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sábado, 5 de maio de 2012

Circunstâncias. A Força do Imprevisível






Por Maurício A Costa*


"Sou a soma de todos os meus erros e acertos. Sou a síntese de todas as minhas sensações. Alheio a trilhas dos mais secretos desejos, sou a ilusão de um tênue por de sol que lentamente se esvai" ('O Mentor Virtual II' - O Elo Invisível – Campinas-SP)

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Recebi recentemente uma mensagem singular de uma leitora assídua dos meus textos e artigos, que me fez refletir de maneira profunda por algumas horas sobre a evolução da minha vida, especialmente no que diz respeito àquelas escolhas que produzem enormes impactos na jornada. Em meio aos seus elogios, entre eles a forma transparente como eu escrevo, algumas perguntas diretas: ‘Você sempre foi do tipo certinho em tudo o que fez, ou o que você é hoje é apenas o resultado de todas as suas experiências?’...  ‘Você acredita em destino?’... Se arrepende das coisas que já fez?.. Afinal, você existe, ou é uma ficção?

Confesso que a princípio, essa última pergunta me deixou perplexo, e por isso, comecei a me perguntar: Será que eu existo realmente, ou sou apenas uma ficção? Para minha surpresa, descobri que realmente não existo. Sou simplesmente, por frações de segundos, um acidente de percurso em meio a trilhões de acontecimentos que se desdobram simultaneamente no universo de todas as coisas; tal qual inseto gerado por uma larva qualquer, a flutuar ao sabor de complexas adversidades, sem noção daquilo que é, ou para onde vai, buscando unicamente sua efêmera sobrevivência, e sobre a qual não tem o mínimo controle, pois poderá ser esmagado a qualquer momento, levado por uma enxurrada imprevista, ou simplesmente eletrocutado por uma armadilha eventual e desconhecida. Na verdade, sequer posso dizer que ‘sou’ qualquer coisa, mas que apenas ‘estou’, pois a brevidade é tamanha, que não me permite a arrogância de dizer que sou, já que, mesmo antes de terminar o pensamento posso já nem existir mais. Por essa razão, hoje eu prefiro pensar que não existo, mas por um rápido momento de consciência, dizer que me invento e me recrio, a cada segundo, construindo uma autêntica ficção, a criar uma ilusão momentânea aos olhos de um expectador qualquer que me observa como algo totalmente diverso daquilo que possa parecer.

Edmund Husserl
Ora, se me modifico a cada segundo, tentando adaptar-me ao ambiente que me cerca como posso concluir-me como algo definitivo, perene ou imutável? Como ter a pretensão de me auto afirmar um ‘ser’, se apenas ‘estou’? E se apenas ‘estou’, como afirmar que ‘sou’ isso ou aquilo. Mais ainda, como afirmar que sempre fomos assim ou assado, se a cada momento nos transmutamos em algo novo, em decorrência da constante adaptação ao novo? Agi de determinada maneira porque o ambiente induziu, ou fui movido por pensamentos de egoísmo, ou ainda, por posturas alheias que motivaram tal atitude? Fiz isso ou aquilo por índole ou por mera curiosidade? Tomei essa ou aquela iniciativa com plena consciência da ação, ou atuei movido por instintos irrefreáveis? Cada momento é uma encruzilhada que pode nos levar a caminhos totalmente diferentes daqueles que imaginávamos a um segundo atrás. Somos alvos, (tal como aquele inseto ao qual me referi) da ação do imponderável, e podemos ser arrastados por inúmeras possibilidades que se desdobram ao longo da imprevisível jornada, ao mesmo tempo em que muito poderá resultar das nossas reações diante desses acontecimentos. Como ensina o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), ‘é imperativo suspender todo juízo diante da impossibilidade de se chegar a qualquer certeza’; isto é, não podemos emitir julgamentos apressados, com base exclusivamente na nossa percepção temporal. Cada situação é um ‘fenômeno’ específico que carece ser avaliado em particular e não pode conceituar algo como definitivo.

Assisti alguns dias atrás, a um interessante filme chamado ‘Os Agentes do Destino’, o qual, aborda numa intrigante ficção, o polêmico efeito do ‘destino’ e do ‘livre-arbítrio’, presentes em cada etapa do caminho, ao mesmo tempo em que mostra os possíveis desdobramentos de nossas atitudes racionais ou emocionais diante das escolhas que operamos consciente ou inconscientemente. Não podemos afirmar que somos resultado exclusivamente de algo chamado 'destino', da mesma forma que não somos fruto unicamente de nossas decisões. O destino pode ser parcialmente desenhado a partir de nossa carga genética ou ancestralidade, mas as nossas escolhas diárias podem modificar esse traçado, de forma consciente ou não. É o ambiente, no entanto, a meu ver, que exerce a maior parte da influência nesse processo, e é ele que interfere de maneira imprevisível em cada decisão. Um simples telefonema pode alterar rumos para sempre. Um inesperado encontro pode produzir alterações significativas para uma vida. Por isso, rotular alguém, um momento, ou uma situação me parece no mínimo  insensatez ou precipitação. É imperativo o beneplácito da dúvida antes de cada julgamento.

Alguma das escolhas que procedemos no passado, provavelmente não as repetiríamos hoje, pelo fato de dispor de mais informações que dispúnhamos à época daquela decisão. Quando fazemos uma escolha, o ambiente, as motivações, os instintos e as emoções interferem sobremaneira nesse momento, e, portanto, não devem necessariamente servir de rótulo a alguém para sempre, como 'isso ou aquilo', muito embora, essa postura nos pareça uma constante entre os seres humanos. Pior que isso, alguns não apenas rotulam o outro, mas o fazem de maneira constrangedora, maquiavélica e impiedosa, tornando-se algozes de seus próprios semelhantes por razões mesquinhas; insensíveis a quaisquer consequências que isso produzirá, e principalmente, sem pensar nos efeitos catastróficos sobre si mesmo que poderão resultar.

David Hume
Por tudo isso, costumo dizer que vivemos em um ambiente completamente caótico, onde é impossível prever o próximo minuto, o próximo evento, ou a etapa seguinte da jornada. Somos vulneráveis até mesmo aos efeitos de nossos pensamentos e palavras. Como sussurra o meu guru pessoal: "Cada pensamento é um milagre que resulta da nossa extraordinária percepção; cada palavra, uma semente que conscientemente depositamos no ventre do universo. Em nossas mãos, o poder da co-criação que nos torna deuses ou demônios" ('Fragmentos do Mentor Virtual' - Campinas-SP - Campinas-SP). Contudo, como aprendemos, ‘o princípio basilar de todo pensamento é o de causa-efeito, uma vez que determinados eventos podem ser previstos como consequência necessária das causas que os produziram’; ou seja, parte disso que chamamos de ‘caos’ pode ser relativamente antecipado se analisarmos o princípio ação-reação, ou simplesmente causa-efeito; embora David Hume, filósofo do Século XVII nos lembre que, em vista de todos os raciocínios que dizem respeito à causa-efeito estarem baseados na experiência, não ser possível supor que o curso da natureza permaneça uniforme. Assim, nem sempre é possível prever que toda e qualquer ação do presente possa necessariamente afetar de forma direta algo no futuro. E por conta disso, voltamos mais uma vez à imprevisibilidade e ao princípio do 'caos'.

De acordo com o pensamento quântico, uma determinada ideia não isola ou elimina outra. A percepção é só parte de um conjunto. Não deve ser tomada de forma exclusiva ou isolada. O conhecimento faz parte de um ‘sentir’, ou um ‘captar’ de sensações exteriores, mas é também, fruto do processamento interior, marcado por um significativo acúmulo de informações contemporâneas, e ao mesmo tempo, resultante da genética que herdamos de nossos ancestrais; o que irá produzir novas ideias, novos conceitos, e novas verdades relativas aos fatos observados, nos fazendo renascer a cada dia um ‘ser’ diferente, o que nos levar a afirmar que, não existem valores absolutos, mas tão somente aqueles que se adaptam a novos contextos.

Assim, quando questionado sobre o ‘destino’ não o afirmo como algo compulsório e imperativo em nossas vidas, embora não subestime seus efeitos em nossas ações e decisões diárias, tampouco credito todo sucesso ou insucesso às nossas escolhas por conta do livre arbítrio, por saber o quanto o ambiente que nos cerca pode interferir nessas escolhas. Somos, a meu ver, imprevisivelmente suscetíveis à circunstâncias que se sucedem à nossa volta, e sobre às quais nada podemos fazer. Como já foi dito, um simples bater de asas de uma borboleta na Amazônia pode desencadear imprevisíveis consequências do outro lado do mundo. Resta-nos apenas a imensa vulnerabilidade, que nos sujeita invariavelmente à sorte ou ausência dela. O destino será apenas um lugar imaginário que poderá nos servir como referência. Nada além disso.

A construção de uma marca forte não depende exclusivamente de um rígido planejamento, sob o prisma do causa-efeito indefinidamente, porque nada é tão previsível assim, mas uma coisa é verdade, devemos estar atento a cada pensamento, cada palavra, cada gesto e cada manifestação à nossa volta, conscientes de que tudo isso junto estará influindo decisivamente no caminho. "Nossa história é formada por decisões inspiradas em cada pequeno detalhe do caminho. Não há erros nem acertos, apenas escolhas possíveis, porque viver é uma ópera ao vivo e sem ensaios, diante de múltiplas possibilidades. Em meio ao caos vamos alinhavando o nosso destino". ('O Mentor Virtual II' - O Elo Invisível – Campinas-SP – Em Gestação). 

Quanto a me arrepender das coisas que fiz... Eu diria como Edith Piaf... 'Non, Je ne regret rien'... Simplesmente porque a cada dia, nasce uma nova oportunidade de sermos melhores do que fomos antes...

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*Maurício A Costa foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida.

É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.

2 comentários:

  1. Maurício : quando fiz um curso de Filosofia, me lembro que passamos 6 meses discutindo esta questão : " O que é o Ser? " .Depois de todo este tempo, chegamos a esta conclusão : " Ser, é tudo o que é !!!!" Daí partimos para o próximo debate : "Se SER é tudo o que É, o " Não Ser ", É ???"
    Como vê, não é fácil definir o que, ou quem somos...Até hoje estou procurando me definir : Sou SER, ou sou um NÃO SER ????????

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  2. Gostei muito do texto, não conhecia seu blog ainda, está ótimo! bjos

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