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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Labirintos





Por Maurício A Costa*


“Enquanto parte de mim se porta como herói, a outra não sabe o que faz. Metade age com sabedoria; a outra como tola se revela. Uma, parece segura; a outra é a própria incerteza. Assim, viajando em meio ao caos, me perco entre mundos que não conheço, flutuando ao sabor do imponderável, sem me dar conta de que a realidade que percebo não passa de mera abstração, a gerar as mais esdrúxulas expectativas”. (‘O Mentor Virtual II – O Elo Invisível – Campinas-SP – Livro em Gestação).

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Ultimamente, não sei se pelo efeito do tempo, ou se por conhecer a cada dia um pouco mais o ser humano que me cerca, me dou conta dos complexos labirintos que percorremos entre paredes, às vezes translúcidas, mas na maioria, tremendamente opacas; e como essa percepção nos faz sentir a incômoda sensação de impotência frente ao mais ínfimo desafio. Atuamos como se conhecêssemos o outro, quando na verdade, estamos sempre diante de algo desconhecido, por não termos a mínima noção do grau de confiabilidade ou de intenção do nosso interlocutor. Agimos como se tivéssemos controle sobre o ambiente à nossa volta, ingenuamente ignorando que, na verdade, estamos sendo conduzido pela história, resultante de milhões de informações que desconhecemos.

Por sermos vítimas e ao mesmo tempo algozes da falácia coletiva, o raciocínio falso que simula a veracidade, e caracteriza a maior parte dos relacionamentos humanos na atualidade, nos tornamos eternos desconfiados em relação ao outro, escutando-o sempre com ‘um pé atrás’, tentando ler ‘as entrelinhas’ do que é expresso, para captar o mínimo sinal de camuflagem. Abandonamos a crença espontânea no outro para nos tornarmos um bando de céticos em relação a tudo. E assim, a lei da sobrevivência em um mundo altamente competitivo aos poucos nos transforma em ferozes predadores da própria espécie, sem qualquer pudor ou noção de limites.

Nascemos puros, acreditando em tudo que nos é ensinado, sem perceber que na maioria das vezes somos alvo de uma descarada hipocrisia dos adultos, o que nos leva a agir na adolescência com impetuosidade, idealismo e coragem, dispostos a lutar contra todo tipo de sistema que encontrarmos pela frente, seja ele uma família, uma empresa, ou um país, por não acreditarmos nessas instituições corrompidas pela mentira e a falsidade, a esconder maquiavélicas atitudes que embutem traição, enganação e uma desenfreada sede pelo poder e dominação, que vai além do conceito de sobrevivência para ultrapassar todos os limites de civilidade e bom senso. Entretanto, descobrimos já nos primeiros empregos ou ambiente de convivência empresarial que se não aprendermos rápido a agir como aves de rapina seremos considerados ingênuos ou tolos pela matilha a qual pertencemos. E assim, nos transformamos rapidamente em aprendizes de feiticeiros, corrompendo tudo que encontrarmos pela frente; do guarda de trânsito ao garçom; do fiscal de rendas ao político, na ânsia pela ‘lei da vantagem’.

No âmbito das relações familiares, ao longo de milhares de anos, nós os homens, tratamos com desdém nossas mulheres, usando a supremacia da força e o subterfúgio da enganação, tratando-as como seres inferiores. Por essa razão, não deveríamos nos mostrar surpresos ao vê-las romper a casca da submissão e do sentimento de inferioridade para se colocar lado-a-lado com aquele que se disponha a acompanha-las como parceiro. Ao contrário, porém, como reação a essa mudança, assistimos ‘perplexos’, uma significativa redução do nível da confiança e diálogo que exige qualquer relacionamento. Sonhos convertem-se em pesadelos, transformando parceiros em inimigos mortais, de maneira quase sempre irreversível. Como resultado, mais e mais labirintos vão sendo construídos à nossa volta, a esvaziar todas as esperanças.

Ao olhar no retrovisor do tempo, observo consternado que não evoluímos como seres humanos em direção à unidade, ensinada pela sabedoria; ao contrário, estamos caminhando a passos largos em direção ao perigoso ambiente de ferrenha competição e individualismo que se agiganta nos tempos atuais com o crescimento dos relacionamentos virtuais, onde os traços de confiabilidade tendem a se tornar críticos e excessivamente vulneráveis. Essa constatação, lamentavelmente, me produz um enorme ceticismo com relação aos valores apregoados por muitas organizações, marcadas pelo falso brilho das aparências; quer seja um pequeno agrupamento familiar ou um mega empreendimento corporativo, pelo simples fato de que não acredito em construções erguidas sobre bases não confiáveis.

Quando me flagro questionando coisas desse tipo, me lembro de um desenho animado chamado ‘Rango’, que assisti muito tempo atrás, onde o personagem tem o seguinte diálogo com o ‘Espírito do Oeste’: - “O que você faz aqui? - Procurando. Como você. – Responde ele.-  Nem lembro mais o que procuro. Nem mesmo lembro quem eu sou. Não lhe chamavam de homem sem nome?- Hoje em dia eles têm um nome pra tudo. Não importa como chamam você. São as ações que fazem um homem. - Minhas ações tornam tudo pior. Sou uma fraude. Um falso. Meus amigos acreditavam em mim, mas eles precisam de um herói. - Então seja um herói! - Não, você não entende. Eu nem deveria estar aqui. - Está certo. Veio de longe procurando algo que não está aqui. Você não entende? Não é sobre você. É sobre eles. (...) Nenhum homem pode fugir da sua própria história. 

Assim, como não tenciono me tornar herói, sinto-me deslocado em meio ao ambiente superficial que vai tomando conta de muitas organizações, ao mesmo tempo em que me questiono sobre o sonho que trago da adolescência de construir um mundo melhor; e me pergunto se seria isso ousadia, tolice, ou utopia? Seria o que sonhei apenas algo inconsistente que se esvai com o tempo, ou teria a própria vida matado o sonho? Valerá a pena seguir lutando por um ideal como um tolo cavaleiro andante, ou será melhor aprender a nova forma de uivar da matilha? Ao final da história de cada um de nós, descobriremos todos que não passamos de um bando de 'misérables', perdidos em labirintos, e marcados pela desilusão gerada por falsas expectativas.
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"Vagando por escuros labirintos, me perco a procura de algo que não sei definir. Nem ao menos sei quem sou; tampouco para onde vou. Sem a mínima noção do que é realidade viajo insanamente perdida em meio a ilusão, tentando descobrir o que me realiza. Imersa na carência de todas as almas solitárias sigo sem rumo na busca daquilo que me complementa". ('O Mentor Virtual II' - O Elo Invisível – Campinas-SP)
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*Mauricio A Costa, É estrategista para projetos de ‘alavancagem’ de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, para atuar como Executivo, Assessor, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, para grupos, associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.






5 comentários:

  1. Amei o texto e o achei muito profundo e muito questionador... apesar de tudo que estamos vivenciando nestes tempos atuais, tenho presente em meu coração a esperança de que dias melhores virão... a crença na utopia se faz necessária... devemos sempre acreditar na tendência construtiva do ser humano (um dos pontos chave do Alô Vida)... de vez em quando surgirão decepções mas o importante é não nos deixar abater e procurar seguir em frente... bjos no coração, caríssimo amigo Maurício...

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  2. " Palavras são como sementes jogadas ao vento. Nunca se sabe os efeitos que elas produzirão."

    Estamos sempre buscando nas 'palavras', uma forma de dizer, o que nos toca a alma... Mas, são PALAVRAS! Como diz, o velho jargão: - "Palavras, são flechas lançadas...." - Depois, de proferidas; já não nos pertencem mais! São pássaros livres... Cabe-nos, apenas dar-lhes assas... Em alguma alma... há de pousar....

    Abçs. carinhosos, Mauricio!

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  3. é...Maurício, vivemos o tempo todo com esse cuidado com o outro, até nos acostumamos a tentar filtrar oque ouvimos e / ou lemos, hora para "retirar" a aparente maldade das pessoas, que muitas vezes é ignorância e fraqueza, hora para nos protegermos dos "lobos" mesmo, e assim viver fica tenso e falso, por mas que queira - se negar, é uma realidade.
    Lembro - me que no trabalho em pesquisa clínica internacional em Hospital Público, ou seja, sobrava material de ponta,pois quem patrocinava eram as industrias farmaceuticas estrangeiras, então eu doava muito material que sobrava para o laboratório desse hospital, e sabe o que eu ouvi como gratidão? o que voce esta querendo para nos doar tanto material caro assim...não preciso nem comentar não é? abraço. Simone.

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  4. Já diria Sri Sri Ravi Shankar (Mestre indiano): "A expectativa tira a felicidade da vida". E isso é o que todos os D.Quixotes ainda não aprenderam na vida que idealizar tudo não é a solução. Os "quixotescos" vivem a lutar contra todos os moinhos e ventos porque são as melhores pessoas do mundo, não portam consigo a maldade e somente um ideal na sua algibeira. Esses idealizam o trabalho perfeito, a relação perfeita, o trabalho perfeito e continuam cavaleiros andantes ao lado dos seu fieis "Sanchos Panzas".

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  5. Marilene Grablerabril 19, 2012

    Texto realmente questionável, Maurício.
    Estou do lado daqueles que acreditam no outro e que esse planeta, apesar de tudo, tende a melhorar.
    Muitos estão correndo para o nada, desesperançados.
    Outros estão indo de encontro ao rumo certo, ao caminho que conduz à consciência e à luz.
    Abraços.Marilene

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