Translate The Blog - Click Here / Traduza o Blog - Clique Aqui

sábado, 26 de junho de 2010

Divididos Entre a Razão e Coração



Por Mauricio A Costa*


“Sossega coração! Não desesperes! Talvez um dia, para além dos dias, encontres o que queres porque o queres. Então, livre de falsas nostalgias, atingirás a perfeição de seres” (Fernando Pessoa)
______________________

Construir uma marca forte envolve decisões racionais, diriam alguns marqueteiros profissionais de plantão, sempre prontos a elaborar uma teoria prática que defina em poucas palavras temas complexos, extremamente vinculados ao multifacetado comportamento humano, como a criação de um símbolo que conquiste o coração e a mente de determinado público para sempre.

Uma marca, seja ela comercial ou corporativa, e com maior ênfase ainda uma marca pessoal, exige uma reflexão muito mais profunda; impõe um olhar sensível sobre todas as emoções que envolvem o processo de decisão de um ser humano diante das múltiplas escolhas que necessita operar a cada minuto de sua existência. Não somos máquinas a funcionar de forma automática e pré planejada quando nossas emoções estão em jogo. Nada é previsível nesse contexto. Inúmeras alternativas podem gerar uma simples decisão. O intrincado e muitas vezes desconhecido emaranhado de possibilidades que envolvem uma escolha pode modificar caminhos e destinos em fração de segundos. Somos, na verdade, extremamente vulneráveis por conta da imprevisibilidade das nossas próprias atitudes, quase sempre recheadas de conteúdo emocional.

Não podemos esquecer que nossas decisões são influenciadas não apenas por informações pelo ambiente à nossa volta, mas especialmente por aquelas que carregamos ao longo de milhões de anos mesmo sem que as percebamos claramente. Como ensina Carl Jung, “parte do inconsciente consiste de uma profusão de pensamentos, imagens e impressões provisoriamente ocultos e que, apesar de terem sido perdidos, continuam a influenciar nossas mentes conscientes(Jung, Carl Gustav – O Homem e seus Símbolos – Pág. 32 – Ed. Nova Fronteira – R.Janeiro – 2002). Nossa emocionalidade, é sem dúvida, fruto de possíveis conflitos desse inconsciente, acossado por um sem fim de novas informações, paradigmas, exigências e padrões de comportamento a criar reações das mais adversas diante de momentos decisivos de escolhas.

O que chamamos de razão não passa de um modelo construído por regras que decorrem de um pensar coletivo, resultado do instinto de agrupamento que desenvolveu o homem, em sua luta pela sobrevivência, visando superar adversidades ao longo da história de sua existência. Esse modelo criou padrões éticos e morais, que foram sendo encampados pelas mais diversas religiões e aos poucos tornaram-se normas e leis, a definir conceitos de certo e errado para as mais diferentes sociedades. Com o tempo, esses conceitos passaram a engessar ou limitar o ser humano diante de suas reais possibilidades. Um escravo de suas próprias regras, ignorante dos anseios da própria alma.

A alma, também chamada na antiguidade de coração, é a essência daquilo que somos. A memória invisível de todas as nossas experiências vividas no âmbito da ancestralidade, ou seja, um conjunto de informações acumuladas que chegaram até nós através de nossos antepassados. Por conta disso, é natural que nossa alma ou coração carregue seus próprios modelos e tenha seu próprio jeito de ser. Um desenho peculiar a formar nossa personalidade, e dar o toque de beleza que resulta em nossa identidade, que é única.

E o que seria então viver a própria vida se nos obrigamos a esquecer o que somos na maior parte do tempo em função das expectativas de outros? Como adequar nosso modelo tão pessoal a um sistema complexo, formado por milhões de outras criaturas? Como realizar o sonho individual no ambiente massificado? 
...A resposta parece estar na necessidade de um freqüente mergulho para dentro de nós mesmos e buscar compreender a essência de nossas mais profundas aspirações, o ‘conhece-te a ti mesmo’ de Sócrates, para só a partir daí proceder a escolhas coerentes, definindo como prioridade aquilo que tem significado verdadeiro para nossa vida. Essa recomendação, no entanto, não é algo tão simples de colocar em prática, em vista do medo daquilo que possamos vir a descobrir, ou mais grave ainda, ao descobrirmos, nos darmos conta de que não teremos coragem para realizar aquilo que pede nosso coração. Uma terrível batalha tem início diante desse conflito interior. Razão e coração nos dividem ao meio gerando uma lamentável inércia que pode durar toda nossa existência; para a qual só nos damos conta muito tarde.

As palavras de Fernando Pessoa no início deste texto me causaram indisfarçável angustia existencial ao mesmo tempo em que provocaram toda esta reflexão. A felicidade humana parece depender de um terrível paradoxo; o de estarmos condenados a viver divididos entre a possibilidade de realizar os mais belos vôos de nossas almas e o cativeiro das imposições que definimos como padrões; uma decisão que pode implicar em estarmos abrindo mão daquilo que temos de mais precioso, a liberdade de ser.
_________________________________



*Mauricio A Costa, É estrategista para projetos de ‘alavancagem’ de receitas e rentabilidade. Sua experiência internacional está focada em assuntos ligados ao pensamento estratégico voltado à inovação, criação de valor agregado, e fortalecimento de marcas - comercial ou corporativa. Está disponível, para atuar como Executivo, Assessor, Sócio, ou Membro do Conselho de Empresas.

É o idealizador do Projeto Mentor Virtual; organização comprometida com o despertar da consciência humana, a valorização da vida e o apoio à construção da marca pessoal. Suas palestras, seminários e workshop - presenciais, 'in-company', ou por vídeo conferência - estão disponíveis, para grupos, associações, universidades, escolas, ou empresas em qualquer região ou país.

Contatos: mauriciocosta@uol.com.br


3 comentários:

  1. Dividia entre a razão e o coração.... Para mim, tu sabes Mentor; deverias escrever um outro 'artigo'. Pois, muitas vezes perco a 'razão' e, mau consigo ouvir meu coração. Sou passional, dramática; e, ao mesmo tempo, quando é preciso, tenho os pés bem fincados no chão.... Mas, basta uma leve brisa, para eu alçar voo.... E, abrir meu coração; sem pudor, sem medo.

    Sou paixão, emoção... Há um fogo em mim que arde, dando vazão às minhas escolhas; errando ou acertando, tudo é de coração. Minhas razões, silenciam diante deste fogo em mim. Impossível ficar dividida. Meu coração é maior e mais forte que minha razão.

    Tudo que emana do coração é energia que flui; não reconhece tempo nem espaço... Posso até tocar-te; ainda que não percebas....

    Abçs. carinhosos Mauricio!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A Sabedoria está n o encontro dos opostos. Entre a razão e o coração, a sintonia do que é eterno.
      Um abraço especial, minha cara Amarilis.
      Mauricio A Costa

      Excluir
  2. Em tempos de mudanças e em meio ao caos, que a vida nos impõe; não há espaços para resolvermos todos os desafios com 'paixões e emoções'. Tenho plena consciência, que há momentos, onde somente a 'razão' definirá as melhores escolhas; ainda que esta opção me deixe um pouco angustiada.... rsrs
    O tempo passa... A vida me ensina; quando devo estar firme e focada em meus propósitos e, quando posso me soltar e alçar voo.
    Abçs. carinhosos Mauricio.

    ResponderExcluir

Não esqueça de deixar aqui as marcas de sua passagem...
Seus comentários serão sempre bem vindos.