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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Significado. A Essência da Estratégia.


Por Maurício A Costa*

"Mais do que em qualquer outra época no passado, as empresas não conseguirão se manter através de métodos tradicionais de controle: hierarquia, sistemas, orçamentos, etc. Mesmo 'ir trabalhar' se tornará menos relevante à medida que a tecnologia possibilite às pessoas trabalhar a partir de localidades remotas. O que vai juntar tudo será cada vez mais um componente ideológico. As pessoas ainda têm uma necessidade fundamentalmente humana de pertencer a algo do qual elas possam se orgulhar. As pessoas ainda terão uma necessidade fundamental de valores e de um senso de propósito que dê às suas vidas e ao seu trabalho uma noção de significado". (James Collins & Jerry Porras, em 'Feitas Para Durar' - Práticas Bem Sucedidas de Empresas Visionárias - Editora Rocco - Rio de Janeiro-RJ).
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Certa noite, em um restaurante de Munique na Alemanha, durante um jantar com Pedro Grendene, Presidente da empresa onde atuei como Diretor Comercial, após um agitado dia de negociações tratando do licenciamento de marcas internacionais como Adidas e Puma, desenvolvemos juntos uma profunda troca de idéias sobre os planos da Empresa para o futuro. Em determinado momento, questionando sobre suas idéias quanto ao tipo de hierarquia que ele considerava ideal para a empresa, escutei algo que me causou profunda reflexão. Sua resposta veio embasada como quem elabora uma estratégia, e não algo sustentado apenas por um manual de regras de recursos humanos; na verdade, suas palavras embutiam muito mais que isso, revelava uma 'visão' de futuro. Numa frase quase lacônica, o Pedro sintetizou essa 'visão', quando me respondeu: "Mauricio, mais do que uma simples hierarquia, precisamos deixar claro quais os 'valores' que devem permear a organização, e definir com clareza nosso 'propósito', para que todos trabalhem focados no mesmo objetivo. Só assim, iremos criar um 'significado' para a vida de cada um e por consequência o sentido de unidade para a empresa". Uma frase que fui conhecer de maneira muito parecida no texto dos autores citados no início deste artigo, alguns anos depois.

Mauricio A Costa e
Pedro Grendene com o
Governador  do Ceará
Tasso Jereissati
Coisas desse tipo, criaram em mim uma profunda admiração pela figura carismática e pragmática do Pedro ao longo do tempo em que atuei no Grupo Grendene. Suas considerações tinham sempre um sentido prático, realista, e objetivo. Suas posturas e conselhos revelavam sempre uma posição muito além das ideologias ou modismos, por meio de palavras sempre permeadas  de significado. Sua visão, iria permitir que a empresa que dirigia naquela ocasião, viesse a se tornar a líder do setor em que atua, a partir da imagem de um futuro construída de forma enfática e convincente. Hoje, tanto tempo depois, ainda guardo um profundo respeito e admiração por aquele mentor com quem muito aprendi, e que me inspirou como Empreendedor, Conselheiro Empresarial ou Coach, com idéias significativamente avançadas para sua época. É uma pena que algum tempo depois que deixei a empresa, o Pedro decidiu delegar excesso de poderes para seu principal executivo, cuja visão pessoal falou mais alto que a comunidade de propósito que gera significado e cria sinergia. Sua postura vaidosa levou a empresa a uma grave crise financeira, comprometendo tudo aquilo que havia sido construído no passado.

Sabemos o quanto, "é difícil diagnosticar o futuro, no ambiente turbulento que cerca as coisas materiais. Há uma enorme imprevisibilidade por conta das inúmeras possibilidades que se sucedem, causada pela diversidade de atores e pelas múltiplas alternativas que causam alteração constante do ambiente", (O Mentor Virtual - Pág. 31 - Editora Komedi - Campinas-SP - 2008); entretanto, quando o bom senso vislumbra com coragem um horizonte além daquilo que é convencional, é possível criar uma visão diferenciada e contagiar uma equipe com um propósito encorajador. Simplesmente pelo fato de criar-se 'perspectiva'. Uma palavra mágica que transfere segurança e estimula a ousadia. Para tanto, é decisivo quebrar paradigmas; romper idéias preconcebidas que bloqueiam a oxigenação de qualquer empreendimento, e o deixam vulnerável a investidas de adversários mais arrojados. Para alcançar o sucesso, é mandatório também a capacidade de construir pontes. Como ensina mais uma vez o meu 'mentor virtual': "É decisivo romper o isolamento do egoísmo, da intransigência e da vaidade. A sabedoria é o elo invisível que conecta cada mínimo elemento do universo que nos cerca para a construção do todo". Não se pode construir algo grandioso sozinho. Além do mais, é imperativo que o 'propósito', ou o 'objetivo' da organização, não importa seu tamanho, seja difundido em todos os níveis do empreendimento,  não ficando restrito a um pequeno número de pessoas.

Antes de iniciar qualquer trabalho como Estrategista, Conselheiro Empresarial, ou Mentor, costumo perguntar ao Empresário ou Executivo que deseja me contratar: 'Qual a visão que move você?', e nem sempre a resposta é muito clara nessas ocasiões. Via de regra, a 'visão' está mais para o imediatismo que para um propósito focado no longo prazo. Por uma simples razão: Falta a sinergia que permite compartilhar idéias e gerar oportunidades diferenciadas. Ao invés disso, há um incompreensível vazio entre o que se passa no topo; na mente de quem empreende, e naqueles que respondem pela execução do plano. Quase sempre, a mesmice permeia a organização e engessa tudo. A ausência de comunidade propósito faz dispersar todo esforço coletivo ou individual. Como resultado, uma estagnação doentia, ou um excesso de confiança do líder pode gerar uma preocupante vulnerabilidade, a comprometer o futuro da empresa de forma angustiante. E então, tudo em volta sinaliza perigo. Desde o despreparo da equipe para enfrentar o novo, até a predatória concorrência que vem de fora, de maneira voraz e ameaçadora.


Recentemente, numa reunião com os diretores de uma empresa de médio porte, mas com grande potencial de crescimento, fui sondado para atuar como seu 'Advisor' a fim de alavancar receitas e rentabilidade. Alguns dias mais tarde, me informaram que, pelo valor da assessoria a ser paga seria preferível contratar um executivo dedicado em tempo integral ao empreendimento. Mesmo respeitando a escolha daqueles empresários, me entristeci momentaneamente pela decisão tomada; Não apenas pela perda do contrato em si, é claro, mas principalmente por saber o que poderá resultar dessa escolha. Se a empresa está carente de uma visão de fora, que a longo prazo lhe permita enxergar o futuro com maior isenção, por conta das adversidades externas causadas pela velocidade das mudanças no cenário internacional, não é prudente ou recomendável apenas trazer mais alguém para dentro. Em poucos meses, é bem provável que o novo executivo, por 'temor reverencial' ou por estar contaminado pelo 'status quo' do ambiente interno irá colaborar para que tudo retorne ao seu contexto original. O que chamo de 'a teoria do pêndulo'; pois aquilo que está pendurado no mesmo eixo, irá rapidamente enquadrar-se no sincronizado movimento uniforme que produz o continuísmo.  Assim a momentânea visão de fora para dentro rapidamente se tornará mais uma visão de dentro para fora e em pouco tempo nada acrescentará, por conta da força gravitacional, que faz tudo convergir para o centro, e permanecer girando em torno do próprio eixo. 

A visão que desencadeia oportunidades quase sempre necessita ser provocada ou estimulada a partir de um olhar diferenciado, de uma postura não viciada, e muito menos, dependente. Visão é percepção do todo, de forma quase sonhadora. Deve ser independente e ter algo de 'holística'. É antecipar movimentos ou até criá-los de forma nem sempre científica, pois muitas vezes nasce de forma abstrata. Como diz o escritor francês André Gide: “Ninguém pode descobrir novos caminhos até que tenha coragem de perder de vista a terra firme”. É essa visão corajosa que cria o 'significado'; o valor por trás de qualquer marca forte. E é esse significado que dá sustentação e força para essa marca no longo prazo, gerando credibilidade junto aos seus 'stakeholders', isto é, seus clientes, colaboradores, fornecedores, acionistas ou investidores. Essa visão é, na verdade a essência da própria estratégia.  

Passado tanto tempo desde aquele inesquecível jantar com Pedro Grendene, em Munique, guardo comigo uma importante lição, transformada em metáfora que hoje faz parte do meu livro ora em gestação, 'O Mentor Virtual II - O Elo Invisível': "Estar no comando é resultado de uma opção pessoal; Todavia, isso não é mais que uma ilusão passageira, para quem tem a consciência de ser parte de algo maior"; e é esse estado de consciência que faz a diferença entre um homem comum e um líder que está à frente de sua geração. Sinto-em honrado em haver sido parte do seu time, ter merecido sua confiança, e partilhado de sua amizade  durante os anos em que caminhamos juntos. Por essa razão este artigo é uma justa homenagem ao arrojo e determinação de quem me ensinou de forma simples o sentido da palavra significado.                                  _____________________________________________________


*Maurício A Costa é um obcecado por resultados, gerado pelo pensamento estratégico, focado em gente, inovação, e criação de valor agregado. Executivo com experiência internacional em empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica); está disponível para participar da construção de marcas fortes, em organizações sérias, interessadas na identificação de novas oportunidades, na superação de desafios, e na melhoraria de resultados e rentabilidade. No plano pessoal, é o idealizador do Projeto Mentor Virtual; organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, sob consulta, para associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país, e poderão mudar a sua visão do mundo, e alavancar o potencial de sua equipe. Disponível também para atuar como 'Conselheiro' para Empresas, Empreendedores ou Executivos.
Contatos: mauriciocosta@uol.com.br 

4 comentários:

  1. Deixar um COMENTÁRIO é dizer o que me vai na alma! E nestes tempos conturbados, em Portugal e no Mundo, todas as estratégias são BOAS para não nos deixarmos ir nesta "onda" de pessimismo! Acompanho de perto o trabalho de uma empresa e admiro a forma como o empreendimento e gestão se faz, unindo todos os que nela trabalham, tal como o Maurício refere! Já partilhei o Blog...Quem sabe as suas PALAVRAS são o incentivo para que nunca haja vontade de desistir, pois o trabalho desenvolvido,apostando nas PESSOAS, tem tudo para dar certo! Obrigada, Maurício por, de uma forma gratuita, colocar os seus CONHECIMENTOS, ao nosso dispor... Um ABRAÇO desde Portugal...Afinal não estamos assim tão longe!BOM DIA!

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  2. Magnifico texto, obrigado pela oportunidade..abracos

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  3. O elogio é desejável e agrada-nos; mas é preciso fazer por merecê-lo.
    O Mauricio merece-o na medida em que a matéria, direcionada para empreendedores e empresários, está muito bem explanada... assim, todos a aproveitem... para uma melhor aprendizagem e desenvolvimento das suas capacidades empreendedoras.
    A coisa mais importante na vida é andar para a frente e atingir a perfeição naquilo que mais gostamos de fazer.
    Um ABRAÇO e continuação de boas ideias e trabalhos para partilhar com quem gosta de o "LER". Alice Lopes

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  4. Bom dia Maurício, sua postagem relaciona - se a empreendedores, porém penso que não ha assunto que não seja util para todos os públicos, desde que saibamos associar com nossos conhecimentos, realidades e perspectivas.
    Sabe, fico triste, quando estou em uma palestra, ou curso no trabalho, e há pessoas que dizem que o assunto tratado não lhe "encaixa", como não? tudo se "encaixa", desde que estamos com a mente aguçada para o nosso crescimento, assim como os olhos de um gavião para a presa.
    o que compartilho, provido do meu singelo conhecimento, é que, enquanto eu realizava a leitura, relacionava com as possíveis causas de tal comportamento unilateral, uifocal,das empresas em todos os ambitos de atitudes e anseios, o qual seria o egocentrismo que cega o homem, deixando de visualizar o todo para almejar o que deseja, atitude essa contrária do seu amigo, o qual voce cita nesse postagem e admira.
    Comparando "estratégias" diferentes em agir (coloco estratégia entre parenteses, porque o que os egocêntricos pensam ser estratégias, é na verdade seu fiasco) o reflexo de sua pobreza interior que nesse caso específico exterioriza na empresa.
    Sendo assim, concluo a atitude de tais "estrategistas" com o seguinte pensamento: imagino a vida pessoal dos próprios, com a singela denominação: visão de "galinhas", ciscam somente o que sua visão muito curta consegue visualizar, diferente do seu amigo, o qual citou, com visão panorâmica de gavião.

    abraço;

    Simone Furlaneto.

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