Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

sábado, 14 de julho de 2012

Moinhos de Vento





Por Maurício A Costa*

“Se nossa vida fosse dominada por uma busca da felicidade, talvez poucas atividades fossem tão reveladoras da dinâmica dessa demanda – em todo o seu ardor e seus paradoxos – como nossas viagens. Elas expressam – por mais que não falem – uma compreensão de como poderia ser a vida, fora das restrições do trabalho e da luta pela sobrevivência. No entanto, é raro que se considere que apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões que exijam reflexão além do nível prático”. (Alain de Botton, em ‘A Arte de Viajar’ – Editora Rocco – Rio de Janeiro).

_________________________


Uma fascinante leitura, capaz de produzir as mais variadas reações é sem dúvida, ‘O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha’, escrito por Miguel de Cervantes Saavedra, no século XVI, e publicado pela primeira vez em Madrid, no ano de 1605. Uma experiência inesquecível para aqueles que se realizam em ‘viajar’ através dos olhos de mentes iluminadas. E é desse livro que trago a inspiração para escrever este artigo, reproduzindo uma citação bem ao estilo do autor sobre o seu personagem: “Com efeito, foi ficando tão obcecado com essa leitura, que a ler passava as noites de claro em claro e os dias de turvo em turvo. E assim, o pouco dormir e o muito ler se lhe secaram de tal maneira o cérebro, que acabou por perder o juízo. Sua imaginação encheu-se até a borda com tudo aquilo que lia nos livros, tanto de feitiçarias, como de contendas, batalhas, desafios, ferimentos, requebros, amores, tormentas e disparates impossíveis; e de tal modo se lhe afigurou verdadeira toda a trama das sonhadas invenções que lia, que para ele não poderia haver no mundo histórias mais reais... Por fim, perdido o resto do juízo que ainda conservava, ocorreu-lhe o mais estranho pensamento que jamais passara pela cabeça de outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário, tanto para o engrandecimento de sua honra como para o proveito da república, fazer-se cavaleiro andante, e sair pelo mundo com armas e cavalo, em busca de aventuras, e a exercitar-se em tudo o que havia lido acerca das práticas dos cavaleiros andantes, desfazendo todo gênero de agravos, enfrentando agruras e perigos, a fim de que, vencendo, pudesse granjear fama e nome eternos... E assim, com esses tão agradáveis pensamentos, impelido pelo estranho gosto que neles sentia, deu-se pressa em concretizar seu intento”.

Ao longo dos anos, Dom Quixote tem sido usado como referência para os mais diversos estilos do comportamento humano. Em certas ocasiões, ele é um tolo sonhador, em outras, um idealista que se entrega à busca obcecada daquilo que acredita; há momentos em que é visto como alguém movido por valores que lhe são caros, e outros em que sua visão não é mais que um punhado de loucura, motivada pela utopia das tantas histórias que leu. É essa aparente insanidade, que faz desse personagem a mais humana de todas as criaturas. Um retrato fiel de um ser com todas as idiossincrasias, de seus comportamentos peculiares, movido pela força da alma que carrega dentro de si, e da qual jamais poderá fugir. Um autêntico cavaleiro andante, perdido entre ilusões construídas ao longo de milhões de anos através de gerações, presentes em cada mínima célula a formar seu corpo. Mais que um cavaleiro andante, eu diria, um cavaleiro errante; porque em meio à ilusão, criada pela multiplicidade de eventos não previstos, e reações das mais imprevisíveis, quase não há chances de acertos, porque a mudança é a única constante, em um ambiente que se transforma a cada minuto. Vida e morte numa sequência ininterrupta, a produzir cenários inusitados, diante dos quais, haverá sempre uma nova maneira de abordagem e de interpretação.

Vivemos cercados das mais excêntricas criaturas; muitas delas, amedrontadas e inseguras em relação ao futuro. Outras, insatisfeitas ou decepcionadas com aquilo que realizaram, tornam-se amargas, e às vezes ferozes. Constrangidos, assistimos os mais vergonhosos dramas familiares e empresariais a revelar a verdadeira personalidade de seus personagens, em que o dinheiro e o poder estão acima de qualquer valor. Relacionamentos destruídos pela falsidade recíproca, onde a mentira flui como a única verdade em que todos acreditam. E assim, a cada dia vamos conhecendo seres humanos, cujo comportamento surpreende. Uns, pela imprevisibilidade de suas reações, outros pela indiferença que demonstram em relação a valores. Muitos, na verdade, agindo motivados unicamente pela materialidade. Alguns transformando suas jornadas numa batalha sem tréguas por quimeras que jamais preencherão suas vidas, por se tratar de ilusões construídas pela vaidade pessoal; outros, alienados em relação a si mesmos, entregues a álcool, ou outros tipos de drogas, sem a mínima noção do que são, ou de para onde possam estar indo. Pretensos cavaleiros errantes de uma batalha sem méritos, porque, onde não há valores, não existe significado, mas apenas um falso idealismo, que não resiste ao mínimo questionamento existencial. Marionetes de uma história que eles mesmos criam, onde a cena final será humilhantemente solitária e decadente, marcada pela tristeza e a depressão, pelos simples fato de haverem construído castelos sobre areia, em um mundo irreal de pura fantasia.

Há múltiplos papéis para o Dom Quixote em cada um de nós, porque assumimos múltiplas ‘personas’ ao longo da caminhada. Há certos momentos, no entanto, em que abrimos mão de todo idealismo por deixarmos de acreditar no outro ao nosso lado. Nossos líderes são meros fantoches de um sistema que destrói qualquer ideal. Nossos empresários não passam de apologistas de um engodo por muitos desacreditado. Nossas igrejas estão conduzidas por falsos profetas, caiados por fora e podres por dentro. Nossas relações não sobrevivem ao mínimo teste de confiança e solidariedade. Há um generalizado ‘faz de conta’ a revelar moinhos de vento de uma ilusão que aos poucos vai definhando nossas forças, onde já não acreditamos naquilo que vemos; a sabedoria vai sendo substituída pela esperteza, e o sábio é tido como um tolo.

Sem um Sancho Pança para nos mostrar a realidade, nossa percepção pode ser afetada para sempre, e nos fazer mergulhar em um pandemônio irreversível, em que nos acostumamos àquilo que vemos, sem esboçar qualquer reação diferente, e assim nos tornamos zumbis; mortos-vivos de uma lenda que escrevemos sem a mínima noção do nosso potencial. A tomada de consciência para a qual ousamos despertar é a imagem metafórica do Sancho Pança que carregamos dentro de nós. Ele é feio, desengonçado e nada atraente, mas é o que nos coloca em sintonia com o que temos de mais sagrado, o ponto de convergência dos opostos entre ilusão e realidade, entre o medo e a ousadia, entre o impossível e a magnitude do nosso potencial. Nos momentos de desafio, o sonho e a realidade precisam caminhar juntos. A cabeça nas nuvens e os pés no chão. Ousadia e bom senso. “A vida nos ensina que é preciso coragem para enfrentar aquilo que nos desafia. Antes, porém, é decisivo ter consciência do potencial e das próprias limitações. Conhecer o nível de controle que temos sobre nós mesmos, e identificar o que nos deixa vulneráveis é o que define nosso poder verdadeiro”. (‘O Mentor Virtual II’ – O Elo Invisível – Campinas-SP)
____________________________


*Maurício A Costa é Pensador e Estrategista; ou numa linguagem atual, um ‘Design Thinker’. Foi Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Está disponível para participar (vinculado a resultados) de empreendimentos que estejam em busca da excelência de gestão, e interessadas em aprimorar seu pensamento estratégico para alavancagem de receitas e rentabilidade.
É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.



___________________________

Um comentário:

  1. Continue falando meu Sancho Pança rsrs
    Meg

    ResponderExcluir

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.