o melhor caminho para evitar a sobreconfiança e prevenir indesejáveis frustrações. Sem importar com o que teremos que lidar, se o pai, a mãe, o irmão, o amigo, o chefe, ou o sócio, é imperativo agir com coragem para desafiar aquilo que nos incomoda, nos angustia, ou nos ameaça. A verdade quase sempre está encoberta por brumas superficiais, e para enxerga-la é preciso que abandonemos paradigmas que engessam, permitindo que ela se revele de forma natural, para compreendermos o autêntico sentido da expressão liberdade. Porque ser livre não é ter poder; é viver sem necessitar dele. 

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*Maurício A Costa é estrategista; ou numa linguagem da moda, um 'Design Thinker', focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio.
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 



Um comentário:

  1. Querido Maurício,

    Perfeito...descobri há algum tempo, "esta voz sábia" dentro de mim, ela surge quando estou consciente e conectada com a minha verdade, as vezes ela simplesmente flui... intuição, mas hoje acessá-la com confiança exige uma resignação dos muitos ruídos existentes, inclusive, o tal canto da sereia, como você sitou, que nos leva a essa super confiança "egoica" de que tudo podemos e que não há consequências para os nossos atos.
    O mundo, as pessoas estão confusas, perdidas, solitárias, estamos desconectados com nosso Eu absoluto, que tem o propósito de compartilhar.
    Valeu a reflexão e a sua lucidez... por nos lembrar.
    Abração!

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