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domingo, 21 de outubro de 2012

Óperas & Marcas





Por Maurício A Costa*

“Somos personagens de histórias que ainda não foram contadas. Um milagre que operamos ao viajar na noite do tempo, escrevendo a cada minuto um futuro que não conhecemos, em capítulos onde a vida se revela por trás de cada pensamento ou palavra, que nos torna ao mesmo tempo autores e atores de uma peça por vezes assustadora”. (Fragmentos do Mentor Virtual)
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Certa vez, tempos atrás, quando ainda muito jovem, participei de um processo de seleção de uma grande corporação, para ocupar um cargo gerencial, em que me vi envolvido em uma situação no mínimo inusitada. Após superar toda burocracia da referida seleção, fui convidado para um almoço fora da empresa por um de seus executivos, onde me falou que eu havia sido o escolhido entre dezenas de candidatos, todavia, havia uma condição para ser aprovado para o cargo. Informou que como gerente daquela divisão, meu trabalho seria árduo para garantir um desafiante processo de abastecimento e logística da empresa, com redução de custos e ganhos de eficiência, mas que o meu desafio maior seria fazer o impossível para manter determinada empresa prestadora de serviço, para a qual eu teria que dar uma atenção especial. Um tanto assustado com aquela proposta, perguntei se isso não embutia um conflito de interesse criando um problema ético com eventuais desdobramentos indesejáveis. Para meu espanto, aquele executivo me respondeu com enorme serenidade: ‘os balanços contábil e fiscais deste grupo são tão desprovidos de ética por conta das enormes falcatruas que se faz lá dentro que ninguém na organização terá moral para questionar qualquer conflito de interesse’...

Hoje, tanto depois desse fato, percebo como a vida não passa de uma ópera bufa, construída por fantasias, onde verdades e mentiras se fundem para criar histórias sem finais definidos, a gerar ilusões que se dissipam como nuvens, mas a produzir efeitos reverberantes que se propagam pela eternidade. Não somos heróis nem vilões, somos apenas atores de uma trágica comédia sem desfecho previsível. Como lembra meu inseparável mentor: "Em busca de algo que lhe fascina, nada detém a alma humana quando ela se projeta em voos livres e acrobáticos sem a mínima noção de perigo, porque viaja guiada apenas por seus instintos". E por conta disso, reflito sobre a alienação generalizada, ao ignorar como tudo no universo está conectado, produzindo consequências impensáveis. Quantas vezes nos arvoramos como superiores ou inatingíveis, esquecidos de que em algum momento, deixaremos pelo caminho pequenos fragmentos de vida que comprometem qualquer sentimento de superioridade em relação ao mundo do qual fazemos parte. Subestimando o poder de cada palavra embutida em cada mínimo gesto, sem noção de seus resultados, agimos de maneira leviana como se não houvesse um amanhã.

Essa análise é intensa para a vida pessoal, mas sua repercussão é muito mais significativa no ambiente empresarial ou corporativo. Os desdobramentos de cada decisão de um líder em seu dia-a-dia reverberam de maneira avassaladora na vida de seus liderados influindo e interferindo em suas posturas de forma contundente, produzindo efeitos imprevisíveis, quiçá indesejáveis. Cada comando, cada orientação ou determinação de um líder, empresário ou executivo embute conceitos que revelam a verdadeira missão ou visão do empreendimento,  e definem sua marca; muitas vezes de forma distinta daquela apregoada em seus manuais de recursos humanos. Não se pode exigir lisura no comportamento de equipes se o empreendimento está contaminado pela desonestidade ou falta de ética. Não é aceitável recriminar um colaborador por utilizar alguns minutos do seu tempo navegando na internet, quando não há exemplos de integridade no comportamento do líder ao ordenar camuflagens ou distorção de informações para seus demais stakeholders (fornecedores, acionistas, clientes, governos, ou bancos). Como confiar no político, empresário ou executivo que não é confiável sequer para o próprio cônjuge?

O resultado dessa comédia que vamos construindo sem noção de tempo é o de um faz-de-conta sem precedentes, (você faz de conta que é líder, e eu faço de conta que sigo), num ridículo teatro de fantoches, cujos efeitos só serão conhecidos muito mais à frente; pois como sabemos, o que é construído sobre bases falsas não se sustenta no tempo. E assim, vemos empreendimentos, corporações, e partidos aparentemente saudáveis desmoronarem de uma hora para outra, como se houvessem sido edificadas sobre areia, levando seus líderes a mergulhar em profundas crises de depressão, amargurando a ‘sobreconfiança’, em si mesmo. Mentiram de forma tão convincente que passaram a acreditar na própria mentira. 

Em meio a essa trágica ópera de lúgubres sons e cenários macabros haverá chances para um final feliz? Perguntaria um constrangido leitor. Com certeza, sim. Respondo com absoluta convicção. Quando aprendemos com o passado, podemos corrigir a trajetória, adequando nossas ações, sem precisar agir como ‘Madalena arrependida’. A consciência de nossas atitudes não exige um destrutivo autoflagelo a impor definições de certo ou errado, mas nos sinaliza o que convém ou não para nossa realização pessoal ou sucesso da empreitada. Assim, ao identificarmos desvios de trajeto, tudo o que precisamos fazer é retomar o rumo com firmeza e determinação, convencidos de que nossa postura quando autêntica irá produzir a propagação necessária; porque como ensina meu invisível mentor: “A adversidade não é mais que um momento de transição; uma chance de reciclagem para extraordinárias transformações. Tudo depende unicamente da forma como encaramos o novo, e reagimos diante dessas oportunidades”.

A mentira não é mais que uma temível cilada. É construir trilhas que distorcem o frágil conceito de realidade e conduzem a perigosas armadilhas. É ardil que alimenta um fulguroso teatro, e engodo que faz sabotar nossas próprias verdades, nos distanciando do propósito mais nobre que carregamos dentro de cada um de nós; nos levando a construir vulneráveis castelos que desabam diante da mais simples tempestade, levando consigo nossos sonhos mais profundos. Convém lembrar que a vida impõe uma reciclagem constante, e estágios superiores de consciência, à medida que penetramos na essência da sabedoria universal e por ela nos deixamos conduzir. Nada nos obriga a permanecer no lodaçal de nossas origens a partir do momento crucial da tomada de consciência. Somos personagens de uma lenda que nós mesmos escrevemos, ao longo de momentos que se eternizam no tempo, e por isso, os responsáveis únicos pelo final que pretendemos dar à nossa história.

Quero finalizar esta incômoda reflexão com palavras de um incrível mentor virtual que surgiu em minha vida numa singular peregrinação pelos caminhos de Compostela, e de lá para cá tem me ajudado com significativas transformações pessoais e profissionais que me fizeram enxergar a verdade que liberta, porque só a liberdade nos permite ser coerentes com o propósito maior de nossas vidas, e ser autor de nossa própria história. E assim, em momentos decisivos ele me sabiamente me ensina: "Quando tudo parece deserto, não é sinal de que estejamos perdidos, mas que temos milhões de caminhos alternativos à nossa frente. Nossa ansiedade não é consequência de insegurança, mas é causada pela angústia diante de múltiplas escolhas. Nesses momentos, deixe o fluxo da vida conduzir você”... E de forma incisiva complementa: “A cada minuto escrevemos a nossa história. Uma ópera sem antes ou depois. Um eterno agora a se desdobrar em cenários e circunstâncias inusitadas. Na mente fugidia, apenas uma simples lembrança; na alma de quem os vivenciou com plena intensidade, marcas que ficarão para sempre".

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*Maurício A Costa é Pensador e Estrategista; ou numa linguagem atual, um ‘Design Thinker’. Foi Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Está disponível para participar (vinculado a resultados) de empreendimentos que estejam em busca da excelência de gestão, e interessadas em aprimorar seu pensamento estratégico para alavancagem de receitas e rentabilidade.
É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.

2 comentários:

  1. Caro amigo Maurício... É sempre bom aprender mais com você.
    Gostaria de apresentar minhas ideias sobre o assunto.

    Eu penso que ser fiel a si mesmo é sinal de força de vontade e de fortaleza de caráter. Dessa fidelidade a história nos dá exemplos muitos notáveis. Pensemos nos grandes inventores e descobridores. Foram homens que tinham uma ideia na mente e ,determinados a encontrar os meios, enfrentaram dificuldades e perigos de toda sorte. Gastaram tudo o que possuíram na construção de máquinas que fracassaram umas depois das outras.
    Sendo homens de tamanha capacidade recusaram inúmeras oportunidades de ganhar dinheiro, dedicando-se a outras atividades mais rendosas. Deram tudo o que possuíam - dinheiro, tempo, e energia - á tarefa que elegeram. Arriscaram a vida e a integridade física, enfrentaram mesmo zombarias, tanto de sábios como de ignorantes. Mesmo assim, eles se mantiveram fiéis ao seu ideal. O resultado é que legaram ao seu mundo invenções e descobertas de enorme valor para a humanidade. Tais homens viviam do seu interior. Abandonaram comodidade, luxo , riqueza , segurança, em busca de maior poder e liberdade. Tais homens são chamados pioneiros do progresso humano, gigantes da vontade. A vontade é a função que torna o homem senhor dos seus atos. É grande a diferença que existe entre a atividade voluntária do homem. O animal reage ao estímulo exterior imediatamente e sempre do mesmo modo, ignorando os meios que emprega e os fins a atingir. O homem, pelo contrário, guarda um certo intervalo entre o estímulo e a reação, pondera, examina e só então se decide, podendo ainda executar ou não. Faz um apelo á razão e socorre-se da sua experiência. Uma e outra lhe indicam o melhor caminho a seguir. A vontade torna assim o homem livre e ao mesmo tempo, responsável, porque é o senhor de si mesmo. A vontade é capaz de exercer uma grande influência sobre as operações do espírito porque pode impor uma direção á atividade intelectual e orientar em determinado sentido a corrente dos pensamentos. É ela que, na atenção voluntária, concentra toda a atividade psíquica no objeto que ocupa o foco central da consciência. Pelo seu esforço ainda, associamos e dissociamos ideias, facilitando á imaginação o seu trabalho criador. As nossas afeições e as nossas simpatias são moderadas pela vontade. Sem ela, fechamos os olho á razão e nos entregaríamos ás más paixões. Subir pacientemente a encosta pedregosa e íngreme da honestidade, ou travar, decididamente, na descida do vício, são ainda obras da vontade. A vontade tudo vence. Nos vários campos da atividade humana a vontade sempre, quase sempre, a inteligência ou a habilidade manual. Indivíduos, ás vezes pouco dotados intelectualmente, ocupam lugares que outros mais inteligentes, mas de vontade fraca, não conseguem dirigir. Operários pouco hábeis, mas perseverantes, ultrapassam muitas vezes outros mais engenhosos, mas fracos de vontade. A vontade é o maior de todos os poderes. Seu uso permanente é persistente, tenaz, proporciona ao homem o poder de vencer todos os obstáculos. Sua potência não tem limites. É a força espiritual por excelência, a própria essência da personalidade. Rui Barbosa já proferia: A incompetência é a mais preciosa das qualidade de administração, porque é a sócia natural da baixeza, do fanatismo, e da brutalidade.
    Gosto muito também desse pensamento, cujo autor é Augusto Cury: Jamais um ser-humano será um grande líder no teatro social se primeiramente não for um grande líder no teatro psíquico. Os ditadores não obedeceram a essa lei.
    Foram frágeis com o poder nas mãos.

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    Respostas
    1. Olá, Ana Claudia:
      Sua reflexão é muito sábia. Agradeço por acrescentar suas ideias ao tema.
      Um abraço cordial,
      Mauricio A Costa
      Editor do Blog.

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