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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Complementaridade. Uma Palavra Mágica.






Por Maurício A Costa*


"Como a abelha que recolhe o mel de diferentes flores, o homem sábio aceita a essência de diferentes Escrituras e só vê o que há de bom em todas as religiões"  Dos Livros Sagrados da Índia. Ver:  Srimad Bhagavatam

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Nasci e fui batizado nos ritos da religião católica. Quando eu tinha por volta de dez anos, minha mãe foi convertida para a religião protestante, passando a frequentar um templo Batista. Segui seus passos de maneira natural, envolvido especialmente pelo carisma de maravilhosos missionários americanos que em muito contribuíram para minha formação. Aos quinze anos, no entanto, fui convidado a retirar-me da comunidade cristã da qual participava, por um sacerdote, pelo qual até hoje tenho imenso carinho, que enxergava em mim uma ameaça para seu rebanho, por eu ser um leitor contumaz, de autores como Santo Agostinho, Schopenhauer, Spinosa, Kant ou Nietzsche; enfim, de tudo o que me aparecesse pela frente. Assim, em pouco tempo, deixei de ser um asceta para me tornar um apóstata. Ou em palavras mais simples, de seguidor tornei-me um desertado. Um fiel  que abandona seus votos de fidelidade a uma crença absoluta e decide encarar um novo caminho, livre de dogmas ou paradigmas. 
Ao longo dessa caminhada fui ver de perto outras seitas, religiões e fraternidades como o espiritismo, o budismo, o taoísmo e os rosacruzes; as quais me propiciaram profundas reflexões e fantásticas descobertas, especialmente do ponto de vista interior. Vivi momentos grandiosos de crescimento pessoal, mas em todas elas me sentia incomodado pelo dogma e pela doutrina resultante de múltiplas interpretações. Não havia muita liberdade de expressão, apenas roteiros pré estabelecidos e o direcionamento da mente para determinados conceitos ou regras recheados de rituais. Por tudo isso, mesmo que a um custo pessoal muito alto, a trilha solitária tornou-se minha opção. Seguir em busca do sagrado, guiado apenas pelo espírito universal, consciente de que não se pode alcançar a verdade sem que se amplie de maneira significativa a percepção, para romper as amarras da ignorância e do paradigma que escraviza. Duas mensagens poderosas, apreendidas na adolescência ecoavam muito forte dentro de mim, servindo como bússola para a jornada. Uma do grande mestre que sempre me inspirou, e ensinava: 'Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos Libertará' (João 8:32); e outra de seu maior apóstolo: 'Examinai tudo e retenhas o que é bom' (I Tess.5:20). Essas recomendações, somadas à síntese do que ensinou Nietzsche sobre o imperativo de uma 'mente aberta e espírito livre', foram ventos importantes sobre velas içadas de um pequeno barco que ousava adentrar por mares turbulentos e quiçá perigosos, por saber que ao mesmo tempo aquilo que  propicia sabedoria, pode, com a mesma intensidade conduzir à loucura, como ocorreu com o próprio Nietzsche, ou à morte, como Sócrates ou  Jesus Cristo.

Todavia, tal qual o guerreiro que desconhece ameaças quando se aventura movido pela energia que vem da alma, e nada o detém ao partir em busca da visão que traz como parte intrínseca de si mesmo, assim aquele que é sedento por conhecimento. Como nos diz Aldous Huxley: "Se alguém não for um sábio ou um santo, o melhor que poderá fazer, no campo da metafísica, é estudar as obras daqueles que o foram, e que, porque modificaram seu modo simplesmente humano de ser, tornaram-se capazes de apreender mais que um tipo simplesmente humano - e de uma quantidade maior - de conhecimento". (Huxley, Aldous, 1894-1963. 'A Filosofia Perene' - Pág. 23 - Editora Globo - São Paulo - 2010).
Complementaridade é uma palavra mágica, quando se tem a consciência de que nada se sabe, e humildade para curvar-se diante da sabedoria universal só alcançável por meio do outro, para formar um estupendo elo invisível que torna insignificantes individualidades um todo incomensurável.
Confesso mais uma vez, que o maior de todos os meus desafios é colocar em prática essa grande verdade. Não é tarefa das mais fáceis destruir inimigos íntimos como a arrogância, a vaidade, ou a intolerância, e outras atitudes prepotentes que emanam do ser inferior que carregamos ao longo de gerações. Uma terrível batalha é travada todos os dias entre o sublime das nossas aspirações e o animal de nossas origens. À medida que avançamos, evoluímos, e assim, vamos mudando conceitos, princípios e posturas, ainda que possamos parecer aos olhos dos demais como alguém incoerente ou inconsistente, quando na verdade somos apenas reflexos dessas mudanças. Isso me leva a questionar com frequência sobre essa aparente incoerência entre o sagrado propósito das intenções e a desprezível realidade de minhas vaidosas posturas que tanto me incomodam. 

Como consolo, repito silenciosamente para mim mesmo: 'humano, demasiadamente humano'; como se escutasse o próprio Nietzsche em sua angústia pessoal, sussurrar ao meu ouvido: “Quem alcançou em alguma medida a liberdade da razão, não pode se sentir mais que um andarilho sobre a Terra – e não um viajante que se dirige a uma meta final: pois esta não existe. Mas ele observará e terá olhos abertos para tudo quanto realmente sucede no mundo; por isso não pode atrelar o coração com muita firmeza a nada em particular; nele deve existir algo de errante, que tenha alegria na mudança e na passagem” (Humano, Demasiadamente Humano - O andarilho. – p.306).
Como empresário, escritor, consultor ou mentor, costumo gerar indesejáveis expectativas sobre o meu comportamento, e isso aumenta ainda mais a inquietação. Por conta da mensagem que busco transmitir, muitos, invariavelmente desejam enxergar-me com uma áurea de santidade ou perfeição que está longe da realidade daquilo que realmente sou: humano. São essas expectativas que nos atormentam, ao mesmo tempo que nos incita à busca da sabedoria. E é essa sabedoria que revela a nossa fragilidade ou imperfeição, e a imperativa necessidade de nos completarmos no outro. Quando assumimos nossa pequenez nos tornamos extraordinariamente grandes, e nos damos conta de que somos uma ínfima parte de um todo de proporções gigantescas. E só assim, somos capazes de compreender e aceitar o outro com suas características individuais, que não são defeitos tampouco virtudes, mas apenas momentos de um estágio evolutivo, a revelar o nível de conhecimento de si próprio e o grau de percepção do mundo à sua volta. Pois, representamos na verdade, "uma soma de caracteres individuais que trazemos geneticamente, complementados por nossas experiências pessoais, o que nos leva a construir um verdadeiro arsenal de regras e comportamentos que definem nossa personalidade" (O Mentor Virtual – Pág. 90 – Ed. Komedi – Campinas-SP -2008).
Ao compreender a magnitude da palavra complementaridade e, assimilar em nossas vidas sua dimensão, nos tornamos capazes de reduzir o stress resultante das expectativas, e destruir a energia negativa que se revela por meio de posturas como a inveja, o rancor, a intolerância, o egoísmo ou a falsidade, causadoras de perigosas enfermidades que silenciosamente corroem o corpo e a alma. Mas, "o que seria viver a própria vida, se nos obrigamos a esquecer o que somos na maior parte do tempo em função de expectativas? Como adequar nosso modelo tão pessoal a um sistema complexo, formado por milhões de outras criaturas? A resposta parece estar na necessidade de um freqüente mergulho para dentro de nós mesmos e buscar compreender a essência de nossas mais profundas aspirações”. (‘Divididos Entre a Razão e o Coração’ publicado no Blog ‘Marcas Fortes’ – Junho/2010). 
Ao finalizar este artigo, deixo aqui um sincero pedido de perdão a todos a quem voluntária ou involuntariamente decepcionei, magoei, ou frustrei por ser eu mesmo, com todas as características que me são inerentes, acompanhado de um solene apelo: "Não me deduzas por uma simples imagem, nem me interpretes só pelo que te digo. Não me tomes como um ídolo, tampouco por um vilão. Não me perguntes de onde venho, ou para onde vou; passado e futuro são apenas detalhes do caminho. Quero que te alegres com a minha presença cada vez que eu estiver contigo, sem que percebas que sou apenas um leve reflexo de ti mesmo".  ('O Mentor Virtual II' – O Elo Invisível - Campinas-SP). 
Na empresa ou na comunidade, na vida pessoal ou familiar, construir uma Marca Forte resulta do desejo de sair do lugar comum com ousadia e determinação. Exige coragem para encarar o desconhecido e romper superadas tradições. Impõe a tomada de consciência de que quase sempre caminhará sozinho, sem o companheirismo ou cumplicidade das confrarias. Implica sujeitar-se à critica e ao desdém, sem perder a simplicidade, o entusiasmo e a confiança, pois só assim é possível construir uma base confiável que transfira credibilidade. Mas, acima de tudo, depende da capacidade de compreender o verdadeiro sentido e a magia da palavra complementaridade.



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*Maurício A Costa é um inquieto obcecado por resultados, focado no pensamento estratégico e no valor agregado. (Numa linguagem moderna, um 'Design Thinker'). Foi Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Está disponível para participar de Empresas sérias, que estejam em busca de melhores resultados e interessadas em alavancar a rentabilidade do negócio. Em termos pessoais, é o idealizador do Projeto Mentor Virtual; um empreendimento em fase de gestação, focado no despertar da consciência humana, visando encorajar transformações e valorizar a vida. É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe. 

20 comentários:

  1. Maurício, mais uma vez parabéns, pelo seu artigo. Achei o máximo e bem interessante. Desejo que vc ouse cada vez mais e continue com a sua determinação frente às expectativas de sua caminhada. Muitas vezes o desconhecido nos dá medo e é preciso agir com verdadeira coragem sem se deixar abater pela intepéries da vida. Muito sucesso em sua carreira e, principalmente, em sua vida, sempre. Paz no seu coração. Rosemary

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  2. O caminho solitário é perigoso, porém, muito prazeiroso! Namastê!
    Parabéns pelo artigo - Enriquecedor!

    Sheila

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  3. Silvia Lá Monabril 08, 2011

    Caro Maurício. Me identifiquei totalmente com suas idéias passadas neste artigo, percorri caminhos muito parecidos e fiz reflexões muito semelhantes às suas. Concluo que para mim hoje, fica a certeza de que Eu Sou a imagem e semelhança de Deus, Ele está dentro de mim assim como em ti. Por isso somos livres e co-criadores de tudo que existe. Grande abraço. Silvia Lá Mon (JORNALZEN)

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  4. CARÍSSIMO MAURICIO A. COSTA

    GRATA SATISF-AÇÃO EM TER NESSA LEI-TURA NOSSO VIÉS DE INQUIETUDE OU SEJA QUE SAIBAMOS SER APENAS "HUMANOS" HUMANIZADOS PELO HUMANISMO FILOSÓ-FICO DA HUMILDADE PERANTE O ARQUI-TETO DO UNI-VERSO E QUE POR MEIO DO OLHAR O SENTIR SEJA COMPLEMENTARIEDADE APRENDIZADO CONTINUO DA VERDADE ,SME POSSE, POIS NO PASSADO VIVEU O PRE-SENTE QUE JUSTI-FICA NOSSA LEI-TURA AG-ORA INQUIETADA PELO FUTURO "SER" PRE-SENTE NOVA--MENTE ..FRATERNAL--MENTE SEJAMOS FAMÍLIA VIVA PELA LUTA DO CONHECIMENTO SENSÍVEL DA PÁ-LAVRA ??? A M O R EM AÇÃO SOL-IDÁRIA COM VIDAS HUMANAS NO MUNDO !!!

    CLAUDINHA POETA
    LONDRINA BRASIL
    08 DE ABRIL DE 2011

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  5. Caríssimo Maurício. Mais uma vez me disponho, e mais uma vez concordo que valeu à pena vir, ler e me deixar envolver com suas íntimas divagações. Que beleza de texto e que perfeita abordagem! Parabéns!
    Mas, ao contrário de ti me satisfiz com o simples conhecimento da verdade, pois por ela me fiz liberta.
    Abraços e um maravilhoso fim de semana.

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  6. Hoje em dia as pessoas estão tão carentes que acabam apegando-se à alguem ou alguma coisa, sem se dar conta dessa pura ilusão. Estas precisam de 'chao',mas esquecem que somente elas poderão construir seus 'alicerces', amando-se, essa é a chave........Entao......Parabens Amigo Mentor!

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  7. Olá Mauricio, Parabéns o texto acima é ótimo e nos faz refletimos sobre os ensinamentos que são milenares, um bom exemplo que foi usado neste belo texto, Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos Libertará' (João 8:32)
    O ser humano é um ser evolutivo por natureza pois é racional, e feliz aquele que aprende observando os erros dos outros para não cometer esses mesmo erros com sigo mesmo, pois esse aprimorando o e praticando o que aprendeu tende a evoluir em todos os sentidos.

    Abraços.
    Gerci Moreira.

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  8. Maurício.
    Como é bom ler-te.
    Suas palavras me descrevem.
    Penso assim,sou isso...
    Graças à Deus sou livre de dogmas e paradigmas.
    Procurei Deus em várias doutrinas, demorei para descobrir que ele estava muito perto,em minha minha consciência.
    Hoje "VEJO" Deus!
    Retendo só o que há de bom em todas as religiões.
    Sou livre!
    Fazendo por merecer o sacrifício de jesus na cruz.
    MEU LAR E MINHA "IGREJA" MINHA FÉ MINHA RELIGIÃO.
    UM ABRAÇO...

    CARLA FABIANE

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  9. Maurício, assinaria embaixo desse texto.
    Estou compartilhando, com imenso prazer!

    Beeeijos!!! :)

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  10. Mauricio,
    "Complementaridade", certamente é uma palavra mágica... As pessoas buscam umas nas outras algo a mais, para preencher o que não conseguem entender. Cheias de expectativas, por vezes, buscam naquelas que lhes parecem poder lhes dar as respostas que procuram. Porém, nesta troca, descobre-se que, o que se procura está dentro de si.

    Ser 'humano', é um grande desafio, quando tomamos uma postura de transmitir idéias...
    Meu Adorável "Ser Humano"!!! Não tem que pedir perdão!
    Penso que cabe aqui este lindo Poema de 'Roseana Murray'

    RECEITA DE TOCAR O OUTRO
    Porteira aberta
    para o universo
    cada um é único
    lugar sagrado
    onde árvores antigas
    e estrelas cantam

    tocar o outro
    em sua alma
    como se fosse
    uma flauta.

    Abçs. carinhosos, Ser HUMANO!!!

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  11. Caro Mauricio,
    como foi bom ler suas palavras que vieram de uma alma cheia de verdades e encontros consigo mesma.
    Se tivesse que me expressar,plagiaria seu texto.
    Éducação com princípios religiosos ecumênicos somados á ansia de conhecimento, á inquietude da dúvida e á busca de seu proprio ser,resultam no que todos queremos:
    Liberdade de pensamento com limites da razão.
    Abs shirley

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  12. Maurício,
    Seu texto é profundo e complexo. Mas ter ciência da fragilidade de ser "humano" é o começo. Saber que Deus, o Poderoso, o Magnífico e AMÁVEL Deus, não habita apenas em lugares construídos por mãos humanas, mas sim em cada um de nós, e compreender que Ele não é exatamente aquilo que as religiões pregam, pois julgam segundo a natureza humana nos fortalece na intimidade com Ele. Penso que foi isso que quiseste nos transmitir. Suas ideias são muito interessantes.

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  13. Boa tarde Mauricio, passei para conhecer o Blog e achei mto interessante. Parabéns pelo lindo trabalho...compartilhei no Face. Abçs da Mary

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  14. Nunca em toda minha vida me identifiquei com alguém como me identifico com você.
    Obrigado por nos presentear com o seu saber.

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  15. Obrigado pelo convite à leitura, valeu muito. Tenho uma caminhada religiosa, curiosamente, parecida com a tua. Me orgulho por ter divagado e Deus ter continuado dentro de min.
    Nos veremos em Ágora.


    Hélio Fernandes

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  16. Obrigada pelo convite e parabéns pelo blog.
    Usas uma palavrinha mágica, que penso ser muito: complementaridade
    Muito bem apresentado e organizado!
    Um abraço
    Helô Prado!

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  17. Maurício; concordo com muitos dos seus argumentos que são fantásticos.
    Não concordo quando você fala da nossa pequenez.
    Somos grandiosos, partículas de Deus; somos um com Ele e o que nos falta o mais das vezes é tomar consciência de que somos capazes.Somos os únicos responsáveis pelo que nos acontece. A escolha é nossa.Abraços

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  18. Marco Buschabril 13, 2011

    Fico matutando sobre o caminho ao qual seguiu por sua vida e sobre o que ocorre para lhe dar inspiração para selecionar determinado assuntos e divagar sobre o mesmo, seguindo uma linha evolutiva fantástica.
    Imagino o quão profissional seja! Parar alguns minutos para ler seus pensamentos é tempo ganho, tesouro para a vida
    Um forte abraço.

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  19. Olá, estive no blog da Myrella, onde ela falou muito bem de você. Vim aqui conhecer o seu blog e ler o seu texto. Vejo que ela foi muito justa em tudo o que disse. Parabéns, Mauricio! É um prazer estar aqui conhecendo o seu trabalho. Permita-me lhe convidar a conhecer o meu humilde blog. Abraço!

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jefhcardoso)

    Convido-te para que leia e comente http://jefhcardoso.blogspot.com

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