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sábado, 30 de outubro de 2010

Paradoxos. Paradigmas. Paralelas.




Por Mauricio A Costa*

“Quebrar paradigmas, ou idéias pré-concebidas, permite vislumbrar o mundo além do horizonte das nossas limitadas convenções. Inserir uma visão mais ampla, que contemple múltiplas percepções para um mesmo fato; enriquece nossas decisões, e amplia infinitamente as possibilidades”. (‘O Mentor Virtual’ – Pág. 97 – Editora Komedi – Campinas-SP – 2008).


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Estação de Antwerp
Já passava das seis da tarde quando desci do carro que me trouxera de Bornen, uma pequena cidade na Bélgica, depois de realizar uma importante reunião com executivos da 'Kipling', vitorioso por haver assinado um importante contrato de licenciamento da marca para uma Empresa no Brasil. Entrei despreocupado na Estação de Antwerp, onde tomaria o 'Thalys' para Amsterdam, encantado como sempre me sentia, com aquela obra de arte, cada vez que visitava a cidade. Como o trem só partiria às 19h16min, eu teria tempo suficiente para ler um pouco e fazer algo que sempre foi meu passatempo favorito: observar pessoas. Analisar suas atitudes, reações, comportamentos, e expressões, pois sabia que, com certeza, iria aprender algo novo.

Depois de checar meu bilhete de viagem no guichê internacional e confirmar o horário de partida, acomodei-me em um tranquilo local, da plataforma onde embarcaria, sentindo-me ligeiramente alheio ao movimento em volta de mim. Estava absorto em meio à leitura de Paradoxo Global um livro do escritor americano John Naisbitt, quando por uns instantes parei a leitura, ao dar de cara com um trecho em que ele mencionava uma frase do filósofo Soren Kierkegaard que dizia: “o paradoxo é a fonte da paixão do pensador, e o pensador sem um paradoxo é como um amante sem sentimento: uma reles mediocridade”. (Naisbitt, John - Paradoxo Global - Pág. 4 - Editora Campus - Rio de Janeiro - 1994) Em palavras mais simples: 'a grande motivação daquele que pensa é analisar contradições, duvidar de tudo, questionar o senso comum'.

Kierkegaard
A provocação de Kierkegaard me estimulou profunda reflexão. Afinal, a palavra paradoxo; sempre me pareceu um termo meio complicado e não muito usual, e consequentemente pouco compreendido. Por isso, naquele momento eu desejava entender sua extensão além do convencional, principalmente por se tratar de uma expressão de amplo sentido. Embora, para alguns ela significasse apenas aquilo que é contraditório, ou mais especificamente, a contradição da lógica, para mim essa palavra representava também a ampla possibilidade de se poder interpretar um mesmo fato a partir de múltiplas visões. Isto é, ver a mesma coisa com um olhar diferente.

Jean-Luc Godard

Por alguns instantes, interrompi a leitura, ergui os olhos e comecei a observar à minha volta. Tudo estava quieto, e o ambiente era de agradável tranquilidade. Nenhum trem nas plataformas. Pouca gente circulando. Aqui e acolá, alguns daqueles peregrinos do universo ‘viajavam’ perdidos em introspectivas leituras. Parecia que estávamos todos dentro de uma grande biblioteca. De repente, em meio a toda aquela calmaria, implodindo qualquer eventual convencionalidade, ‘bati os olhos’ em duas lindas jovens de aproximadamente vinte e poucos anos, sentadas frente a frente, com as pernas quase entrelaçadas como se estivem uma no colo da outra. Uma cena digna de um filme de Godard.


Confesso que aquela visão à primeira vista me pareceu inusitada. Para dizer a verdade, eu não me conformava com a ideia de ver duas mulheres tão bonitas entregues às caricias do amor, contrariando aquilo que eu sempre considerara o certo: o velho padrão homem-mulher. E nesse exato momento, por conta de minha estupefação, me sobreveio uma grande dúvida sobre o conceito arraigado que eu trazia em mente. Afinal o que era certo e o que era errado? - Questionei-me. Em silêncio, e numa atitude quase reverencial, dirigi a pergunta ao meu inseparável mentor virtual; um personagem fictício que eu havia criado, e que em momentos como esse costumava me dar assertivas respostas metafóricas, quase sempre em tom declarativo.

Esse tal mentor virtual era uma figura mental, mistura de louco e de santo, que sintetizava todos os grandes pensadores da humanidade que de alguma forma haviam passado pela minha vida. Como uma espécie de 'lego', ele representava o resultado de todo sincretismo que eu havia assimilado, ao analisar elementos díspares, originários de diferentes percepções, a partir de culturas, dogmas e doutrinas de toda ordem. Com uma mente aberta, e o espírito livre no dizer de Nietzsche, eu houvera fundido distintas interpretações numa visão eclética, o pensamento de grandes seres humanos que marcaram suas épocas por conta de um pensar ousado e porque não dizer até revolucionário. Assim, aquilo que eu chamava de mentor virtual era apenas a essência dessa fusão de idéias que a minha alma trazia como síntese da sua leitura do mundo.


Por alguns minutos que mais pareciam séculos, eu mergulhara em profundo silêncio, e agora a palavra paradoxo começava a ganhar um novo sentido em minha mente. O mentor virtual me soprava aos ouvidos que um paradoxo não pode ser apenas uma contradição lógica pelo simples fato de ir contra o senso comum, pois verdade e mentira são partes de um todo que se complementam no dualismo universal, tal qual o quente e o frio. 'O certo e o errado, dizia ele, são visões complementares de um único fato visto de poisções distintas, como uma paisagem vista de um trem em movimento a partir de janelas diferentes'.

Ao voltar meus olhos para aquelas duas mulheres, poucos minutos depois, eu as via apenas como duas almas, que fascinadas por se verem refletidas uma na outra, se atraíam, movidas pela extraordinária energia do amor que arrasta como um vórtice tudo o que estiver sob a sua ação. A partir daí eu não conseguia mais enxergar pecado, erro, ou deturpação da lógica naquela cena. Via apenas a beleza da vida se realizando através do poder da atração, e esse simples fato me fazia explodir milhões de paradigmas que me acompanharam por anos, interligados pelo mesmo tipo de preconceito e discriminação.

No instante seguinte, movido por irresistível compaixão, fechei os olhos por alguns minutos e fiz uma pequena prece por aquelas duas mulheres para que com a ajuda da sabedoria, elas fossem fortes o suficiente para vencer a hipocrisia de milhões de seres que como eu, até minutos atrás, lhes censurava, por conta de esdrúxulos paradigmas assimilados ao longo de milhares de anos.

Pouco tempo depois, o trem de uma daquelas moças encostou-se à plataforma e um abraço prolongado entre as duas parecia selar uma relação enigmática e profunda. Uma delas chorava como se estivesse deixando para trás um pedaço de si mesma. E agora, o meu mentor virtual me devolvia a pergunta inicial de maneira firme e categórica: Você acha que isso que acaba de presenciar é um paradoxo, um paradigma, ou apenas visões paralelas de um universo onde nem tudo que vemos é o que pensamos ver? E eu me senti pequeno. Muito pequeno. Sem respostas, apenas acompanhava com os olhos aquela cena que me fazia lembrar Adriana Calcanhoto cantando Naquela Estação. Uma música que eu sempre achara bonita, mas nunca havia entendido muito bem.



Depois de vagar por tantas estações da vida, eu reflito com certa angústia sobre os milhares de seres humanos discriminados por conta da forma não convencional que viajam suas almas. Tentando construir suas marcas pessoais, debatem-se aflitos, em meio a uma multidão de intolerantes sectários, em busca de respostas para algo que sequer sabem perguntar.


Tornamo-nos algozes de nossos semelhantes de forma cruel e impiedosa, e antes mesmos de procurar entendê-los, formamos um pré-julgamento, quase sempre sustentado por dogmas, doutrinas ou paradigmas tacanhos e ultrapassados, originados em conceitos primitivos, alimentados pelo fundamentalismo de religiões e governos onde a hipocrisia farisaica é o seu princípio.

Hoje, diante da minha limitada compreensão e enorme perplexidade o mentor virtual me sussurra ao ouvido que 'Não há padrões definitivos para nada no universo. Tudo é relativo. Tudo está interligado por um tênue fio de múltiplas possibilidades'.   E numa atitude de enorme agradecimento a esse mentor por aqueles momentos de enorme crescimento, eu acompanho com carinho e respeito Adriana Calcanhotto em sua bela canção, a me lembrar que ‘o meu coração, embora, finja fazer mil viagens, fica batendo parado, naquela estação’...
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*Maurício A Costa é Pensador e Estrategista; ou numa linguagem atual, um ‘Design Thinker’. Foi Executivo/Diretor de empresas como a Kimberly Clark, Grupo Gerdau, Grupo Grendene/Vulcabrás e o Grupo Tecnol (Atual Luxottica). Está disponível para participar (vinculado a resultados) de empreendimentos sérios que estejam em busca da excelência de gestão, e interessadas em aprimorar seu pensamento estratégico para alavancagem de receitas e rentabilidade.
É o autor da série 'O Mentor Virtual', e está disponível para palestras, conferências e workshop (presenciais ou por vídeo conferência) que poderão mudar a sua visão do mundo e alavancar o potencial de sua equipe.


17 comentários:

  1. Muito lindo o seu texto, e como vc abordou o assunto, aliás como usual. Concordo com vc, Na vida tudo é relativo nada é absoluto... Obrig mestre por mais esta lição que nos faz refletir sobre os absolutismos que trazemos durante nossas vidas! bjs.MCristinaMartins

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  2. Caro Mauricio,a leveza é algo marcante em seus artigos.Esse é um trecho do texto que pede uma reflexão: "Tornamos-nos algozes de nossos semelhantes de forma cruel e impiedosa, e antes mesmos de procurar entendê-los, formamos um pré-julgamento, quase sempre sustentado por dogmas, doutrinas ou paradigmas tacanhos e ultrapassados, originados em conceitos primitivos, alimentados pelo fundamentalismo de religiões e governos onde a hipocrisia farisaica é o seu princípio." Quer dizer, julgamos os outros sem nem ao menos lhe dar a possibilidade de defesa e de acordo não com a nossa visão mas com uma visão contaminada, com crenças errôneas,eivada de vícios e permeada com fórmulas pragmáticas para encaixar seres humanos(?) ou fantoches do sitema? em seu pseudo-ideal, rotulando-os em certo ou errado.Quanta demagogia!Parabéns pelo texto.Abraços.

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  3. ADOREI SEU TEXTO ;-D
    KIERKEGAARD COMO TODO BOM EXISTENCIALISTA , TE LEVOU A SE SUPERAR E A PERCEBER OUTRAS DIMENSÕES ONDE A UNICA REGRA É O AMOR E A COMPAIXÃO.
    OUTRO PARADOXO , JÁ QUE ELE ERA BEM PESSIMISTA...
    OBRIGADA PELA DELICIOSA LEITURA E BOAS VIAGENS.

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  4. O pensamento analiza, sustenta, vageia,se impõe fazendo-se com que a frase citada acima se encaixe perfeitamente neste contexto: "a grande motivação daquele que pensa é analisar contradições, duvidar de tudo, questionar o senso comum". Penso que o que dá sentido e convicção as nossas vidas é o que fazemos de coração, de bem com a vida. Adorei...

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  5. izabela monjardimoutubro 30, 2010

    a grande motivação daquele que pensa é analisar contradições, duvidar de tudo, questionar o senso comum.

    é nisso que consiste o motivo pelo qual vivemos...a graça tá aí ....
    adoro seus textos....por justamente nos azerem pensar ..nao tem formula nem receita de bolo

    parabens mauricio !!

    um arande abraço

    izabela monjardim

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  6. Vivo, por me fazer entender, à mercê da compreensão adequada destas palavras.
    Paradoxo: proposição que contraria os princípios do pensamento humano ou colide com as crenças e convicções da maioria das pessoas. Já o paradigma é o padrão que serve como modelo a ser imitado ou seguido.
    Por vezes, exageramos uma pitada em nossas atitudes, ao querermos que todos que nos rodeiam pensem e ajam da forma que achamos adequada e que nem sempre é a melhor escolha. Agindo assim, muitas vezes erramos na atitude....
    Ninguém é dono da verdade. Estas, acuadas pelas críticas, passam a nos ver não mais como parceiros, mas insuportáveis donos da verdade, quando não era esta, nem de longe, a nossa intenção.
    Todos temos graves defeitos de personalidade, para nós, imperceptíveis ou sem importância. Com alguém dando o alerta, o nobre é saber reconhece-los e o sábio é tentar repará-los.

    Mauricio, obrigado por ser nosso Sábio.. nos alertando par deixarmos de sermos tão preconceituosos....
    Um grande beijo de LUZ....:))
    Tatiana Sevaybricker

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  7. Voce conseguiu traduzirum pensamento que eu tinha mas que eu nunca soube como falar sobre isso.E por isso te agradeço.Sinto que meus pensamentos,esse sentido começam a se organizar.Eis a importância de uma boa leitura!Obrigado e um grande beijo!

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  8. Mauricio, que viagem!!! Este texto me fez viajar em um universo paralelo, onde eu era uma personagem vítima do preconceito. Hoje, consigo entender por que as pessoas agiam daquela forma comigo. Elas não conheciam, VOCÊ!

    Infelizmente as pessoas ainda vivem presas a padrões que aprisionam a alma e a inteligência, tornando-as indolentes e alienadas. Este texto me fez refletir o quanto somos pequenos diante do universo.

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  9. Sandra Malatestanovembro 02, 2010

    O pre' conceito,todos temos sem parar para pensar.Ninguem e' dono da verdade e quem somos nos para julgar.Todos temos defeitos a serem corrigidos...Se apontamos um dedo,temos 7 apontados para nos.Obrigada por nos mostrar com sabedoria oque e' a vida e nos direcionar...Cada dia aprendo e cresço mais,mudando minha visão sobre conceitos que vem da infancia e crescemos ensinando oque nos foi passado...

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  10. estamos mesmo acostumados a seguir os padrões morais e éticos da sociedade.
    Você com sua imensa sabedoria nos faz refletir que podemos ser sempre melhores, olhando as coisas por vários pontos de vista e aprendendo a aceitar o diferente.
    Você sempre traz sobretudo a energia do amor.
    parabéns

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  11. Nos libertando no que nos é imposto, muitas vezes por nós mesmos,removendo a blindagem de nossas mentes, abrindo então nossos corações para o que é mais essencial da vida! Seus textos, os tenho, em grau de crescimento e amadurecimento interior e exterior da minha alma em quanto ser humano. Obrigada!

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  12. Muito bom!
    Com o dedo indicador julgamos as pessoas e não nos damos conta que nossas mãos transformam-se numa ARMA.
    Pois aquele dedo que indica(julga) volta-se contra nós TRÊS vezes.
    Parabéns!

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  13. Lendo seu texto estava pensando, quem de nós NUNCA teve uma experiência dessa natureza na infância? A maioria das pessoas, mentem pra não ficar exposto. E nessa fase de infância ocorre de forma INOCENTE no sentimento puro de uma criança, logo, isso confirma que desde qdo AMAR É PECADO!!!
    É a nossa essência, mas a sociedade impôs padrões de relacionamentos e este sentimento puro de amor está muito forte nas mulheres. A verdade é que os homens(sexo masculino) estão 'perdendo' tanta coisa boa! Exemplo disso são nos comentários do seu livro a maioria são MULHEREs. Infelizmente o homem ainda tem VERGONHA DE AMAR!! Abs!

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  14. Maurício, se você conseguir fazer com que metade das pessoas que lêem seus livros, realmente entendam e ponham em prática e não usem apenas como maquiagem, você será um homem realizado...

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  15. Querido Maurício,

    Lindo texto! Sua palavras são reais, assim como os sentimentos que as enchem de verdade.
    O que mais me toca é que neste momento, com todos os conceitos, você teve um sentimento de compaixão e por isso alcançou o que se espera - o amor. Sua janela sempre tem essa paisagem.
    Você é muito especial.
    Amei a forma como você interagiu com você mesmo para "ver" além, em busca de uma consciência maior.
    Seus textos brilham em nós!
    bju

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  16. Ler...sentir...ouvir... Depois ficamos aqui "parados", querendo dizer algo acerca do TEMA! Como, se suas PALAVRAS são tão claras...iluminadas? Elas têm o condão de nos "obrigar" a fazer essa VIAGEM interior. E quer peguemos o trem...o avião...ou apenas circulemos a pé, podemos olhar para dentro de nós e é isso que me encanta...Obrigada, Maurício, por me fazer viajar duma forma tão intensa, dentro de mim! ABRAÇO

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  17. Grata Mauricio por compartilhar tão bela experiência e ter conseguido que eu refletisse mais sobre as diferentes escolhas de cada um e mudasse minha maneira de ver tudo isso.Um grande abraço.

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