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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Morte. A Apoteose da Vida





 


Por Maurício A Costa*

"Vivemos mergulhados em dúvidas, questionamentos e inúteis conflitos tentando complicar algo tão simples como viver. Discutindo insignificantes detalhes, ignorando nossa própria ignorância, nos perdemos por caminhos que não levam a lugar algum... Até o dia em que descobrimos que a vida é apenas uma leve brisa entre duas estações" (O Mentor Virtual II - O Elo Invisível - Campinas-SP - Em gestação).
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Há uma frase da filosofia Oriental que diz: 'O ser humano vive como se nunca fosse morrer, e morre como se nunca houvesse vivido'. Há uma permanente e incompreensível atitude de alheamento em relação à sua finitude, por conta essencialmente do medo que carrega em relação à morte, derivado da tomada de consciência de si mesmo e do mundo à sua volta, que o diferenciou substancialmente para sempre de todos os outros animais. Todavia, essa diferenciação nem sempre se revelou algo benéfico para sua espécie, pois é comum vê-lo agindo de maneira mais selvagem que qualquer outro ser, por meio da manipulação e da dominação do seu semelhante, ou da destruição predatória da sua e de outras espécies. Como escreve Nietzsche em 'Assim Falava Zaratustra', se referindo à humanidade: "Percorrestes o caminho que vai do verme ao homem; tendes ainda em vós muito do verme. Outrora fostes símios e até hoje o homem é ainda mais símio que todos os símios... Até o mais sábio entre vós é um ser híbrido entre planta e fantasma... Qual é o maior acontecimento que pode sobrevir em vossa vida? É a hora do grande menosprezo. A hora em que vos enfastiareis da vossa própria felicidade e também da vossa razão e da vossa virtude". (Pág. 19/20 - Editora Vozes - Petrópolis-RJ - 2007).

Nietzsche criticava de forma contundente essa ridícula sensação de imortalidade do homem, perceptível em suas mesquinhas e até grotescas atitudes em relação ao seu próprio potencial e aos valores que deve conhecer. Ao se tornar tacanho neste sentido, demonstra um gigantesco bloqueio mental que o inibe de assimilar a grandiosidade daquilo que o cerca, revelando-se a mais repulsiva de todas as criaturas, por viver promiscuamente em função dos instintos primitivos que carrega, ou de pensar incessantemente na acumulação de bens materiais muito acima de suas reais necessidades. Por conta dessa danação, sua existência vai aos poucos se tornando um emaranhado de pseudo necessidades a consumir-lhe a alma e o exíguo tempo que dispões para viver. Suas ações tornam-se mecânicas e quase sempre envolvidas nas mais espetaculares camuflagens para superar todo tipo de adversidade.

Alguns meses atrás, enquanto produzia mais um capítulo do livro 'O Mentor Virtual II - O Elo Invisível', escrevi um texto onde resumia a importância do tempo e a forma como o administramos em nossas vidas: “O tempo é o bem maior que você dispõe e só a você cabe administrá-lo. Para utilizá-lo a seu favor é imperativo que defina com carinho aquilo que é prioridade. Cada minuto é um milagre que não se repete jamais". Recentemente pude ver essa mesma idéia levada ao extremo, na ficção cinematográfica 'O Preço do Amanhã', (filme que recomendo), onde uma civilização que nos sucederia no futuro trata o 'tempo' como um 'padrão de moeda' e, portanto, uma questão de sobrevivência. A morte como algo terrivelmente assustador quando se tem a plena consciência do tempo restante que se dispõe, da mesma forma que a vida pode perder toda sua graça e magia, e até tornar-se enfadonha, quando não há qualquer restrição de recursos (tempo, saúde, e dinheiro) para usufruí-la. Um aparente paradoxo, resultante da alienação do ser humano em relação aos seus mais autênticos valores, ou ainda, por deixar morrer os sonhos, que são ecos mais profundos do inconsciente, onde reside a essência daquilo que ele é.

A maior de todas as verdades, para a qual nem sempre costumamos dar a devida atenção, é que somos inquestionavelmente frágeis e extremamente vulneráveis; por conta disso, nossa mente se ocupa de construir ininterruptamente todo tipo de fantasia, na insana tentativa de disfarçar a incômoda ameaça pressentida a cada instante; e o 'tempo', que não deveria ser mais que o fluxo natural de todas as coisas em seu movimento vibratório resultante da energia que as permeia, passa a ser algo crucial, efêmero, e por consequência caro. Em decorrência, passa a ser pesado e medido com precisão atômica, onde cada fração de segundo passa a ser visto como um milagre que não pode ser repetido. Embora o 'presente' torne-se o único palco para todas as transformações possíveis, e cenário de todos milagres, por mais incompreensível que possa parecer, ele é ignorado; toda atenção, energia e esforço voltam-se exclusivamente para o futuro incerto, numa alucinante atividade, movida pelo medo de que o tempo se esgote, e esvaia-se o minuto final. 

Ora, se a vida acontece no presente, e o futuro é um lugar incerto, impreciso, por que então 'desperdiçar minutos preciosos de uma vida tão breve com preocupações inúteis ou ansiedades desnecessárias antes do tempo', perguntaria O Mentor Virtual'. Por que a angústia permanente por algo que sequer sabemos se terá alguma utilidade? Por que nos inquietarmos pelo amanhã se não temos a mínima segurança de que estaremos lá? E se por acaso o alcançarmos, estaremos em condições de usufruí-lo? Haverá saúde para isso? Teremos alguém com quem compartilhar? Ou seremos apenas reféns de uma avassaladora solidão, a retirar a beleza daqueles momentos que deveriam ser os melhores de nossas vidas, antes que nossos corpos se fragmentem em vários componentes?

Por tudo isso, questiono implacável: Em que momento ocorre a derrocada do ser humano? No cessar do pulsar corpóreo, ou gradualmente à medida que a alma vai sendo sufocada pela insensatez originada na insatisfação doentia, no poder, no orgulho, na vaidade, no egoísmo, na futilidade, na intolerância? ...Se temos noção do quanto o 'tempo' é efêmero, e de que nada é real diante desse piscar de olhos, porque não viver cada minuto com a intensidade do eterno, sustentados unicamente pelos valores mais verdadeiros do que somos? ...O que seria a verdadeira 'morte' então? A do corpo ou do espírito? - Tenho visto com frequência pessoas 'realizadas' do ponto de vista profissional ou financeiro, vivenciando amargura, depressão e frustração, por conta do ambiente inóspito que construíram à sua volta. Por valorizar apenas o que é tangível, embora fugaz, afastaram-se de seus reais valores. Por ignorar a voz interior, seguiram suas mentes frias maquiavelicamente destrutivas para construir uma ilha de fantasia que resulta quase sempre na solidão de um poder que já não serve para nada. E quando a solidão é indesejada, invariavelmente desencadeia o mecanismo das enfermidades irreversíveis. "A consciência do frágil pulsar, nos faz valorizar cada minuto com a dimensão do eterno, e ver a futilidade como algo que nos aliena da grandiosidade da vida", diria O Mentor Virtual.

Do ponto de vista natural, a morte não é mais que o resultado da desorganização dos elementos que compõem um organismo qualquer. Seja uma planta, um macaco ou um ser humano. Não há exceções nessa regra. Aceitá-la não é nada além do bom senso. Esperar que ela se restabeleça após sua decomposição é no mínimo uma infantilidade. Ainda que voltemos a juntar todos os micro componentes que formam um corpo, ele jamais será o mesmo. Ela voltará como algo individualmente distinto. Um novo elemento, com personalidade e características próprias. Como uma taça que explode, jamais voltará a se recompor. O que restará será apenas a essência daquilo que foi aquele ser, que será transmitido geneticamente pelo sêmen nos processos de reprodução, ou pelas informações que propagou no 'todo', através de palavras, cores e sons, ou tudo isso junto sob a forma de uma idéia. A essência é a alma de qualquer coisa, e essa 'essência' seguirá fluindo infinitamente como parte de um todo. Um 'Todo' que convencionamos chamar de 'espírito', a permear todas as coisas, animadas ou aparentemente inanimadas, como um simples cristal, que esconde bilhões de pequeninos átomos capazes de destruir planetas inteiros. Quiçá, galáxias. 

Do ponto de vista humano, a morte não é mais que a perda da sua energia vital. A ausência do querer que impulsiona a vontade. A perda da fé que move montanhas. 'Aquilo que sufocamos dentro de nós serão momentos desperdiçados para sempre' - A morte é zona do comodismo daquele que se entrega e diz que não há mais nada a fazer, ignorando o 'seguir em frente ditado pela própria vida'. É a cegueira definitiva diante da beleza do que é inefável, grandioso e magnífico. Porque a morte não deveria ser mais que a apoteose da vida. Seu momento de ápice. Seu orgasmo definitivo, tal qual libélula que transpõe os umbrais de sua condição larval para perpetuar-se em um universo que desconhece mas respeita, ainda que inconsciente, por saber-se parte. "Somos atraídos pelo desconhecido na mesma proporção que o tememos. Nos perdemos quase sempre em atraentes labirintos, guiados unicamente pela magia da alma, em sua desesperada busca pela energia que a conduz, o amor"; diria meu inseparável 'Mentor Virtual'. Por isso, "Viva com intensidade cada minuto. Como poeira levada pelo vento, o tempo se esvai... Viver é uma experiência irreversível, pessoal e única"

Quando porventura sentir que a flama de sua energia estiver a esmorecer, experimente 'renascer'. Renascer é deixar para trás tudo aquilo que já não faz parte de você; é nascer para o todo, com a certeza de que nesses momentos de passagem, não será sua alma que irá morrer, tampouco seu corpo; serão apenas os paradigmas do passado, consciente de que, 'o tempo não é mais que uma ilusão mental para quem busca compreender o verdadeiro sentido daquilo que para a alma é eterno. A vida é um pulsar contínuo sem antes nem depois. O presente é o cenário de todas as transformações possíveis a impor um agir agora inevitável'.

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 *Mauricio A Costa, é Estrategista. Sócio Fundador da SUPPORT BRANDS, empresa de projetos e assessoria para alavancagem de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, sob consulta, para atuar como Membro do Conselho de Empresas de qualquer porte. 

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual, organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, sob consulta, para associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país. 


4 comentários:

  1. Muito boa reflexão... Nos faz pensar na finitude como algo que precisa ser valorizado, refletido, resignificado. Vivemos sabendo que o paradigma é a morte e diante desse paradigma inevitável porque não valorizarmos mais a existencia, o presente, como um milagre que pode se repetir a cada amanhecer? E colocarmos então nossa energia em coisas construtivas´que nos faça bem, a nós mesmo e ao outro, como uma retroalimentação necessária e constante para o nosso crescimento...
    Márcia Vieira.

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  2. Morte. A Apoteose da Vida....Era assim que "ELA (MORTE)" devia ser encarada.

    Artigo extremamente difícil de abordar... pois queiramos ou não, todos tememos
    a morte... não a morte em si... mas o sofrimento que ela pode provocar.
    Quando entendemos a MORTE como um processo natural da vida,e não de destruição,
    mas de renovação, tudo fica mais compreensível e menos assustador.
    Aceitar a morte, praticamente a única certeza de uma vida, é muito difícil.

    Aligeirando o tema.... A VIDA devia ser uma festa permanente...

    Nascer VELHO e morrer CRIANÇA .... como no filme "O Misterioso Caso de Benjamim Button"...
    achei comovente .... e seria muito triste passar por aquela situação...!!!..... mas
    Nascer CRIANÇA e morrer VELHO.... em ambos os casos... implica sempre ser dependente
    de outrem.

    Façamos então da MORTE a APOTEOSE da VIDA ... como sugere o Amigo MAURICIO.

    Um ABRAÇO afetuoso. ALICE LOPES

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  3. Este tema, me remete a um tempo em que a Morte visitava meus pensamentos com tamanha frequência, que até hoje trago as marcas em meu corpo, dos convites devidamente, não aceitos, por 'ela'... A Morte é um fato! Demorei preciosos 17 anos da minha vida para perceber, que pior que a Morte, é Viver sem Vida! Sem perspectivas, sem sonhos, sem amor, sem alegria... Sim, por isso a Morte me rejeitava... Eu, já estava morta.

    Prisioneira de uma mente doentia, sufoquei todos os meus sonhos, alimentei fantasmas de culpas e medos; mas, eu tinha uma 'escolha'... e, a fiz. Optei pela Vida que ainda restava em mim.

    Hoje, tenho consciência do quão inútil é me preocupar com a Morte. Devo focar minhas energias, com a VIDA. Dar o melhor e, fazer o melhor possível.
    Quanto a Morte, ela há de chegar para todos a seu tempo. A mim, ela não assusta. Ela, só é assustadora para aqueles que deixaram de viver, para se preocupar em morrer.

    Abçs. carinhosos Mauricio

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  4. A unica coisa que sabemos com toda a certeza desde o dia em que nascemos e que um dia iremos morrer.E pagar imposto e claro,como dizem aqui.
    E uma tendencia natural do ser humano temer ao desconhecido dai preocupar-se com o futuro e com a morte.Apesar de ser uma coisa natural tanto quanto a vida uma vez que uma e o oposto da outra,a maioria nao encara dessa maneira e evita mesmo pronunciar o nome "morte".Tento ser amiga da morte assim aprendo a lidar com ela sem medo ou preconceito.Eu existo e sei que um dia ela me alcancara mesmo que eu fuja,me esconda,entao nao perco meu tempo fugindo e tentando escapar.Esto aqui e no dia que ela achar que e conveniente que eu nao exista mais entao ela existira.
    Como disse o Francois Mitterrand
    "Nao tenho medo de morrer,
    tenho medo e sim de deixar de viver".
    Boa noite Mauricio,obrigada pelos seus posts,sempre inteligentes e interessantes.

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