Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O Desafio de Navegar no Caos




Por Maurício A Costa*

"Viajamos em busca de certezas sem perceber que é no vazio absoluto que voamos" (Fragmentos do Mentor Virtual Campinas-SP).


Como meu hobby durante muitos anos foi pilotar pequenos aviões, guardo comigo grandes experiências de vida de momentos que serviram como extraordinárias lições, tanto pessoal como profissional. Posso dizer que aprendi viver voando; ‘experienciando’ o novo, o desconhecido. Algumas vezes, voando com um instrutor ao lado, em muitas outras, no entanto, estava por conta própria, contando apenas comigo mesmo; valendo-me do que aprendera, ou descobrindo sozinho em meio ao caos, porque nem sempre teremos uma mão amiga por perto para nos conduzir com segurança nos momentos mais críticos de nossas jornadas.

Lembro-me quando certa vez, ainda bem jovem, decidi convidar uma amiga recém-conhecida para conhecer ‘de cima’, parte do litoral norte de São Paulo. A ideia sugerida era decolar do Campo de Marte, onde está o Aeroclube de São Paulo, sobrevoar o litoral, ‘curtindo’ a beleza de belas praias como Santos, Guarujá, e São Sebastião; pousar no pequeno Aeroclube de Ubatuba onde almoçaríamos, e em seguida retornar a São Paulo, de onde havíamos partido. Combinamos nossa aventura para o final de semana e nos encontramos no Aeroclube. A minha amiga empolgada com a ideia desse passeio diferente, após ter me consultado havia convidado mais duas amigas. Partimos por volta das dez horas da manhã, sob um céu de brigadeiro, como dizemos quando o tempo está perfeito para se voar. Céu azul, poucas nuvens, vento calmo e visibilidade total.

Cerca de vinte minutos depois, já estávamos voando sobre uma ensolarada costa formada por belas enseadas de praias tranquilas, e uma esfuziante alegria tomava conta daquele grupo que voava comigo. Era gratificante poder compartilhar com elas a beleza de um voo rasante sobre aquelas águas de um verde quase azulado, por conta do efeito dos raios de sol a produzir um daqueles dias em que o tudo se mostra magnífico.

Depois de algum tempo sobrevoando praias e ilhas da região, comecei a ganhar altura com aquele ‘Corisco’ Turbo, um monomotor leve, de excelente desempenho, produzido pela Embraer. Uma aeronave com motor de 200 HP e seis cilindros, turbo-comprimido e injetado, equipada com trem retrátil, asa baixa, e cauda em ‘T’; hélice de passo automático além de outros refinamentos. Já se aproximava do meio dia e a temperatura estava muito quente, produzindo um calor desconfortável dentro da cabine, e subir para níveis mais altos com certeza iria propiciar uma boa ‘refrescada’. Durante aquele tempo de voo, algumas nuvens do tipo altos-cúmulos haviam se formado acima de nós e eu decidi voar acima delas visando reduzir a temperatura interna. As nuvens eram esparsas e permitiam manter razoável visibilidade do solo.

Não havia ainda naquela época, os moderníssimos GPS e outros equipamentos auxiliares de voo da atualidade, e, voar implicava em usar equipamentos mais rudimentares, como o ADF (Automatic Direction Finder); um sintonizador de frequências de rádios convencionais, onde um sinal magnético por meio de um ponteiro indica a direção a seguir sobre uma bússola. Confiado naquele equipamento e em minha presumida sagacidade sensorial, voamos em direção a Ubatuba, subestimando de certa forma regras de bom senso, para um voo VFR (regras do voo visual). Os olhares atônitos daquelas jovens, ignorando qualquer eventual perigo, deliciavam-se com a visão extraordinária daquelas nuvens vistas de cima para baixo. Havia quase um êxtase em suas expressões.

Não tardou muito para que eu me desse conta de que estava voando quase sem visibilidade do solo. A agulha do ADF já sinalizava que estávamos ‘sobre’ Ubatuba, mas eu não conseguia enxergar a cidade, portanto, não tinha a mínima condição de iniciar qualquer procedimento para pouso naquele local. Uma momentânea inquietude foi aos poucos se apossando de mim; algo que não poderia jamais deixar transparecer em minha fisionomia ou atitudes, sob o risco de colocar aquelas mulheres em pânico; o que não ajudaria nada na delicadeza daqueles momentos, em que eu e aquele 'Corisco' voávamos num ambiente caótico para nossas condições. O céu era de brigadeiro acima de nós, mas embaixo de nós, ou melhor, abaixo daquelas nuvens, escondiam-se montanhas com mais de dois mil metros de altura bordeando aquele litoral, onde é perigoso voar até mesmo quando se pode enxerga-las...

Como já havia gasto boa parte do combustível da aeronave durante o voo até ali, teria que pensar alguma coisa rapidamente, pois não parecia recomendável retornar à origem, àquela altura dos acontecimentos. Pensei então, como alternativa naquele momento, voar em direção ao mar, onde meu bom senso indicava que as nuvens poderiam estar menos adensadas. Durante alguns minutos, que parecerem horas, voei em silêncio, completamente desligado do que falavam minhas amigas de aventura. Escutava o matraquear típico das mulheres quando falam todas ao mesmo tempo, entremeado de gargalhadas, mas não distinguia o que falavam. Minha atenção estava totalmente concentrada em cada detalhe à nossa volta. A formação das nuvens, o céu, o vento, o nível dos tanques de gasolina, o barulho do motor, a velocidade e a direção do vento, a bússola, mas acima de tudo, prestava atenção em mim mesmo, para manter o máximo nível de serenidade. Apesar de voar sem qualquer turbulência, eu navegava no caos. O pior de todos os voos. Vivenciando o momentâneo inferno de quem não sabe o que virá pela frente, mesmo viajando em ambiente de profunda calma e indescritível beleza.

Como conselheiro empresarial, costumo ver de fora esse mesmo cenário envolvendo empreendedores de grandes, médias e pequenas empresas; navegando em ambientes de calma aparente, mas conscientes de que algo terrível os aguarda. Tudo em volta parece estar bem, mas ele sabe a dimensão do perigo que envolve o empreendimento. Todos riem, na presumida certeza de que tudo está sob controle, desconhecendo a possibilidade de um desastre iminente, mas só o comandante tem noção do grau de incertezas que os cerca. Tranquilidade superficial, sobre um perigoso mar de consequências imprevisíveis, resultante de decisões equivocadas do passado, provocadas quase sempre pela vaidade ou pelo excesso de confiança, a colocar em risco o empreendimento e toda equipe que compartilhou com ele da viagem. Uma temeridade sobre a qual costumo refletir nos dias atuais, para ajudar com mais assertividade executivos e empreendedores na travessia de momentos delicados, sobre nuvens que escondem indesejáveis perigos. 

Lições como essa, servem também para nossas vidas pessoais. Há momentos em que muitos à nossa volta, amigos ou familiares não se dão conta do grau de ansiedade ou angústia em que mergulhamos, por conta de nossas inseguranças ou temeridades diante de algo que apenas nós percebemos. Pilotamos nossas vidas em determinados momentos sem a visão confortável de um campo de pouso, sabedores de que nosso combustível pode estar no limite, e isso nos deixa angustiados. Navegando no caos, buscamos por certezas sem a noção de imprevisibilidade. Flutuando ao sabor do imponderável nos tornamos vulneráveis ao mínimo erro. Vagamos ao ermo, sem a consciência do quanto somos frágeis diante de um universo de múltiplas possibilidades que se revela a cada curva do caminho, e sobre o qual não temos o mínimo controle; onde nos resta tão somente proceder escolhas com base em nossas intuições mais profundas, por pressentirmos, ainda que involuntariamente, que o universo inteiro reside em nosso inconsciente.

Os tempos atuais nos revelam momentos de significativas mudanças, e nos colocam diante do inusitado em frações de segundos, porque somos também impelidos a escolhas compulsórias por conta de decisões alheias que nos afetam direta ou indiretamente. Muito do que somos resulta da ação dessa multiplicidade de atores que nos cerca. Por essa razão, estar no controle nem sempre decorre de uma iniciativa pessoal, há momentos em que somos  impelidos pelas circunstâncias. Como diz Lloyd Tupper, “Quando você estabelece um contato mais intenso consigo mesmo, percebe que não é você que conduz os movimentos e que não foi você quem escreveu a sinfonia. Descobre então que não a está regendo. Você é parte do movimento. Você está apenas tocando o oboé”. Só a plena consciência de nós mesmos pode alterar significativamente nossas decisões.

Naquele inesquecível voo, bem ao estilo de um Richard Bach, aprendi que para alcançar o belo, ou atender os desejos da alma, algumas vezes esquecemos o bom senso e nos aventuramos por caminhos para além daquilo que nossa mente possa tentar nos prevenir, esquecendo de que há sempre um preço a pagar por cada gesto, cada escolha, cada mínima decisão. Quando  naquela tarde de um domingo ensolarado encontrei um simples ‘buraco’ entre as nuvens que me permitiu descer com aquele pássaro de  metal para níveis de completa visibilidade e pousar com segurança no Aeroclube de Ubatuba, aprendi a importância de buscar sempre que possível, a sintonia entre o racional e o emocional em nossas decisões, e proceder escolhas conscientes do seu grau de risco. Ao concluir aquela etapa, minhas pernas tremiam, mas o meu coração batia calmo, feliz por haver aprendido que não há nada tão confortante após um voo emocionante como o momento sagrado do pouso em terra firme.

Não se trata aqui da busca do equilíbrio. Não gosto muito dessa palavra, por ela implicar algumas vezes em um 'meio termo', algo como ficar em cima do muro, escolhendo de acordo com a conveniência. Como ensina João, no livro do Apocalipse, ‘sejas frio ou sejas quente, porque se fores morno eu te devoro’, uma sábia expressão de incitamento à tomada de decisões, e à coragem diante das escolhas que invariavelmente nos aguardam ao longo da caminhada. Equilíbrio pode significar ser morno. Cinzento. Algo covarde; receoso frente a uma definição. Por isso, prefiro a expressão 'harmonia’;  ela tem a ver com levar em conta os riscos de cada escolha ao tomar-se decisões em meio caos que nos envolve, com base na sabedoria que sugere o prazer sem, contudo, abandonar o bom senso. 

Quase sempre, essa sinalização vem por meio daquilo que chamamos de intuição. Insights poderosos que podem produzir sensíveis mudanças em nosso destino. Para tanto, basta aprender a escutar à nossa volta e através de nós mesmos. É por aí que o universo fala conosco, e nos faz encontrar respostas nos locais e momentos mais improváveis. 


_______________________________

________________________________



*Maurício A Costa é estrategista; focado na análise de alternativas, e no valor agregado. Foi executivo de empresas como a Kimberly Clark, o Grupo Gerdau, e o Grupo Grendene/Vulcabrás. Está disponível para empresas de qualquer segmento ou porte, interessadas na alavancagem de receita e rentabilidade de seu negócio. 
Como livre pensador não tem vínculos com partidos políticos ou religiões. É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. Está disponível também para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que podem mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.