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sábado, 21 de abril de 2012

Dunas e Falésias





Por Maurício A Costa*

"A paz interior é um estado de espírito resultante da harmonia consigo mesmo. Mente e alma sintonizadas em um propósito único, construindo poderosa sinergia capaz de superar qualquer obstáculo. É a essência do ser, a fluir de forma sincronizada com o mundo exterior, refletindo a incomparável quietude da unidade" ('O Mentor Virtual' - O Elo Invisível – Campinas-SP - Em gestação).
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Era um final de semana comum, de um ano qualquer, da década de 1990, e eu vagava por uma das mais belas praias do litoral cearense, no trecho entre Marjorlândia e Canoa Quebrada, no município de Aracati, tentando relaxar da enorme tensão resultante da pressão que envolvia o projeto que eu dirigia na época, atuando como Diretor no Grupo Grendene, onde era responsável pela relocalização da Vulcabrás, uma empresa com mais de quatro mil funcionários, com sede na cidade de Jundiaí (SP), e que havíamos decidido transferir para a região nordeste do país. Deslumbrado com a beleza do local, e envolvido por sua indescritível quietude, não percebi que houvera caminhado mais de seis quilômetros sob um sol escaldante, que nasce antes da cinco horas da manhã, e por volta das nove, brilha e arde como se fosse meio-dia. Já ‘bronzeado’ como um peixe frito, sob o efeito de um calor quase imperceptível, devido à brisa marinha, sentei-me embaixo de uma das tendas armadas à beira mar, para alguns momentos de relaxamento e descontração. Como havia pouquíssima gente no local, o próprio ‘dono’ do pequeno empreendimento sentou-se ao meu lado sem muitas cerimônias para me fazer companhia em um bate-papo descontraído e inusitado.

Comecei a falar empolgadamente sobre a magnitude daquele lugar e a energia que ele me passava em todos os aspectos, destacando a beleza agreste das dunas e falésias do local, a produzir uma visão extraordinária e única; e ao mesmo tempo em que falava, dava-me conta da paz transmitida pelo silêncio quase sagrado do ambiente, onde era possível ouvir a passagem de um vento preguiçoso, e escutar em detalhe cada rebentação do mar sobre areias reluzentes, a se desfazer em borbulhantes espumas que se dissipavam suavemente. Inconsciente, e de forma gradual, me desfazia da energia negativa que circunda o ambiente empresarial com todas as suas mazelas, onde seres humanos se comportam como animais primitivos, em luta sangrenta por espaço e poder, em meio a atitudes mesquinhas, onde o ‘vale-tudo’ disfarça a engenhosidade de instintos predadores, a revelar o comportamento daquilo que chamamos de ‘humanos’.

Minutos depois, após uma boa ‘refrescada’ nas águas mornas de um mar verde-sereno, me deliciava com uma incomparável ‘caipirinha’ feita com Ypióca, a cachaça nativa do Ceará, e muito limão, acompanhada de um ‘pargo frito’, preparado sem qualquer protocolo ou receita especial, enquanto escutava meu anfitrião contar suas histórias, num desabafo por horas a fio, digno de qualquer sessão de terapia intensiva. Meu novo ‘amigo’ falava como se houvesse esperado por aquele momento há anos. Citava nomes e empresas sem o mínimo pudor, exibindo uma visível decepção com os seres humanos que profissionalmente haviam cruzado seu caminho e os tratava como se fossem alienígenas de um planeta distante, com os quais jamais gostaria de volta a cruzar. Vou chama-lo aqui de Antonio, a fim de preservar sua identidade original e desvincular a narrativa de qualquer eventual conexão com a realidade do complicado e movediço mundo corporativo.

Seria impossível escrever sobre todos os ‘desabafos’ do Antonio nas poucas linhas de um artigo, especialmente para leitores que não gostam muito de ‘perder tempo’ com o que consideram ‘baboseiras’, uma vez que a maioria está absorvida por coisas muito importantes, inadiáveis e urgentes. Por essa razão, irei resumir apenas seu último relato, e que o fez abandonar tudo para ‘esconder-se’ naquele lugar, que para muitos é um ‘fim-de-mundo’.

Antonio havia trabalhado para uma grande corporação, que segundo ele, estava entremeada por um grupo de pessoas extremamente astuciosas, que havia durante anos ‘depenado’ a empresa através dos mais audaciosos ‘esquemas’, que iam da área de compras, ao setor de finanças, passando por vendas e logística. Uma teia montada por executivos de vários níveis, disfarçados sob a pele de competentes profissionais em suas respectivas áreas, combinados entre si, visando o interesse pessoal. Quando começou a perceber o terreno que estava pisando, se deu conta das muitas armadilhas montadas para ele, em ambientes que iam de almoços fora da empresa a churrascadas de final de semana, onde a sutileza das insinuações escondia as verdadeiras intenções por trás de cada diálogo ou manobra. Ao evitar envolver-se com a ‘turma’, passou a ser tratado de forma ostensiva, e em algumas situações, com ameaças veladas. Os olhos de Antonio enchiam-se de lágrimas enquanto falava das seguidas decepções com pessoas com quem convivia. Apesar de tudo, ele demonstrava gostar muito daquela empresa, pela forma carinhosa como falava dela e de seus líderes. Dizia, de maneira entusiasmada, que jamais trabalhara numa empresa como aquela, e que se sentia realizado com o que fazia. Todavia, aquele ambiente à sua volta o desmotivava demasiadamente, até que certo dia, movido por um impulso emocional, foi até a sala do ‘Manda-Chuva’, abriu o verbo a falar o que pensava daquela gente, e pediu em caráter irrevogável para ir embora, segundo ele, ‘moído por dentro’, como quem abandona aquilo que mais ama.

Em decorrência de sua indesejada decisão, Antonio entrou numa profunda depressão, e fechou-se em si mesmo. Ignorando os apelos de amigos e família, mergulhou em mundo escuro, povoado por amargos pensamentos e destrutivos sentimentos de derrota. Parado à minha frente, engoliu de uma só vez uma taça de cachaça pura, e me fitando agora com olhos avermelhados, numa clara expressão de frustração, dizia: “Amigo, eu estou aqui fugindo de tudo e de todos. Fui ridicularizado pelos que me rodeavam e que me chamavam de ‘tonto’, entre outras coisas, por querer ‘nadar contra a maré. Por isso, joguei tudo para o alto e saí mundo afora procurando por um lugar onde eu pudesse avaliar com mais calma meus próprios valores. Não sei dizer se viajei do céu ao inferno ou do inferno ao céu, mas estou cada dia mais convencido de que o ser humano é o mais selvagem de todos os animais da terra, por isso quero ficar longe de suas cavernas corporativas, pois ali é cobra engolindo cobra”, finalizou ele com um tom de sarcasmo, e um sorriso maroto na expressão aliviada de quem já não acredita em falácia.

Quando ele terminou de falar, comentei com certa tristeza no coração e um ar meio desolado: “Sabe, Antonio, já passei por tudo isso, e vivi em ambientes dos mais inóspitos; Descobri, que enquanto somos lobos precisamos saber conviver com a matilha e agir como eles; quando, porém, nos tornamos leves como pássaros, tudo o que necessitamos é aprender a voar sem medo. Não há certo ou errado nas posturas de quem quer que seja; há apenas um preço a pagar por cada decisão que se toma. Voar significa estar acima do céu ou do inferno, e apreciá-los à distância, por saber que o sucesso e o fracasso, não passam de meras alegorias para designar estágios criados pela mente ao longo da viagem. Sou executivo de um grande grupo, vivenciando tudo o que você experimentou, no entanto, não vou medir forças com o mundo à minha volta. Quando não me alinho com o ambiente que me cerca, decolo suavemente para outras paragens e deixo-me levar pelos ventos da esperança, consciente de que nada neste mundo é definitivo”.

Quando terminei de falar, Antonio estava chorando. Sentado ao meu lado, em um pequeno ‘banquinho’, naquela desajeitada mesa, ele parecia envolvido por uma serena reflexão, como se mergulhasse no profundo oceano que havia dentro de si mesmo, mil vezes maior que aquele ‘marzão’ à nossa frente. Senti por instantes que ele desejaria ser o executivo que eu representava naquele momento, ao mesmo tempo em que desejei fortemente largar tudo para trás e montar uma pousada, um boteco ou qualquer coisa parecida naquele paraíso terrestre e nunca mais ser parte de uma ópera cujo final é quase sempre patético.

Voltei caminhando naquela tarde, por uma praia magnificamente deserta, sem avistar uma única alma viva, pensando em como, sem perceber, vamos desenhando nossa história por meio de pensamentos e gestos sobre as quais nem sempre teremos controle, pois não podemos represar pensamentos, tampouco, conhecer ou prevê as transformações causadas pelas palavras resultantes desses pensamentos. Em meio a mais completa solidão, senti que não estava simplesmente a caminhar, mas a voar sobre dunas e falésias com o espírito livre de quem está além do céu e o inferno de todas as mediocridades. E enquanto lembrava aquele amigo que não voltaria mais a reencontrar, cantarolava baixinho a música ‘Quem Me Levará Sou Eu’, do mais poeta de todos os cearenses, o insuperável Raimundo Fagner, deixando para trás marcas que iam sendo apagadas por borbulhas de um tempo inexorável que não retornará jamais.

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*Mauricio A Costa, é Estrategista. Sócio Fundador da SUPPORT BRANDS, empresa de projetos e assessoria para alavancagem de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, sob consulta, para atuar como Executivo, Estrategista, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual, organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, sob consulta, para associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.

2 comentários:

  1. É Canoa Quebrada me deixou tão impressionada como a voce;Época em que ainda casada com meu falecido marido, fomos em lua de mel em 85. Aquilo ali é um poço de energia,ali desnudei meu corpo e espírito em comunhão total com a água sem a menor pretensão de uma outra coisa. Ali desvenciliamos de todas as hipocrisias do mundo de cá, nunca mais esqueci essa passagem. A paisagem me remetia a pura reflexão da vida, se matilha agimos feito lobos; se pássaros voamos como pássaros, é certo; Mas, se ovelhas...sempre ovelhas.Lá em meditação tive um pressentimento com meu marido, jovem empresário, que pouco mais se confirmaria e ele faleceria. O que importa é que as lembranças que guardo de lá são as mais belas de toda minha vida, e assim eu sou feliz!

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  2. Apenas para dizer, Maurício, que conseguiu levar-me até esse Paraíso...Agradecer o quanto suas PALAVRAS me fazem bem...e buscar em mim a FORÇA necessária para voar ou caminhar, consoante o Momento me exigir...Um ABRAÇO imenso de além mar, onde sua energia chega na plenitude das suas vivências, que transmite de uma forma soberba...Bem haja, Amigo, por SER e não se cansar de nos dar a mão...

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