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sábado, 29 de setembro de 2012

Inovação: Um Olhar Diferente





Por Maurício A Costa*


‎"É no mais profundo vazio que eu escuto o teu silêncio, e o transformo em palavras ou sons que te penetram sem que eu perceba a dimensão" ('Fragmentos do Mentor Virtual' - Campinas-SP)
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A reportagem de capa desta semana da Revista Exame, uma das mais importantes fontes de informação do mundo executivo local, abordou a baixa produtividade do trabalhador brasileiro comparada com padrões mundiais. Uma matéria excelente, preparada com riqueza de detalhes que demonstra o quanto estamos defasados em relação a outros países em avançado estado de eficiência. Todavia, quero provocar uma reflexão mais ampla sobre o tema. Não podemos nos deter sobre qualquer assunto empresarial sem analisar as questões culturais ou históricas que envolvem cada povo; nelas encontraremos a base ou explicação para muitas de nossas posturas. Como sabemos, a maior parte dos nossos comportamentos é ditada pela carga genética que carregamos resultante do arraigado hábito de nossos ancestrais, e de reflexos do ambiente em que fomos criados.

Em seu livro ‘Bandeirantes e Pioneiros, o quase desconhecido escritor brasileiro, Vianna Moog, constrói um formidável paralelo entre processos de colonização brasileira e americana, onde demonstra como um e outro povo, apesar de formados a partir da mesma raiz continental, a europeia, trouxeram costumes tão diversos. Enquanto que os Estados Unidos nasceram do ajuntamento de famílias que deixaram o velho mundo (Europa) em busca de uma nova pátria para ali se fixarem e viverem de maneira permanente, a nação brasileira foi construída a partir da miscigenação de culturas completamente diferentes, em sua maioria, de raças primitivas como as indígenas e as africanas, para as quais, o trabalho consistia unicamente no provento das necessidades diárias, em atividades de caça ou pesca, sem qualquer preocupação com a geração de reservas ou acúmulo de riqueza. Ao tempo em que o colonizador americano ao chegar ao seu Eldorado ia construindo escolas, igrejas e fóruns, para disseminar sua cultura, os que chegavam ao Brasil, traziam apenas o desejo de enriquecimento, para retornar a seus países de origem o mais rapidamente possível. Enquanto os ‘pioneiros’ americanos procuravam manter costumes e tradições de respeito e ética, os ‘bandeirantes’ do Brasil tomavam sem qualquer respeito as jovens mulheres locais, abandonando-as em seguida, com filhos gerados sem qualquer responsabilidade, criando uma legião de bastardos, sem um ponto de referência cultural, a não ser o desprezo pela lei e pela ordem, já que eram filhos da anarquia e da espoliação.

Certa vez, muito tempo atrás, numa visita em que tive o prazer e a honra de conhecer pessoalmente o ilustre sociólogo Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, em sua residência no bairro de Apipucos, em Recife, perguntei-lhe o que achava dessa loucura que chamamos de civilização brasileira. De maneira serena e um tanto humorada ele me respondeu: “Somos um povo ainda em formação, e levaremos muitos anos para consolidar uma cultura que possamos chamar de brasileira. Há uma mistura muito heterogênea de raças e de costumes. Temos alguns traços de comportamentos como a preguiça e certa passividade indígena, ao lado da subserviência e o lânguido comodismo oriundo da escravatura, que ainda demandarão tempo para serem absorvidos. O que vemos aí por enquanto é um grande ‘fuzuê’; um povo de alegria superficial por carregar o lamento da senzala, e o sentimento de desconfiança do índio, espoliado em sua própria terra”.

Com base nessas observações, me pergunto o que podemos esperar de um povo cujas origens trazem a languidez, a preguiça, e a passividade como elementos arraigados de sua formação? Como falar então em produtividade sem analisar essas origens? E acompanhando a polêmica postura do  Domenico de Masi em sua revolucionária insatisfação com a idolatria ao trabalho, em seu livro 'O Ócio Criativo', coloco um pouco mais de pimenta no assunto, questionando se essa condenável ineficiência brasileira estaria tão equivocada, levando em conta a velocidade alucinante dos dias atuais marcados pelo consumismo exacerbado. Afinal, vale a pena se matar por um punhado de bens questionáveis? Não seria essa forma do brasileiro levar a vida uma maneira mais equilibrada entre a insanidade da insatisfação desenfreada e uma almejada melhor qualidade de vida? O que representa para a saúde física e mental uma atuação mecânica e sem sentido de operações repetitivas por horas consecutivas se ao final corremos o risco de ver cidadãos estressados, que por sentirem-se robôs manipulados tornam-se potenciais suicidas, ou atiradores descontrolados contra seus próprios semelhantes, como vemos em alguns países ditos 'altamente produtivos', numa demonstração de loucura social generalizada? Do que estamos falando, ao nos referirmos à produtividade, quando transformarmos pacatos agricultores em catadores de lixo das favelas urbanas? ou quando desencantamos jovens ansiosos por experienciar uma vida saudável e os transformamos em feras indomáveis sedentos por marcas e bens que criam a ilusão de felicidade?

Afinal, o que seria essa tão decantada inovação contínua? Onde queremos chegar com a velocidade alucinante da mudança permanente? Como acompanhar a evolução do conhecimento e da geração de tecnologia diante da disparidade de culturas, e do não atendimento de necessidades básicas para uma maioria que vive à margem de qualquer conceito de cidadania? O que significa produtividade para o homem comum que luta para o sustento de sua prole sem qualquer esperança de melhoria, ao assistir indefeso seus líderes econômicos, sociais ou políticos desfilarem um luxo desvairado diante de seus olhos? Que tipo de sociedade estamos nós construindo, se a sua base está sustentada pelo faz-de-conta de ilusórias e enganosas fachadas? O que é inovação afinal? Perguntas complexas, ou questões incômodas para um minoritário grupo manipulador, marcado pela visão exclusivista da dominação?

Jovens Viciados em Crack
Inovação sem dúvida seria modificarmos nossa maneira de pensar a partir de uma análise dos princípios universais que regem a convivência humana dentro de padrões mínimos de respeito pelo outro, com a consciência de que somos uma unidade; isto é, parte de parte de algo maior, e não apenas individualidades autônomas, sem qualquer responsabilidade pelo coletivo. Inovação é sairmos da mesmice insuportável, das repetições de chavões e slogans da manipulação midiática subliminar que cria falsas necessidades, beleza artificial, falsa segurança, ou ridículas simulações de status. Inovação é construirmos um mundo voltado para o bem estar do ser humano, em seus aspectos básicos de alimentação, saúde e realização pessoal no tocante à sua potencialidade. Inovação é substituir quartéis por escolas, armas por livros, ostentação por agasalho, crack por pão. Inovação não é discurso fútil, mas ação política séria. Não deve ser objeto de mera enganação retórica, mas de um projeto lúcido, consciente e responsável de líderes comprometidos com a verdade. Inovação é o fruto das mudanças corajosas de postura, de quem abandona velhos hábitos e se propõe a modificar a própria história e do mundo ao seu redor, sem a mecha da hipocrisia dos arrependimentos superficiais. Inovação é encarar o novo com a determinação de quem acredita ser capaz de gerar transformações significativas à sua volta.

Não precisamos ser estadistas para compreender a urgência da inovação que necessitamos implementar em nossa sociedade. A mudança começa dentro de nós mesmos, no seio de nossas famílias, ou de nossas empresas, onde nossas posturas como líderes demonstrem reais intenções e não apenas razões superficiais recebidas com descrença por aqueles que supostamente pretendemos liderar. Inovar é romper com o velho, o paradigma, o tabu, o dogma e a rabugice do autoritarismo disfarçado de crenças primitivas que só levaram o ser humano a guerras, radicalismo e destruição. Seremos efetivamente produtivos quando despertarmos para o atraso social e não para a defasagem econômica; nossa dívida é na verdade, com o universo à nossa volta no tocante àquilo que nos distingue em relação a todos os demais seres: nosso conceito de humanidade; porque inovar é abandonar a fera de nossas origens para nos tornarmos seres superiores.







*Maurício A Costa foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. 

É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 


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4 comentários:

  1. Excelente o seu blog, Mauricio. Informativo, inteligente, bem escrito e ilustrado.

    Adoro encontrar espaços assim, de pessoas que tem a dizer alguma (ou muita) coisa além de, como acontece na maioria dos casos, falar de si mesmas.

    Beijos

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    Respostas
    1. Olá, Anga:
      Agradeço por suas palavras de estímulo.
      Sua companhia virtual é uma honra.
      Um abraço cordial,
      Mauricio A Costa
      Editor do Blog

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  2. MARAVILHOSOOOOOOO......

    Enquanto alguns,(me perdoe) mas 'alienados' ficam nos comparando com culturas de outras Nações.... Nos últimos meses, outros,(tão alienados quanto), estão aos berros nos 'palanques' e na 'mídia', cheios de sorrisos e "boas intenções".... Prometendo isso, aquilo e qualquer coisa... Mas não se houve falar realmente em 'inovação'.

    O Povo Brasileiro só irá sentir a força da 'inovação', no dia que se fizer uma 'inovação' daquela 'corja' que se dizem 'políticos'; que estão no poder e ocupando as cadeiras dos nossos governos. Colocando lá, pessoas realmente desinteressadas comprometidas em "fazer o bem" em prol da Nação, e não de seus 'bolsos'.

    Mauricio, se tu estivesses num 'palanque' com este 'discurso' e muitos outros que já vi por aqui.... Tu terias 10.000 votos meus! APLAUSOS!!!!

    Abçs. carinhosos Mauricio!

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    1. Olá, Amarílis:
      Inovação começa dentro de cada um de nós. Abandonar a futilidade é um grande desafio.
      Um abraço especial, agradecendo por sua participação.
      Mauricio A Costa


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